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Crítica | Os Carrascos Também Morrem

por Ritter Fan
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Qualquer filme de propaganda antinazista merece que o contexto nos leve a perdoar produções por vezes muito enamoradas com seu objetivo de curto prazo que acabam se perdendo como obras cinematográficas cuidadosas. Faz parte do jogo, pois há um motivo nobilíssimo por trás que não pode ser simplesmente ignorado. Claro que isso não quer dizer que “vale qualquer coisa”, mas há que se ter um carinho especial por elas, mesmo reconhecendo os problemas que eventualmente existam.

E há muitos problemas em Os Carrascos Também Morrem, produção notável por ser a única colaboração de Fritz Lang com Bertolt Brecht e também por ser o único crédito do segundo em produção americana, ainda que ele tenha colaborado em outras, mas sem ser reconhecido. Mesmo que Brecht e Lang não tenham oficialmente a posição de roteiristas, o que ficou para John Wexley, reza a lenda que foram as duas lendas europeias que efetivamente escreveram o roteiro, com Wexley apenas conformando-o às exigências do estúdio. Além desse imbróglio de bastidor, o longa também se notabiliza por ser uma produção de 1943 que usa um evento verdadeiro – ou a versão ficcional desse evento – como estopim para a narrativa, de certa maneira funcionando como “telejornal” e filme de propaganda ao mesmo tempo.

O referido evento foi o notório assassinato do Reichsprotektor Reinhard Tristan Eugen Heydrich (vivido por Hans Heinrich von Twardowski em uma ponta de efeito logo no início), oficial da SS que foi um dos principais arquitetos do Holocausto, por uma equipe de soldados tchecos liderados pelo governo-em-exílio da Tchecoslováquia e treinados pela SOE britânica em 27 de maio de 1942. Como o longa é de menos de um ano seguinte, lançado mais precisamente em 27 de março de 1943, o roteiro de Lang e Brecht ficcionaliza completamente o assassinato que, aliás, ocorre off screen, pelo cirurgião tcheco Dr. František Svoboda (Brian Donlevy), membro da resistência de seu país, que, por um azar, fica sem carro de fuga e, portanto, sem o esconderijo anteriormente combinado, sendo ajudado pela jovem Mascha Novotny (Anna Lee) que, então, passa a ser envolvida na violenta investigação capitaneada pela Gestapo.

O que segue, daí, é um jogo de gato e rato repleto de reviravoltas que tem como objetivos maiores divulgar a bem-sucedida operação que levou à morte do monstro nazista (um pleonasmo, eu sei, mas acreditem quando eu digo que Heydrich foi um monstro entre monstros) e elogiar a população tcheca de maneira a influenciá-la a resistir aos invasores. A questão é que, considerando a produção a toque de caixa, nem mesmo Lang com Brecht, com a posterior ajuda de Wexley conseguem montar um roteiro que vá além do puro e simples maniqueísmo dos nazistas ultra-malvados de um lado e do povo tcheco orgulhoso, corajoso e invencível quando age em conjunto, de outro. Além disso, o filme é demasiadamente longo para uma narrativa consideravelmente simples, o que leva à repetições temáticas e idas e vindas que cansam mesmo o espectador mais paciente.

No elenco, os únicos destaques são Walter Brennan como o pai de Mascha, o professor Stephen Novotny, e Alexander Granach como o inspetor da Gestapo Alois Gruber, o primeiro por sua atuação contida, mas muito digna, como um verdadeiro herói que sabe o tamanho do sacrifício necessário pela liberdade e o segundo por ser exatamente o oposto, como um oficial histriônico, maior que a vida, cuja vilania mistura-se com o lado levemente cômico de seus hábitos extravagantes. O restante, inclusive a dupla principal – Donlevy e Lee – falham miseravelmente em captar a importância simbólica de seus papeis, não fazendo mais do que o básico para não parecerem amadores.

Por outro lado, a reconstrução, em estúdio, do centro histórico de Praga, com o uso de tomadas aéreas reais, mostra um grande cuidado com a verossimilhança e, mesmo que por vezes apareçam pinturas de fundo que, de tão simples, distraem o espectador, o resultado final merece aplausos levando em consideração a velocidade da produção. Da mesma maneira, os figurinos funcionam muito bem, especialmente os uniformes nazistas de diferentes unidades, mas isso depende menos desta produção em si do que das dezenas de outras do mesmo estúdio e de basicamente todos os outros sobre a mesma temática, o que, claro, deve ter gerado um guarda-roupa nazista de dar inveja a Hitler.

No final das contas, Os Carrascos Também Morrem passa com louvor as mensagens de deseja passar e, portanto, como filme de propaganda, funciona muito bem. Mas, como obra audiovisual, especialmente uma que vem das mentes brilhantes de Lang e Brecht, o longa deixa a desejar em seus aspectos mais basilares, ainda que, dos filmes-propaganda de Lang, este seja sem dúvida o melhor.

Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die – EUA, 1943)
Direção: Fritz Lang
Roteiro: John Wexley (adaptado por Fritz Lang e Bertolt Brecht)
Elenco: Brian Donlevy, Walter Brennan, Anna Lee, Gene Lockhart, Dennis O’Keefe, Nana Bryant, Hans Heinrich von Twardowski, Margaret Wycherly, Tonio Selwart, Alexander Granach, Reinhold Schünzel, William Roy, Jonathan Hale, Sarah Padden, Byron Foulger, Ludwig Donath, Arno Frey, Edmund MacDonald, Lester Sharpe, Arthur Loft, George Irving, James Bush
Duração: 134 min.

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