Crítica | Os Crimes ABC (2018)

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Não é exatamente comum aparecer uma adaptação de uma obra de Agatha Christie que consiga capturar com bastante intensidade aquilo que o original nos traz e, mesmo assim, criar uma leitura única e cheia de novidades sobre a obra. De maneira muito espantosa, a versão distribuída pela Amazon Studios do livro Os Crimes ABC é uma dessas raras obras, batendo a versão cômica e cinematográfica de 1965 e se equiparando — em qualidade, não em abordagem de universo — à versão da série Agatha Christie’s Poirot, que foi ao ar em 1992.

Gostaria de levantar logo de cara a escalação de John Malkovich para dar vida ao detetive Hercule Poirot. No contexto desta minissérie em três capítulos, a história dos crimes ABC se passa no mesmo momento histórico da versão literária (ou talvez um pouquinho antes, 1933) e a Inglaterra, assim como diversos outros países da Europa, conta com grupos que viam com maus olhos qualquer tipo de estrangeiro, considerados perigosos, sujos, uma verdadeira ameaça para a nação que adotaram como sua. Velho, aposentado a um certo tempo e, para todos os efeitos, “esquecido”, o Poirot dessa versão televisiva é um homem que sofre de diversos males, físicos e emotivos, situação que irá crescer e afetar o detetive de diversas maneiras com o avançar da trama.

A atuação e a preparação física de Malkovich não são as do “Poirot raiz” e certamente irá impactar muitos espectadores. A maquiagem aqui é mais leve, ele não possui os bigodes especialíssimos que notamos nas histórias da Rainha do Crime, em muitas versões para a TV e também para o cinema. Sendo muito sincero, temos um Poirot mais realista, mais cru, talvez mais próximo de um Jules Maigret mais velho e cansado do que de um Hercule Poirot. Todavia, mesmo com essas modificações, notamos a essência do detetive dos livros; um detetive belga vivendo em uma Inglaterra de início dos anos 1930 e sofrendo exatamente dos mesmos vexames que estrangeiros viviam em partes do país, algo que a própria Agatha Christie coloca em seus livros, mas de uma maneira um tanto jocosa e pautada pela ironia do personagem, o que nos faz esquecer ou desviar um pouquinho o sentido xenofóbico de determinadas declarações. Mas não é só isso. Há também questões relacionadas ao passado e à própria formação da identidade de Poirot que a minissérie (vale lembrar, co-produzida pela Agatha Christie Productions) adiciona, e faz isso de maneira quase exemplar.

Digo “quase” exemplar porque os flashbacks que mostram uma cena específica do passado do personagem, durante a 1ª Guerra Mundial, demoram os três episódios para se mostrar por completo e a maneira como a direção de Alex Gabassi conduz essa cena específica acaba nos fazendo esperar por muito mais coisas, uma série de eventos, na verdade, quando em realidade temos apenas um. Sim, é um grande evento e sim, é muitíssimo bem dirigido (e fotografado, como todos os episódios da minissérie), mas está exposto numa linha de repetições que não precisavam existir. E traz algumas sugestões que, ao cabo, não são realmente aquilo que o enredo em tese apontava. Este é o “quase”. Mas no cerne de toda essa questão temos a revelação. Quem é (ou quem era) Hercule Poirot? Christie manteve envolta em muitos mistérios a vida pessoal de seu detetive mais famoso, dando apenas informações essenciais e de grande contexto para que o entendêssemos. Em algumas ocasiões, essas informações são mal lidas e transformadas em verdadeiros horrores (como a configuração religiosa insana de Poirot na versão de 2010 para Assassinato no Expresso do Oriente, por exemplo). Em outras, a leitura vai por um caminho coerente e respeitoso com o personagem. Esta é a que temos aqui.

Se pensarmos que a minissérie coloca o deteve em um mundo que não lhe é mais “amigo” e o afasta de antigos e possíveis parceiros (pobre Japp…), todo o cenário de isolamento de Poirot contribuiu para a construção de sua versão mais dura, de um cinismo um tanto paternal, melancólica e — infelizmente — um pouquinho nas sombras em termos de representação do processo investigativo. Por mais que a atuação de Malkovich seja excelente como esse ‘Poirot-Maigret’, nós sentimos falta dos discursos do personagem, das conclusões e ligações ditas em voz alta, das reuniões, do caminho de investigação com uma mão pesada e com firme voz de Poirot no meio do processo. Aqui, isso é feito mais através da montagem, no ótimo terceiro episódio, do que em cena. Temos alguns bons momentos de execução de deduções e pensamentos sobre este ou aquele hábito do serial killer, mas o que mais se destaca aqui é o isolamento do detetive. E não só dele. A solidão parece ser a marca dos personagens nesta cinzenta Inglaterra.

A construção dos crimes e o desenvolvimento do personagem Alexander Bonaparte Cust (Eamon Farren em excelente atuação) são os grande trunfos da minissérie. A relação da mídia com a polícia (Rupert Grint interpreta muito bem um arredio, egoísta e nada simpático Inspetor Crome), a reação da população e a maneira como as cidades são mostradas são coisas que também se destacam no desenvolvimento da trama, tanto que quando chega o momento da revelação, não há o estranho sabor anticlimático que temos no livro. Muito pelo contrário, o roteiro de Sarah Phelps (que na mesma temporada pisou feio na bola com sua versão de Punição Para a Inocência) consegue fazer outras interessantes ligações em torno do assassino e deixar a revelação e o encontro de Poirot com o assassino para um momento crucial, um toque de maldade, justiça e desalento que, novamente, combina perfeitamente com o que se construiu nesse Universo.

Aqui não há o tom cômico ou a pequena e possível felicidade individual do original. Essa versão de Os Crimes ABC é pautada pela violência vívida e real, dos muitos crimes solucionados tarde demais e onde a punição, claramente, não apaga as feridas que deixou pelo caminho. É verdade que existem bizarrices que atrapalham um pouco a experiência, como aquela desnecessária relação entre mãe e filha no hotel onde ABC se hospeda, ou a relutância estranhíssima de Megan Barnard em tomar um rumo para a sua vida, mas nada disso afeta de maneira ampla a qualidade da história. Com uma estupenda sequência entre Poirot e Franklin Clarke (Andrew Buchan em seu melhor momento de toda a minissérie e a segunda melhor atuação do programa), somos deixados apenas com os sons da morte e a muda voz da consciência falando sobre o dever cumprido e sobre segredos que devem ser mantidos a sete chaves.

Os Crimes ABC (The ABC Murders) — Reino Unido, 2018
Direção: Alex Gabassi
Roteiro: Sarah Phelps
Elenco: John Malkovich, Eamon Farren, Michael Shaeffer, Rupert Grint, Conrad McCroddan, Freya Mavor, Shirley Henderson, Anya Chalotra, Andrew Buchan, Tara Fitzgerald, Bronwyn James, Christopher Villiers, Jack Farthing, Suzanne Packer, Eve Austin, Tamzin Griffin, Lizzy McInnerny
Duração: 180 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.