Crítica | Os Crimes ABC, de Agatha Christie

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Publicado em 1936,  Os Crimes ABC, de Agatha Christie, traz uma série de experimentações da autora, a começar pelo ponto de vista narrativo guiado em primeira e terceira pessoa. Mesmo que ela já tivesse apresentado isso em O Homem do Terno Marrom (1924), a técnica aparece aqui mais elaborada e com uma eficiente troca de pontos de vista, tornando ainda mais intrigante a “investigação particular” do leitor. Essa dinâmica nos leva para outros dois pontos que também dão ao livro um sabor diferente, em se tratando da Rainha do Crime até aquele momento. Primeiro, a escalação de um serial killer (o foco de sua obra até ali haviam sido mais para crimes íntimos); depois, a ocorrência dos crimes em diversas cidades, algo que também não lhe era comum, pois o foco de sua obra até ali tinha sido os assassinatos ocorridos em propriedades, campos, becos… lugares únicos e, na maior parte dos livros e contos, fechados.

O livro começa com um reencontro. O Capitão Hastings está de volta da América do Sul, vindo a Londres para resolver alguns problemas. Em visita ao velho amigo Hercule Poirot, ele rapidamente mata a saudade e rememora alguns momentos que passaram juntos. Seu timing, no entanto, é perfeito (para não dizer… conveniente). O detetive belga mostra ao Capitão uma carta-desafio que recebera, enviada por um misterioso remetente assinando apenas ABC. A pequena missiva pedia para Poirot “ficar de olho em Andover, no dia 21 deste mês” e colocava em xeque a capacidade de o detetive realmente poder solucionar um intricado crime. Como Poirot intuíra, isso era apenas o começo de um longo pesadelo.

O livro é cheio de idas, vindas e embolos de mistérios que ora são muitíssimo interessantes, ora parecem servir apenas para despistar o leitor, sem ter nada a mais em sua concepção. Sim, o mistério em cena é bastante criativo e nunca deixa o público entediado, mas para cada crime a autora adotou um princípio distinto de investigação, sendo que alguns deles traem consideravelmente o gostinho de novidade que o restante do livro apresenta, especialmente no caso dos filmes C e D. Para este último, porém, o bloco das pistas pouco interessantes é mais curto, já que aí o texto ganha agilidade, tendo “a sorte virado as costas para o criminoso“, como Poirot fazia questão de repetir. Aliás, esse momento final é o mais atrativo do livro, trazendo de maneira bem pensada o ponto de vista do criminoso — acompanhamos o último crime acontecendo quase que passo-a-passo –, e trazendo também o resultado de uma caçada que, para nós, já estava muito, muito suspeita.

O discurso final de Poirot, no esperado momento da revelação do verdadeiro assassino, acaba tendo um inesperado ar de anticlímax. A fala não é diferente, em essência, do que Poirot já mostrara, mas parece mais despreocupada; ou preocupada com outra coisa, tendo um distanciamento maior por parte do detetive. Até os intricados meandros de como a preparação do crime aconteceu parecem menos importantes aqui. Já neste ponto, a preocupação do leitor é com um certo homem na prisão e, devo dizer que, pelo menos nessa parte, o livro se encerra muito bem. Poirot parece até um pouco sem paciência no desenvolvimento da narrativa, mas seu coração amolece, de certa forma, diante do tal homem. E as recomendações dele são ao mesmo tempo sacanas e muito engraçadas.

Os Crimes ABC é um livro diferente de Agatha Christie e isso não é apenas para os pontos de estrutura de enredo que eu citei no início, mas também na condução de seu protagonista. É um livro alinhado a uma visão quase jornalística, mais objetiva, um pouco mais fria até. E ainda bem que Hastings está suportável nessa aventura, sem o exagero de suas picuinhas ressentidas em relação ao amigo Poirot. Uma trama intrigante pela particularidade da série de assassinatos, mas com escolhas da autora que não necessariamente agradarão a todo mundo, o que é normal, em se tratando de literatura, não é mesmo?

Os Crimes ABC (The A. B. C. Murders) — Reino Unido, 6 de janeiro de 1936
Autora: Agatha Christie
Editora original: Collins Crime Club
No Brasil: Editora Nova Fronteira (2015)
Tradução: Rocha Filho
247 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.