Crítica | Os Crimes do Alfabeto

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Filme da reta final da carreira do diretor Frank Tashlin no cinema, Os Crimes do Alfabeto é uma adaptação cômica do romance Os Crimes ABC, de Agatha Christie. A primeira fase da produção tinha a ideia de elencar Zero Mostel no papel de Hercule Poirot, mas o início das filmagens demorou consideravelmente para começar, dadas as objeções da Rainha do Crime para com o roteiro. Um pouco a contragosto, sua autorização foi dada e o filme seguiu adiante, mas com Tony Randall dando vida ao famoso detetive belga, assumindo com sucesso o tipo de personagem cômico numa posição que deveria ser séria; posição que o diretor Frank Tashlin sabia explorar muito bem, pois construíra uma carreira dirigindo os mais diversos tipos de comédia, com as mais diversas mesclas de gêneros.

Embora exista uma enorme diferença em relação ao romance (aqui, temos apenas a ideia central dos assassinatos, com a forja de um bode expiatório e a presença dos guias ABC nas cenas do crime), o longa consegue um resultado inesperadamente positivo ao retrabalhar a presença de alguns personagens e até mesmo alterar a concepção geral para Poirot, o que é sempre um ponto delicado nas adaptações de obras da Rainha do Crime. A questão é que um Poirot bufão neste filme, cabe perfeitamente às intenções do roteiro, e vejam que, se isso acontece com o protagonista da obra, imaginem com os coadjuvantes.

O maior destaque dentre essas mudanças vai para o Capitão Hastings (Robert Morley), que não tem absolutamente nada da versão original, mas, confesso, está muito melhor assim. Seu desenvolvimento é bem caricato e o ator faz um ótimo trabalho ao imprimir uma face mais séria a um personagem atrapalhado e azarado, contudo, companheiro e sagaz quando chega o momento certo. Eu ainda preferiria que ele aparecesse como um parceiro de longa data de Poirot, mas esse “primeiro encontro” entre os dois não atrapalha o andamento da história, posto que o próprio detetive bigodudo é tratado como uma novidade no Reino Unido e, por questões óbvias, a produção deslocou a investigação dos anos 30 para os anos 60, evitando os esperados problemas de orçamento para um “filme de época“. Além de fortalecer a abordagem cômica de um “detetive antiquado em uma Nova Era da polícia britânica”.

Tashlin faz o que pode para inserir gags e outras brincadeiras visuais ao longo do filme, mas é na primeira parte que ele alcança os melhores resultados. O espectador encontrará elipses inteligentes; montagem interna que brinca com o deslocamento dos personagens e edição que brinca com os espaços onde esses personagens estão; jogos internos como ponto de partida para aluns encontros (vide a cena do boliche); e um hilário jogo de espelhos que é o meu favorito momento da direção nesse filme, quando Poirot se encontra com Hastings pela primeira vez, na sauna. Junto a isso, o ponto de partida metalinguístico e com quebra de quarta parede mais o cameo maravilhoso da grande Margaret Rutherford, como Miss Marple, ajudam a coroar a comédia e abrem o leque de tratamento para o protagonista e para a obra de Christie como um todo.

Os problemas do filme começam a aparecer no segundo ato, quando o assassino vai pouco a pouco ganhando forma. E aí também começamos a colocar o pé atrás em relação ao próprio andamento da investigação realizada por Poirot. Se o seu encontro com a personagem de Anita Ekberg (em atuação canastrona) é o ponto de partida para a sua entrada no jogo a médio prazo, o roteiro parece não querer dar a Poirot espaço para ele pensar de maneira mais metódica, o que para mim, foi um erro. Notem que eu não me importei com a transformação do detetive em uma persona cômica. Isso diverte e serve bem à proposta do filme. Mas daí até tirar dele a oportunidade de SER um detetive é outra história, e daquelas bem ruins. A investigação segue, mas não da maneira que esperamos de Poirot. Os encontros, deduções e induções são superficiais, majoritariamente caricatos, óbvios… e servem mais como gancho para uma piada do que para andamento da resolução do crime, o que podemos dizer ser um outro passo em falso do texto, já que o roteiro estava muitíssimo bem servido de piadas (literais e visuais); não era necessário mais uma fonte para elas.

Os Crimes do Alfabeto é, em primeiro lugar, uma comédia baseada na obra de Agatha Christie. Em segundo lugar é que aparece o mistério, mas a sua exploração não é nem de longe a real preocupação da fita. Em alguns momentos isso atrapalha a nossa apreciação da obra, mas na cena seguinte já estamos rindo com uma situação em que Hastings se meteu ou com o passo seguinte para a investigação em andamento. Vale para dar umas boas risadas, apreciar um criativo trabalho de direção e uso de câmera e ver como um enredo tão sério como o de A.B.C. Murders pode ser reinterpretado e colocado em uma comédia com boas doses de maluquice.

Os Crimes do Alfabeto (The Alphabet Murders) — Reino Unido, 1965
Direção: Frank Tashlin
Roteiro: David Pursall, Jack Seddon (baseado na obra de Agatha Christie)
Elenco: Tony Randall, Anita Ekberg, Robert Morley, Maurice Denham, Guy Rolfe, Sheila Allen, James Villiers, Julian Glover, Grazina Frame, Clive Morton, Cyril Luckham, Richard Wattis, David Lodge, Patrick Newell, Austin Trevor, Alison Seebohm, Windsor Davies, Sheila Reid, Stringer Davis, Sally Douglas, Drewe Henley, Margaret Rutherford
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.