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Crítica | Os Croods

por Luiz Santiago
2.694 (a partir de agosto de 2020)

Filho de um estúdio que há anos vem apostando em histórias familiares com lições de moral diversas e, em boa parte, recorrentes, Os Croods é um amálgama de situações e composição estética que vão de Shrek (o tema dos brucutus desastrados com um grande coração) até A Lenda dos Guardiões (o peculiar e inventivo trabalho imagético, tanto no quesito “invenção de mundos” quanto no quesito “arte & cores”). O resultado não poderia ser nada além de um longa divertido, com visual deslumbrante e, seu ponto fraco, o martelar dos elementos morais que ressaltam o caráter batido da história, mesmo que admitamos ser bem contada.

Considerando a leva recente das animações computadorizadas da DreamWorks, Os Croods é uma bem-vinda surpresa no que se refere ao modo de apresentação da história e sua relação com o todo. O roteiro não é marcado por diálogos sensacionais – a história tem um caráter mais físico-imagético do que textual – porém, o pouco que é dito funciona bem dentro da proposta e nos faz estender inúmeras relações com links externos, tais como o Mito da Caverna, a evolução, a extinção, a deriva continental e a noção de família em pleno Paleolítico (gosto muito de reescritas históricas), ponto a partir do qual o texto se afunila para arranjos morais e valores éticos, contextos bonitos, é verdade, mas jogados sem moderação para o público, o que acaba incomodando o espectador pelo caráter clichê que tem no final.

O ponto de partida do filme é a ideia de proteção dos Croods em um mundo hostil. Viver dentro da caverna, ter medo de tudo quanto é novo e fugir do escuro são exemplos de como a família e especialmente o seu líder (Grug, voz original de Nicolas Cage) passam os anos. O modo de caça desses simpáticos Neandertais é o mais selvagem possível e brinca com uma referência mitológica “libere o bebê [Kraken]!” e outra desportiva: o futebol americano.

Fora isso, temos poucas indicações do cotidiano da família, e devo dizer que os diretores acertaram quando escolheram o “contar histórias” ligado à arte rupestre para constar como um desses raros momentos do dia a dia. O ritmo mais lento da montagem também ajuda a criar uma atmosfera de estagnação, destacando ainda mais a vida após a chegada de Guy (um Homo Sapiens – e para que não haja dúvidas: sim, Neandertais e Sapiens conviveram juntos por um tempo) à caverna dos Croods.

O impasse causado pelo senso de liberdade de Eep, a filha mais velha (e Princesa Mérida da DreamWorks), e os valores familiares de Grug, o patriarca, geram o contexto familiar emotivo que pauta o final da história. Nesse contexto, o caminho percorrido por todos os integrantes da família acaba sendo o de de superação e aprendizado, embora apenas três deles se destaquem nesse ponto: Grug, Eep e Guy. Não é necessário estender uma análise apontando a semelhança dessa situação com roupagens já vistas por nós em outros lançamentos do estúdio como o já citado Shrek, mas também em Os Sem-Floresta, Madagascar, Como Treinar Seu Dragão e Megamente.

O que supera essa camada de “já vi antes” é a qualidade técnica do longa, embora isso seja subjetivo, uma vez que para certos espectadores, algumas falhas nunca conseguem ser superadas em um filme. Mas Os Croods é bem mais do que uma retomada de valores da casa de onde ele nasceu. Se olharmos para o cuidado na construção de cenários, o humor visual e a torrente de referências e ironias em cenas como o primeiro encontro de Eep e Guy; o alumbramento dos Croods ao ver uma floresta pela primeira vez; a passagem pelas plantas carnívoras; Grug e Guy atolados no piche e “o fim do mundo”, veremos que a diversão vai além da beleza do que está na tela, das cores em alto contraste e brilho, do notável número de detalhes – especialmente em destruições de rochas – ou da ótima trilha de Alan Silvestri.

Os traços mais rústicos e disformes para as personagens de Os Croods possuem uma justificativa paleontológica de concepção, embora algumas pessoas clamem por verossimilhança de aparência entre esses trogloditas e a atual fase de nossa espécie. A mesma coisa se dá em relação ao ambiente em que a aventura se passa. Mesmo que a estrutura do lugar tenha mais a ver com Avatar do que com a Terra, a recriação de fauna e flora exóticas condiz perfeitamente com o período, e dentro do universo do filme, couberam com uma luva.

Mesmo com problemas de roteiro, Os Croods se destaca em meio as animações lançadas em 2013. O interessante é que o filme não tem aquele caráter de apreciação apenas para o público infantil, podendo ser visto e entendido de forma diferente dependendo do espectador. Quem diria que uma animação ambientada na Pré-história pudesse ser tão boa?

Os Croods (The Croods) – EUA, 2013
Direção: Kirk De Micco, Chris Sanders
Roteiro: Kirk De Micco, Chris Sanders, John Cleese
Elenco (vozes originais): Nicolas Cage, Emma Stone, Ryan Reynolds, Catherine Keener, Cloris Leachman, Clark Duke, Chris Sanders, Randy Thom.
Duração: 98 min.

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