Crítica | Os Delírios de Consumo de Becky Bloom

Os delirantes momentos de consumo de Becky Bloom promovem muita identificação por conta de uma questão bem simples e objetiva: a personagem pode ser uma representação cabal ou parcial de “todos nós”, integrantes da sociedade de consumo. Vejamos o caos dos grandes centros urbanos durante o período natalino. Como lidar com as enormes filas, repleta de pessoas comprando presentes que não podem dar, mas que precisam por causa das tradições? O que dizer de indivíduos que na véspera da Black Friday, tomam dinheiro emprestado para não ficar de fora de um dos eventos de consumo mais badalados e enganosos do ano? São questões comuns em nosso cotidiano e Os Delírios de Consumo de Becky Bloom nos faz lembrar que todo esse caos se tornou algo basicamente “normal” em nosso tecido social diário.

Na tal sociedade de consumo, termo designado por diversas áreas do saber, mas conhecido nas discussões filosóficas graças ao livro de Zygmunt Bauman, bem como em algumas considerações de Nestor Garcia Canclini em Consumidores e Cidadãos, nós não apenas forjamos a nossa identidade por meio de práticas de consumo, mas também estabelecemos as regras de convivência dentro destes mecanismos. Não consumir é estar fora de moda, é ser careta, fazer parte da tribo dos desatualizados e pouco relevantes numa sociedade cada vez mais aderente das “aparências de plástico”, tais como a bota tão desejada pela personagem numa liquidação, motivo para uma briga homérica que terminou com a desilusão ao descobrir o material que compõe 95% do objeto de consumo tão desejado.

Na tal sociedade de consumo, termo utilizado para a designação de uma sociedade caracterizada pelo consumo mássico de bens e serviços, parte de um mecanismo com elevada produção, Becky Bloom (Isla Fisher) é uma jornalista que deseja ir além em sua profissão. Ela trabalha numa revista de jardinagem, mas sonha em ser uma das participantes do seleto grupo da Moda, isto é, parte da luxuosa revista Allete, publicação que segue a linha de produção e os esquemas de trabalho semelhantes ao ambiente fashion de O Diabo Veste Prada. Sob a direção de P. J. Hogan, cineasta que parece entender bem as mulheres, haja vista a suas incursões bem-sucedidas em O Casamento de Muriel e O Casamento do Meu Melhor Amigo, a produção em questão, Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, teve o roteiro produzido pelo trio formado por Tracey Johnson, Tim Firth, Kayla Alpert, inspirados no romance de Sophie Kinsella, um dos sucessos literários da época.

Ao longo dos 104 minutos de filme, acompanhamos as peripécias de Becky Bloom diante das tentações do consumo, desde o marketing exibido nos meios de comunicação aos manequins das vitrines que, dentro de sua concepção de mundo, dialogam com a jovem, tendo em vista seduzi-la para as compras. Sem autocontrole, Becky possui sete cartões de crédito, seu quarto parece um provador de uma grande loja de marca, produtos oriundos de alguém que consomem mais do que de fato ganha com o trabalho que exerce. Interessada em sair da revista de jardinagem, a moça pretende chegar aos meandros da Allete, mas acaba conhecendo Luke Brandon (Hugh Dancy) e, diante de situações cheias de coincidências e ajustes narrativos, desenvolve um trabalho que não é bem a sua praia: publicações numa revista sobre questões econômicas. Como proceder num espaço discursivo que não lhe pertence? Talentosa, Becky consegue disfarçar as suas artimanhas consumistas e mantém o seu emprego, mesmo diante de tantas histórias mirabolantes e mentirosas. Atrapalhada, ela cativa por seu humor e destreza para se livrar das situações mais absurdas que o espectador possa imaginar.

Refém do consumismo, ela se torna a Garota da Echarpe Verde depois da publicação de um editorial bastante comentado. Como o sucesso de suas colocações e o desejo cada vez mais intenso das pessoas em conhecer tal garota, como se esconder de seus algozes?  Ela é caricata e aparentemente boba? Sim, mas muitas de suas falas em cena são carregadas de complexidade, o que produz um efeito de reflexão muito engajada diante de tantos momentos de puro entretenimento. É preciso lembrar que a produção faz parte do circuito industrial de produção e interesses amorosos, conflitos dramáticos burlescos e uma ou outra situação vilanesca em determinados trechos da comédia romântica são necessários para engendrar o interesse do público. Sem isso, a produção não consegue chegar mais perto das massas, na tentativa de leva-las ao processo de reflexão sobre o que consomem, afinal, conforme a legislação vigente, até mesmo assistir a um filme no cinema é um ato de consumo, você sabia?

Assim, constantemente, a personagem questiona-se. Em alguns trechos, ela faz afirmações, ao dizer “quando eu compro, o meu mundo fica melhor”, “o mundo é melhor e depois deixa de ser, aí eu compro outra vez”, “quando eu olhava a vitrine eu via outro mundo”, etc. Com diversas necessidades dramáticas, a satisfação da personagem é suplantada a cada instante, pois os produtos que deseja são substituídos cotidianamente pela máquina de ilusões da Publicidade e Propaganda. A jovem é o exemplo cabal de alguém que possui expectativas de consumo maiores que as suas probabilidades reais de compra e condução de seus pagamentos. Numa das passagens, reflete que “um homem nunca vai te amar ou te tratar tão bem quanto uma loja”. Dentro da proposta do filme, essa e outras afirmações e solilóquios completam o circulo de alienação de Becky Bloom, personagem com graves problemas de ordem psíquica.

Gravitam ao seu redor uma série de personagens adjuvantes e oponentes. Suze (Krysten Ritter) é a sua grande amiga, pessoa com quem divide o apartamento, mas nunca paga o aluguel. A motivação é um tanto óbvia, pois mergulhada no consumo desenfreado com os seus cartões de crédito, a mola encontra-se constantemente endividada. Jane Bloomwood (Joan Cusack) é a sua mãe, tão tranquila quanto o seu pai, Graham Bloomwood (John Goodman), casal financeiramente estável e seguro das suas reais necessidades. Alette Naylor (Kristin Scott Thomas) é a “diva”, editora e proprietária da revista Allete, o símbolo da moda na cidade. Ela é tudo que Becky deseja ser, uma mulher aparentemente feliz, dona de si, rica e que respira moda. Derek Smeath (Robert Stanton) e Alicia Billigton (Leslie Bibb) são os personagens que representam a seara vilanesca da narrativa, exaltados pela direção de fotografia que os deixam ainda mais altos e imponentes do que já são. Alicia é a assistente de Allete, dona da vaga que Becky sempre desejou tanto. Ela também é interessada em Luke, óbvio par amoroso da protagonista, situação guardada convenientemente para o desfecho da trama. Derek é o cobrador das dívidas da jovem, irritado com a falta de contato e perspectiva de pagamento, com a garota sempre a se desvencilhar.

Becky Bloom é personagem do mesmo estilo narrativo que as personagens de Sex And The City, Na Roda da Fortuna, Psicopata Americano, As Patricinhas de Bevery Hills, dentre tantas produções que abordam o consumo como mola propulsora de grande parte das relações sociais da atualidade. “Eu gosto de fazer compras, há algo de errado nisso?” questiona-se Becky Bloom, garota levada pelos ditames da moda, seara de interações repleta de amplos significados culturais, onde o consumo em muitos casos funciona como uma espécie de amenizador do vazio da própria sociedade em que as pessoas convivem. A necessidade de prazer diante da compra é uma forma de dar conta do esvaziamento de sentidos, da sensação assombrosa de angústia que nos paira diante das incertezas da vida cotidiana.

Logo após a sua situação de provação, momento de grande aprendizagem para a protagonista e, porque não, para o espectador, Becky Bloom consegue se tornar uma jovem mais adequada e menos mergulhada pela futilidade das exigências de uma sociedade que não tem nada de fictícia. A Nova Iorque do filme é tão realista quanto qualquer grande centro urbano do planeta, um espaço regido por exigências mercadológicas que nos deixam muitas vezes marginalizados quando não somos parte de seus esquemas de consumo. Como lição, a divertida narrativa nos deixa uma série de questionamentos. Conhecemos nosso consumo? É por impulso ou racional? Já temos em casa o que ficamos interessados em comprar numa loja? Compro por necessidade ou por desejo de acionar a descarga emocional que logo depois se torna uma opressiva busca por conseguir equilibrar o que recebo e o que consumo? Na constante paráfrase de Descartes, presente em diversas reflexões sobre o assunto, “Consumo, logo existo”. Pode até soar clichê, mas talvez seja uma das melhores maneiras de traçar as considerações finais de uma narrativa deste quilate, não é mesmo, caro leitor?

Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (Confessions of a Shopaholic/Estados Unidos, 2009)
Direção: P. J. Hogan
Roteiro: Kayla Alpert, Tim Firth, Tracey Jackson
Elenco: Hugh Dancy, Isla Fisher, Joan Cusack, John Goodman, John Lithgow, Kristin Scott Thomas, Krysten Ritter
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.