Crítica | Os Desconectados

É neste caminho que Os Desconectados segue com a sua trajetória dividida em três grandes blocos que se encontram entre um ponto e outro. Há ausência de limites para as ações dos personagens, vítimas e algozes não sabem a hora certa de colocar ao menos um ponto de segmento antes de dar continuidade diante de seus atos ao navegar nas caudalosas e perigosas águas da cibercultura. É o que acontece com o casal Cindy (Paula Patton) e Derek (Alexander Skarsgard), prejudicados com clonagens de cartões de crédito na internet; com a repórter Nina (Andrea Riseborough) e seu tema de investigação, o jovem Kyle (Max Thieriot); e com Ben (Jonah Bobo), um rapaz desajustado diante de suas inseguranças, tornando-se vítima do ciberbullying de dois perversos adolescentes da sua idade no ambiente escolar. Plano Crítico.

O ciberespaço é dotado de variadas possibilidades para pessoas em diversas situações dentro de seus respectivos cotidianos. Terminou o namoro e decidiu partir para outra de imediato? Basta baixar algum aplicativo de paquera e dar o “match” em seu próximo interesse, não é mesmo? Nos primeiros anos da democratização da rede, as pessoas entediadas podiam deixar a exclusividade dos livros ou da meditação para ir se divertir nas salas de bate-papo e assim, conhecer pessoas de idades, gostos e credos diferentes, sem muita dificuldade, supostamente mais fácil que ir para uma festa e estabelecer novos contatos. Como sabemos, pois estamos inseridos em totalidade na cultura do ciberespaço, as vantagens de ser parte desta fase da história da humanidade são grandiosas, mas tudo isso também vem com um preço nada em conta, já que nós, seres humanos, temos sérios problemas com autocontrole e aplicação da palavra-chave “limite”.

É neste caminho que Os Desconectados segue com a sua trajetória dividida em três grandes blocos que se encontram entre um ponto e outro. Há ausência de limites para as ações dos personagens, vítimas e algozes não sabem a hora certa de colocar ao menos um ponto de segmento antes de dar continuidade diante de seus atos ao navegar nas caudalosas e perigosas águas da cibercultura. É o que acontece com o casal Cindy (Paula Patton) e Derek (Alexander Skarsgard), prejudicados com clonagens de cartões de crédito na internet; com a repórter Nina (Andrea Riseborough) e seu tema de investigação, o jovem Kyle (Max Thieriot); e com Ben (Jonah Bobo), um rapaz desajustado diante de suas inseguranças, tornando-se vítima do ciberbullying de dois perversos adolescentes da sua idade no ambiente escolar.

Vários personagens gravitam em torno destes personagens, complementares em seus diálogos expositivos e funcionais para permitir que os conflitos centrais ganhem os desdobramentos necessários até o desfecho da história dirigida de maneira eficiente por Henry Alex Rubin, bem guiado pelo roteiro de Andrew Stern, num filme que consegue, como poucos, mesclar o entretenimento com a crítica social sem cair no didatismo excessivo de Confiar, tampouco ser arrastado, sem perspectiva, etc. Ao contrário, depois que você adentra como espectador nesta história, torna-se quase impossível sair ileso, sem refletir o nosso próprio comportamento diante de coisas que parecem ficcionais ou bobagens, mas que já são parte dos acontecimentos de nosso tecido social contemporâneo.

O casal citado está em crise. Perderam o bebê recentemente e o relacionamento não caminha de maneira favorável, mas ainda assim eles estão juntos. Cindy, insatisfeita com a situação e entediada, começa a acessar conteúdos on-line para chat e passa quase o dia todo olhando sites e tentada ao consumismo. Fragilizada diante dos últimos acontecimentos, conhece um homem viúvo e que passa por algo parecido. A conexão com o sofrimento do outro é imediata. A sensação de pertença, a ilusão de aparentemente conhecer a dor do outro e conseguir se unificar a quem ela sequer conhece pessoalmente não demora muito. Logo os seus cartões de crédito são clonados, dívidas imensas começam a chegar e a relação com o marido fica ainda mais estremecida. Como resolver? Um detetive particular, parte de outro segmento do filme, vai entrar investigar para tentar descobrir os problemas.

As coisas se desdobram ainda mais quando descobrimos que o suposto criminoso que lesou o casal, Stephen Schumacher (Michael Nyqvist), também é vítima da situação. O seu computador foi utilizado como proxy, um servidor que age como intermediário para a requisição de recursos de outros servidores. Enfim, uma teia gigantesca de problemas que as pessoas não se dão conta ao achar que a internet está apenas na superfície do navegador que abre para se conectar. São pessoas inteligentes que tomam decisões estúpidas quando estão mergulhadas em problemas que não conseguem resolver de maneira imediata. É a sociedade do impulso, do imediatismo, das etapas que são puladas sem ao menos alguma reflexão. Em suma, a nossa realidade, a ansiedade de conseguir acessar um conteúdo sem antes verificar todos os cliques em que “assinamos” algo, os testes estúpidos que fazemos para saber como seremos em quatro décadas ou qual seria killer define a nossa personalidade. Brincamos, clicamos e fornecemos dados.

Em paralelo ao casal temos a eficiente repórter Nina, dedicada ao seu processo evolutivo no trabalho. Ela é ambiciosa como toda profissional que precisa se manter relevante no mercado e garantir a sua sobrevivência nos grandes centros urbanos. A sua próxima investigação flerta com os sites que ofertam menores ou pessoas ainda muito jovens como modelos para serviços pornográficos. É em sua navegação que ela descobre Kyle, jovem de apenas 18 anos que não consegue imaginar outra maneira de sobrevivência a não ser a exploração de seu corpo na rede. Inicialmente ela o procura e inicia um papo. Ele questiona se ela vai querer ou não olhar o seu esculpido corpo nu, o que causa estranheza, pois Nina pede apenas para ampliar o diálogo. Não demora, a repórter expõe os seus interesses, mistura as coisas, pois se envolvem afetivamente com o rapaz, consegue convencê-lo da entrevista e ganha projeção nacional quando o material é levado para a mídia. Até mesmo a CNN decide exibir a polêmica história.

A matéria faz uma reflexão contundente sobre do mercado em questão e aponta características comuns aos predadores sexuais dispersos na internet. As suas boas intenções naufragam quando o FBI decide oprimir os envolvidos no processo e descobrir as fontes de Nina, algo que conforme a ética do jornalista, não pode ser divulgado. O que fazer? Como Kyle vai se manter? Tudo bem que era do interesse da moça tirar o rapaz deste “submundo”, mas com isso ela desestrutura toda uma cadeia que a coloca em risco, pois retaliações são quase certas e a polícia não vai sossegar até descobrir os caminhos percorridos pela profissional que também pode ficar descredibilizada pelos colegas por trazer uma série de polêmicas para o exercício da função em questão. Ipads, smartphones, tablets, notebooks e outros suportes tecnológicos compartilham a matéria que se espalha como um rizoma, para o “bem” e para o “mal” da situação. Os limites, neste segmento, não estão voltados para o comportamento da repórter, adequado de certa forma, mas para a própria rede e seus recursos que violam Direitos Humanos e afins.

Com Ben as coisas não são diferentes. Ele é parte de uma geração que durante eras, sofreu repressão na escola por causa de seu comportamento recatado. São seres humanos com dificuldade de conexão e que infelizmente encontram em seus respectivos caminhos, adolescentes perversos e guiados por uma vontade imensa de prejudicar, causar dor, ser algoz para comprovar a sua relevância e poder diante dos demais. Aqui, Jason (Colin Ford) e Frye (Aviad Bernstein) são os personagens que cumprem esses papeis ao se passar por Jessica, uma garota fictícia que supostamente tem interesse em Ben após tê-lo visto em seu Facebook. Entre conversas e flertes, o momento da troca de nudes se estabelece e o jovem sequer imagina que a sua imagem será compartilhada para toda a escola, numa humilhação pública que o leva a tentar suicídio por enforcamento em casa, impedido pela irmã que consegue chegar e encontra-lo numa situação já comprometedora, quase com a vida ceifada. Para Ben, não há limites na entrega de sua vida pessoal nas redes, bem como não há noção para a dupla causadora dos transtornos.

Os seus pais, Rich (Jason Bateman) e Lydia (Hope Davis) estão em constante quebra da linha de comunicação por causa das dinâmicas sociais cheias de agendamentos extensos. São gestores familiares que se adequam numa geração que creditam ao ambiente escolar a responsabilidade de cuidar de seus filhos, pois o tempo frenético contemporâneo e as dispersões tecnológicas tomam bastante tempo de nosso dia. Focado constantemente em seu BlackBerry, Rich ignora as preocupações e necessidades de seus filhos, algo que talvez pudesse ter evitado os desdobramentos do cyberbullying sofrido na escola. Ele sai ensandecido depois do acontecimento e busca retaliação. Ele precisa honrar o seu filho e vingar o sofrimento infligido ao rapaz enganado por dois jovens sádicos, um deles, filho de Mike (Frank Grillo), o ex-policial que se tornou detetive particular e investiga o caos do casal Cindy e Derek, a dupla dos cartões clonados. Mike descobre as ações do filho. Repreende, mas protege, ao destruir as provas.

O embate entre os pais é tenso, mas o filme evita e não segue o caminho da violência como resolução dos seus conflitos que não aderem aos plot twists. Tudo é muito linear começo, meio e fim, causas e consequências, desfecho sem excessos e manutenção do ritmo adotado desde o início. Conduzidos pela trilha sonora atmosférica de Max Ritcher, os personagens desta saga circulam pelos espaços do design de produção de Dina Goldman, ambientes que focam no realismo e investem em objetos e cores que refletem os perfis psicológicos dos personagens, haja vista a direção de arte de Jennifer Dehghan, também cuidadosa na condução dos pormenores visuais. Cabe ressaltar os efeitos visuais da equipe de Jeff Owzniak, também funcionais para alguns trechos de uma narrativa voltadas aos aspectos tecnológicos da nossa sociedade de informação, material que se apresenta em prol do avanço de questões, não como disfarce para nos alienar diante da falta de conteúdo.

É uma série de acertos dramáticos e estéticos que deveriam tornar este filme mais conhecido e veiculado como conscientização da nossa relação em rede no atual panorama que tanto discute o comportamento humano diante da tecnologia. Ademais, ao longo de seus 115 minutos, Os Desconectados é uma produção que retrata parâmetros que já não eram novos em 2012, quando o filme foi lançado. Era a análise de algo que já estava estabelecido. Atualmente, quase dez anos depois, muitas coisas mudaram no sentido positivo, como as leis e marcos em busca de ajustes na investigação criminal cibernética, mas nós, seres humanos, ainda não aprendemos e provavelmente, conforme as previsões nada animadoras, não conseguiremos nos ajustar diante de tantas seduções, facilidades e promessas que nos pegam em momentos muitas vezes delicados. Tais como os personagens do filme, nos encontramos conectados demais com a virtualidade e desconectados com os riscos que nos circundam quando nos expomos demasiadamente, numa era em que as pessoas dificilmente encontram os seus próprios “limites”.

Os Desconectados (Disconnect) – EUA, 2012
Direção:
 Henry Alex Rubin
Roteiro: Andrew Stern
Elenco: Jason Bateman, Hope Davis, Paula Patton, Michael Nyqvist, Andrea Riseborough, Alexander Skarsgård, Max Thieriot, Colin Ford, Jonah Bobo, Norbert Leo Butz, Haley Ramm, Aviad Bernstein
Duração: 115 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.