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Crítica | Os Dez Mandamentos (1956)

por César Barzine
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No início de Os Dez Mandamentos, há um momento incomum para qualquer filme: o diretor se apresenta pessoalmente num palco como prólogo da produção que estar por vir. Mas qual o motivo dessa presença? Ela é resultado de três pontos: um projeto megalomaníaco, uma execução intensa e um resultado épico. Diante de tal grandeza, Cecil B. DeMille faz questão de se expor, pois ele tem consciência de que sua obra não é apenas mais um filme em cartaz. É um espetáculo, um evento – algo parecido com o final do Super Bowl. Essa grandeza se reflete tanto no alto custo do filme (13 milhões de dólares) quanto em sua primeira posição entre as maiores bilheterias da época (122 milhões de dólares). O diretor, que já era famoso por seus épicos bíblicos, levou a sua identidade a um ponto inimaginável, criando um filme-síntese daquilo que entendemos como épico.

“Grandioso” pode ser o adjetivo que abarca todos os aspectos do longa-metragem, caminhando em uma onipresente aura de indiscrição. Mas a verdadeira atração da obra de DeMille é o seu romantismo. Aliás, pode-se dizer que, antes de ser um filme grandioso, Os Dez Mandamentos é um trabalho romântico. Aquilo que é grandioso nunca vem desacompanhado de um lirismo, uma cobertura estética ou filosófica que uniformiza a barbárie do autoritarismo monárquico e divino. A transformação das passagens bíblicas para a trama folhetinesca cheia de intrigas; a estetização da escravidão; as lacunas do pensamento abraâmico tratadas como algo coerente; e Deus como um novo faraó, porém ainda louvável. Todos esses aspectos configuram o romantismo da versão hollywoodiana da história de Moisés, onde a aridez do velho Egito dá espaço ao glamour da riqueza e da miséria.

O maior charme desse romantismo, ao contrário dos que alguns podem pensar, não vem do visual soberbo do longa, mas de algo mais íntimo: os seus diálogos. Graças a eles, os personagens deixam de ser meros objetos para a ação de Deus, e passam a ser seres ativos com um autêntico subjetivismo. Os diálogos, junto com as alterações da história original, fazem do filme muito menos uma ilustração da Bíblia e mais uma envolvente trama cheia de paixão e fúria. E a qualidade dos diálogos surge exatamente desses sentimentos e do caráter novelístico do filme. As falas nunca são secas, estão sempre dominadas por provocações, insinuações, metáforas, declarações de amor e pregações religiosas. Há um frequente teor poético que sai das bocas dos personagens, o que produz uma veia bem dramática a eles, que estão envolvidos em múltiplas tensões e conflitos. Desta forma, o filme parece evocar uma peça shakespeariana ou uma tragédia grega. Os personagens colocam para fora seus demônios de modo sublime, arrancando palavras sempre com solenidade, como se o filme fosse um soneto.

Há todo um cuidado na criação desses diálogos para causar uma aparência arcaica, uma forma de passar a impressão de ser tudo realmente daquela época. Digo isso não apenas graças à poesia que se encontra neles, mas também a certas expressões e jargões que, de forma nenhuma, seriam ditos numa época recente. Essa proximidade entre uma obra contemporânea e um retrato do passado é reforçada em alguns detalhes em torno da primeira parte do filme: o jogo de tabuleiro com varas, o uso de idiofones como método para convocar os guardas, o uso de bandeiras coloridas para organização dos hebreus, o estoque de comida para os deuses. Todos esses pequenos pontos contribuem para uma representação um pouco menos artificial daquele mundo – o que não vai muito longe, já que a mise-en-scène por completa caminha para o lado inverso.

Entre os filmes que se vendem como “espetáculos cinematográficos”, a questão visual naturalmente chama bastante a atenção. Mas aqui Cecil B. DeMille foi além das expectativas, entregando um visual estonteante com cores lúdicas, iluminação brilhante e planos extravagantes. Algumas pessoas até podem achar tudo isso brega, o que é compreensível, pois toda essa força estética parte de exageros, o que também pode atrapalhar na imersão da história. Mas pessoalmente, a sensação diante de Os Dez Mandamentos é de deslumbre, a artificialidade de seu visual não impede a sua contemplação. Os momentos máximos para essa apreciação se encontram em planos que exibem o céu (seja em cenários exteriores ou interiores através das janelas e sacadas), os personagens são colocados numa primeira posição, mas o céu é o que chama a atenção com suas cores totalmente distorcidas no fundo daquele espaço – e essa apreciação é elevada quando o céu é vista num plano com locação interna. Cores vivas são as que cobrem o céu nesses momentos, assim como quase tudo no filme. Vemos isso bem nítido no figurino, principalmente o da nobreza egípcia, que carrega uma tonelada de acessórios. E como era de se esperar, as roupas das egípcias são as de maior destaque, com vestidos de cetim de enorme charme, mas até mesmo entre as vestes dos hebreus há algum encanto.

Mas todos esses maneirismos do filme, distantes das demais adaptações bíblicas, só existem graças à conversão do mito milenar em uma produção secular. A história de Moisés se transforma num melodrama, fazendo com que, no final das contas, os sentimentos estejam acima da religiosidade. Essa liberdade poética faz a obra parecer uma novela cheia de intrigas, descobertas e reviravoltas – principalmente na primeira metade. Para que isso ocorra, a presença da personagem Sephora (que consta de modo bem diferente em Êxodo) é uma peça-chave. Ela, sendo apaixonada por Moisés, compõe um par com ele em boa parte das cenas da primeira parte do filme, fazendo dela um versátil instrumento para o desenvolvimento do protagonista, o que torna aquela primeira parte um “quase romance”. Sephora ainda é, de longe, a melhor personagem de todo o longa. Interpretada por Yvonne De Carlo, pode-se dizer que ela mantém a única atuação acima do razoável entre o elenco – que é limitado pela dramaticidade quase caricata. Sephora esbanja sensualidade, não apenas por sua aparência, mas pelo charme de suas falas e provocações. A personagem também passa pela demonstração jovial de seu amor, pelas preocupações e tensões em relação à real identidade de Moisés e por sua fúria diante da serva que ameaça o seu comprometimento com ele (uma das melhores cenas do filme), demonstrando as múltiplas qualidades de Yvonne como atriz.

Graças à extensa duração do filme, sua exibição foi dividida em duas partes com um intervalo, seus respectivos anúncios permanecem na versão em vídeo encontrada hoje – sendo a fronteira das duas partes a expulsão de Moisés do Egito. Há uma perda de interesse pela trama na segunda parte, pois como Moisés, o filme encontra o seu caráter profético, estando mais próximo do genérico. Mas podemos considerar que, dentro dessa segunda fase, há também uma divisão entre outros fragmentos – que seriam a busca de Moisés pela libertação de seu povo e depois o caminho a Canaã. Também há uma queda da qualidade nesta transição, onde a obra se perde com furos de roteiro inaceitáveis. Se antes a falta de sincronia com a Bíblia era usada de modo favorável, agora ela se apresenta mais como uma questão de descuido e preguiça do roteiro. Primeiro, por que o personagem de Edward G. Robinson está ao lado dos hebreus tendo sido ele um servidor dos egípcios no processo de escravidão? Segundo, da travessia do Mar Vermelho para o autoexílio de Moisés no Monte Sinai há um salto de 40 anos, portanto Moisés teria cerca de 120 anos, então por que ele é mostrado com idade avançada e cabelos brancos somente nos momentos finais? Para um filme que se vende como portador de uma essência cristã e reverência à Bíblia, esses desvios gratuitos são uma grande contradição. Ainda há outros fatores, como a presença totalmente modificada de Josué no Egito, e a ocultação da imposição de Deus de que somente os mais jovens entrariam na Terra Santa. O terceiro ato do filme se afunda tanto na pregação religiosa, mas nem sequer se atenta a preceitos básicos dela própria.

A presença do diretor no filme também se dá por sua narração, uma voz árida, com o mesmo tom arcaico que o filme precisa. Porém essa mesma narração se mostra como dispensável, não agregando nada além de reafirmar o que já está explícito. A verdadeira voz de Cecil B. DeMille é aquilo que vemos na tela: muitas pessoas, suor, obras gigantes, roupas chamativas, comemorações etc. Tudo isso articulado num tom operístico gritante. Principalmente nos planos com os hebreus, há toda uma extensa cadeia de diversos elementos cênicos estampados na tela, capturados através de planos gerais e extremos. Em alguns deles, os escravos são como formiguinhas aos montes compartilhando o mesmo espaço, fazendo com que até mesmo o absurdo da escravidão tenha algum deslumbre. Já algumas cenas noturnas são até parecidas com pinturas renascentistas, principalmente com as obras de Mantegna. Cores fortes e vivas em contraste com cores mais rústicas, um toque barroco e a presença inteira de diversos corpos são elementos que se cruzam entre o trabalho do pintor italiano e o filme de Hollywood.

Com a permanência de 40 anos percorrendo o deserto até Canaã, os hebreus abandonaram a escravidão do trabalho árduo mantida pelo Faraó e passaram para a escravidão da inércia de uma promessa sem rumo. Mas é claro, como toda e qualquer obra (ou ideia) religiosa, acaba tendo o inaceitável sendo romantizado. Mas Cecil B. DeMille explorou outros rumos, criando dramas familiares e amorosos, tudo bem palatável ao gosto de Hollywood. A grosso modo, isso se deu pela união de três qualidades: a literária, pela poesia encontrada nos diálogos; a teatral, pela dramatização intensa das interpretações; e a cinematográfica, pela magnitude que atinge a mise-en-scène. O filme é uma enorme orquestração que encontra o seu lugar mais na romantização daquilo que é secular (família, paixão, poder e origens) do que naquilo que é divino. Até mesmo o problema de causa coletiva da escravidão pouco importa perto dos conflitos da elite. Por essas e outras questões, Os Dez Mandamentos acaba sendo a Torre de Babel de Cecil B. DeMille, porém oscilando entre o teocêntrico e o antropocêntrico.

Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments) – EUA, 1956
Direção: Cecil B. DeMille
Roteiro: Eneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss, Fredric M. Frank
Elenco: Charlton Heston, Yvonne De Carlo, Yul Brynner, John Derek, Vincent Price, Richard Farnsworth, John Carradine, Edward G. Robinson, Nina Foch, Judith Anderson, Anne Baxter, Cecil B. DeMille
Duração: 220 minutos

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