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Crítica | Os Donos da Casa

Copa do Mundo para quem?

por Rodrigo Pereira
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Ivanildo caminhando em frente a um muro com protestos.

Qual foi o impacto da Copa do Mundo 2014 para o Brasil, país sede naquela oportunidade? Podemos responder essa pergunta com outra: em qual aspecto? Com um evento dessa magnitude, é natural que o local escolhido para sediar toda a festa seria afetado econômica, social e, claro, politicamente. É tentando compreender todas essas questões que o documentário Os Donos da Casa dá espaço para jornalistas, analistas e, principalmente, pessoas comuns darem suas versões desse que é, ao lado das Olimpíadas, o maior evento esportivo do planeta.

Na direção de seu primeiro longa, Carla Dauden entrega uma obra que é um verdadeiro trabalho jornalístico, tanto do ponto de vista de informar quanto de contar histórias de pessoas. A constante troca de foco entre os comentários de grandes nomes do jornalismo nacional, como Juca Kfouri, Fernanda Gentil e Jamil Chade, e os relatos de Ivanildo, Marta, Matheus, Daniel e outros, todas pessoas de diferentes idades, partes do país e diferentemente afetadas pelo evento, dá um dinamismo bastante interessante para o filme, impedindo que a forma se torne repetitiva e cansativa de acompanhar.

Ao mesmo tempo, traz as informações e análises acerca de temas como construção dos estádios, obras de infraestrutura nas cidades, superfaturamento, falta de transparência da FIFA (a entidade máxima do futebol) e demais assuntos relacionados, situando bem o espectador sobre o que esperar da fita, enquanto dá nome e rosto para quem foi afetado. Com isso, a diretora humaniza seu trabalho e nos aproxima daqueles sujeitos através da empatia. O melhor de tudo, inclusive, é a heterogeneidade que ela traz com as personagens escolhidas, todas diferentes entre si e mostrando como a localização, a classe social, o trabalho, a relação com o jogo e as individualidades foram/são preponderantes para o julgamento daquele fenômeno por cada cidadão (as diversas cenas de conversas com taxistas Brasil afora são belos exemplos disso).

Através das diferenças entre as histórias das pessoas que escolheu para acompanhar, Dauden constrói uma complexa e fidedigna representação do Brasil e de seu povo, os donos da casa. Enquanto Ivanildo luta com outros moradores para terem seus direitos respeitados e não perderem suas casas para que se construa uma linha de VLT no lugar, Marta demonstra entusiasmo com a chance de lucrar mais vendendo seus produtos para a enorme quantidade de turistas. Por outro lado, Daniel, o líder de um grupo de torcedores que apoia a seleção brasileira, só quer saber do evento e dos jogos, mesmo sabendo do lado negativo da competição. O jovem Matheus, porém, ainda vive a fase de deslumbramento da infância e alimenta o sonho de, um dia, ser um dos jogadores representando o país. Todos vivendo, cada um de acordo com sua realidade e dentro das contradições, o megaevento global.

Outro ponto interessante muito bem explorado ao longo da projeção é da contraditória relação da paixão futebolística tendo conhecimento de todos os abusos e corrupções que cercam o espetáculo. É impossível não corroborar com o discurso de que é absurdo investimentos bilionários do Estado brasileiro para financiar uma Copa do Mundo cada vez mais privada, enquanto setores como saúde, educação e segurança padecem pela falta de verba. Da mesma maneira, como não sentir-se entusiasmado com o clima de festividade e união proporcionado pelo esporte favorito do povo brasileiro? Claro, se você, assim como eu, é apaixonado por futebol, fica mais fácil, mas o entusiasmo retratado pela diretora não é o dos lances desconcertantes dentro do campo e das reações daqueles que conseguiram pagar os valores exorbitantes dos ingressos. Seu foco fica na preparação para assistir o jogo na sala de casa com a família, com a organização para aproveitar o momento com amigos e vizinhos na rua e com a festa que se estende antes, durante e após as partidas. É como se fosse um gigantesco júbilo coletivo, exclusivo da Copa do Mundo pública, de fora dos estádios e capaz de contagiar a (quase) todos.

Seja como um documento histórico daquele período ou uma obra sobre como as pessoas passaram por aquele momento, Os Donos da Casa funciona muito bem em ambos os casos. Faz um ótimo apanhado dos acontecimentos para quem pouco sabe sobre o tema e, talvez o mais difícil, se mantém relevante para aqueles que estão por dentro do assunto. Agora é esperar as próximas Copas do Mundo e ver se o documentário acertou em relação às futuras sedes (se precisasse apostar: sim).

Os Donos da Casa — Brasil, 2021
Direção: Carla Dauden
Roteiro: Carla Dauden
Elenco: Ivanildo Teixeira Lopes, Matheus Esteves, Marta Gomes, Daniel Leon, Juca Kfouri, Fernanda Gentil, Jamil Chade, Argemiro Almeida, Andrew Jennings, Miguel Polares Maduro, Alexandre Morgado
Duração: 80 min.

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