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Crítica | Os Esquecidos

por Luiz Santiago
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Os Esquecidos foi a primeira obra grandiosa que Luis Buñuel realizou em terras mexicanas. Sua jornada no país começou com o drama musical Gran Casino (1947), uma história de amor com canções entoadas por duas grandes estrelas da música mexicana na época. Dois anos depois veio o sucesso El Gran Calavera, filme que animou o produtor Óscar Dancigers a procurar outras parcerias e dar a Buñuel a liberdade de fazer um filme de seu gosto. O resultado veio em 1950, com Los Olvidados.

Já na introdução, o diretor expõe uma situação característica das grandes cidades do mundo, a saber, o abandono social e descaso político para com crianças, adolescentes e jovens dos subúrbios. Problemas como falta de alimentação adequada, educação e estrutura familiar são aludidos e já temos bem clara a ideia de um ciclo vicioso que se agarrou ao próprio funcionamento desses grandes centros, onde sempre haverá lotes de famílias miseráveis e caminhos abertos para candidatos ao crime.

Em uma estrutura narrativa simples e de forma clássica, Buñuel nos apresenta pouco a pouco o cotidiano de uma área periférica da cidade. Na história central, Jaibo foge do reformatório e logo ao chegar em sua antiga região, encontra amigos e desconhecidos que de pronto o admiram e ouvem com atenção suas histórias. Esse grupo ouvintes é formado por adolescentes e crianças que passam a maior parte do seu tempo nas ruas roubando ou cometendo atos de vandalismo e violência. De pronto, Jaibo se torna um herói, o protótipo do bandido “macho”, corajoso e sagaz, que conseguiu fugir do reformatório e, em pouco tempo, já estava distribuindo dinheiro e bebida para seus “amigos”.

A narrativa ganha o seu foco de tensão quando Jaibo mata a Julián na frente de Pedro, um adolescente que tenta seguir um caminho de vida honesto mas é tragado aos poucos para a delinquência, especialmente quando trava amizade com Jaibo. Diante desses elementos dramáticos e de suas repercussões, o diretor consegue pintar um panorama social bem específico sobre a “criação” dos menores infratores e, que apesar de ser uma realidade de 1950, continua verdadeira em nossos dias.

Mas em vez de realizar um filme-denúncia parcial, defendendo os adolescentes como pobres coitados que foram obrigados a entrar para o crime, Buñuel expõe a situação e não toma partido. Vemos também a pior face desses esquecidos. Se por um lado temos como justificativa uma estrutura social falha (mais precisamente institucional, uma vez que falamos de Estado e família), por outro, há diversos caminhos que se apresentam para quem vive nesse tipo de situação. Jovens como Julián, por exemplo, que trabalha para sustentar a família — inclusive o pai alcoólatra — é um caso. A esse grupo adicionamos as tentativas de Pedro em fugir da delinquência, arrumando empregos, mas sempre tendo de correr atrás dos atos comprometedores de seu amigo, a quem só percebe como uma má companhia quando já é tarde para consertar as coisas.

Nem mesmo as vítimas óbvias como o Don Carmelo, o cego, escapa da câmera crítica do diretor, que o flagra agredindo e explorando o pequeno Ojitos ou assediando a jovem Meche. Buñuel não elege nenhuma vítima absoluta e nem cogita a palavra “inocente”. Os Esquecidos nos traz então os dois lados da moeda, denunciando as falhas estruturas sociais e apontando os erros de autoridades, mães, pais e filhos. Todo o conjunto da máquina social parece estar doente.

Não é de se espantar que Buñuel tenha levado o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes no ano seguinte. Sua capacidade em guiar uma película desse porte, com bom desenvolvimento psicológico dos personagens e incursões surrealistas perfeitamente contextualizadas é um ganho notável. O roteiro, que escreveu em parceria com Luis Alcoriza, dá todas essas possibilidades para a câmera e guia a obra para um desfecho nada otimista, todavia, com alternativas para melhora expostas desde o início.

O olhar atento para os direitos da criança e do adolescente é uma função que infelizmente hoje tem sido mal usado (quando usado), muitas vezes ajudando a minimizar o efeito catastrófico que algumas ações desses menores infratores tem sobre a vida de outros cidadãos. Buñuel clama por socorro mas não inocenta os culpados. O dever para com o meio social também deve estar em pauta, coisa que muitos assistentes sociais e demais autoridades se esqueceram completamente.

Os Esquecidos mostra uma realidade dura e que se estendeu pelas décadas até o nosso século. Com o aumento das cidades e da população, o problema do menor infrator e da família disfuncional se tornou corriqueiro e hoje é tratado quase com desdém, alcançando apenas uma ação notável quando a mídia se dispõe a investigar. Na outra ponta, vemos surgir grupos exterminadores que pensam como o cego Don Carmelo, não cansando de louvar os tempos em que um governante carniceiro dava cabo de qualquer coisa que não seguisse o que se havia imaginado como certo para a sociedade. Resta-nos ver quantas décadas a mais teremos para que se lembrem dos esquecidos como necessitados e não como inocentes de seus atos só porque foram influenciados pelo meio. Do jeito que a coisa anda, é bem provável que ele próprio tenha se esquecido disso, e possivelmente continuaremos a ver cenas horrendas de corpos rolando por lixões em morros… e a desesperadora palavra “fim” se seguir à cena, dando audiência para um jornal qualquer.

  • Crítica originalmente publicada em 25 de março de 2013. Revisada para republicação em 28/03/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do diretor e da elaboração da versão definitiva de seu Especial aqui no Plano Crítico.

Os Esquecidos (Los Olvidados) — México, 1950
Direção: Luís Buñuel
Roteiro: Luis Alcoriza, Luis Buñuel
Elenco: Estela Inda, Miguel Inclán, Alfonso Mejía, Roberto Cobo, Alma Delia Fuentes, Francisco Jambrina, Jesús García, Efraín Arauz, Sergio Virel, Jorge Pérez
Duração: 85 min.

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6 comentários

Roberson Fagundes 5 de março de 2020 - 19:23

Assisti o filme por indicação do Ritter ( pedi a ele que me indicasse alguns filmes do Diretor depois que eu vi o Cão Andaluz) .

Confesso que me surpreendi positivamente, pesar de ser um filme de 1950 ele é atual, cru e pega em vários pontos que precisam ser melhorados em nossa sociedade ainda nos dias de hoje, os temas vão desde deliquencia e abandono juvenil até assédio sexual . o Jaibo é o seu madruga ( no sentido de ligação dos plots) do filme pois tudo de errado que acontece no filme está ligado de certa forma a ele ( ele é o catalisador de 80% do que ocorre no filme). tem um ritmo muito bom e o final é de partir o coração , triste saber que aquilo não é ficção mais sim a mais pura realidade.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 5 de março de 2020 - 20:31

O cinema do Buñuel é assim mesmo, sacode a gente de uma forma incrível. E quando não através do pensamento, das análises simbólicas, etc., vem através da abordagem crítica social. Esse Os Esquecidos sobreviveu ao tempo, como você identificou. A mais triste realidade.

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Luiz Santiago 20 de outubro de 2018 - 23:25

É terrível ver a permanência de certas coisas na nossa sociedade… E pegando um filmaço como esse do Buñuel, tudo fica ainda mais cru, real, sofrido…

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Paulo Rodrigo Silva de Campos 20 de outubro de 2018 - 19:46

5 anos depois da sua crítica, quase 70 depois da estreia do filme, e muita coisa continua igualzinha, com uma piora no horizonte.

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António 18 de maio de 2018 - 20:49

Após ter visto alguns dos excelentes filmes surrealistas do mestre (desse mesmo surrealismo) Luis Bunuel (dos quais considerei “le charme discret de la bourgeoisie” o seu expoente máximo), fiquei surpreendido ao ver este filme deste cineasta, aqui numa incursão extremamente bem conseguida no campo do neo-realismo. Um filme intemporal. O que vemos na tela como uma realidade do México em 1950, continua a ser uma realidade hoje em muitos locais do mundo (eu, que trabalhei em países de África durante 6 anos não esqueço a realidade que vi dia a dia, bem de perto). Ontem como hoje, a sociedade continua a corromper os indivíduos, aqui personificados na personagem de Pedro. As intenções dele até eram boas, mas por vezes é muito complicado lutar contra uma espécie de destino que já parece traçado. É mesmo muito difícil para muitos contrariar ou fugir a uma propagação do “mal”, que parece estar (e cada vez mais) instituída neste mundo e que acaba por destruir ou corromper os indivíduos dotados de “pureza” (ou pelo menos, alguma). O tom pessimista do filme, embora possa não agradar a muitos, tem toda a razão de ser, pois é esta a realidade das coisas.

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Luiz Santiago 18 de maio de 2018 - 21:34

E infelizmente é uma realidade que ainda nos assola, presente em diversos lugares do mundo. Esse filme e mais alguns outros da fase mexicana do diretor espantam pelo toque realista ou mesmo melodramático, dependendo do filme. É uma filmografia maravilhosa para se acompanhar.

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