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Crítica | Os Estranhos, de Stephen King

por Rafael Lima
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Os Estranhos, romance publicado por Stephen King em 1987, está longe de estar entre os livros mais populares da bibliografia do autor. A obra é acusada de ser exagerada e auto indulgente, de ter uma condução narrativa caótica e, verdade seja dita, nenhuma destas acusações é totalmente infundada. De fato, o próprio King está entre os detratores do livro, considerando-o um dos piores que já escreveu. O romance foi escrito em um período complicado da vida do autor, durante uma pesada recaída de consumo de drogas e bebida, com o romancista descrevendo o processo de escrita como febril e raivoso, e se percebe isso na escrita. E ainda assim, Os Estranhos não só é um dos meus trabalhos favoritos do autor, como, ao meu ver, uma grande síntese de muitas das suas principais qualidades como escritor.

O livro acompanha Bobby Anderson, uma escritora de livros de faroeste que vive na cidade de Haven, no Maine. Durante uma caminhada, Bobby encontra um misterioso pedaço de metal enterrado em sua pequena fazenda. Ela logo descobre se tratar de uma enorme nave espacial e, à medida em que vai desenterrando o objeto, Bobby vai sendo influenciada pela estranha energia que emana da nave. Logo esta energia se espalha por toda Haven, fazendo com que os habitantes da pequena cidade passem a agir de forma cada vez mais estranha. Com esta estranha força dominando o local e ameaçando se espalhar pelo planeta, a única esperança de salvação pode repousar sobre Jim Gardner, um poeta alcoólatra e grande amigo de Bobby que, por alguma razão, parece imune à  influência alienígena.

Fortemente inspirado pelo conto A Cor que Caiu do Espaço de H.P Lovecraft, e pelas ficções científicas de infiltração alienígena como o clássico Vampiros de Almas, Os Estranhos é um Sci Fi com fortes ares de terror B escrito por King, e digo terror B como um elogio. Embora possua mais de 600 paginas, a obra é uma leitura magnética, onde os acontecimentos vão se somando de uma forma que é difícil conseguir largar o livro. A estrutura escolhida pelo romancista constantemente amplia a narrativa para além dos protagonistas, para nos mostrar os pequenos dramas dos outros habitantes de Haven, e como a bizarra situação que se abateu sobre a cidade está mudando as suas vidas. Não é um terreno novo para o autor, já que em trabalhos como A Hora do Vampiro King já havia se valido desse recurso, embora aqui ele use essa estrutura de forma bem mais madura do que no romance vampiresco (embora o faça de forma mais prolixa também). São diversos núcleos espalhados pela obra, mas todos os acontecimentos levam a algum lugar. Nada está ali de graça.

O livro possui também uma forte natureza de Body Horror ao descrever com detalhes as lentas transformações físicas sofridas por Bobby e pelos outros habitantes de Haven, como a queda do cabelo e dos dentes, ao mesmo tempo em que também trabalha o terror psicológico, já que a mente da escritora não consegue mais parar de inventar coisas e criar histórias em um processo nada saudável, que claramente se comunica com o que Stephen King vivia quando este livro foi escrito. O livro possui alguns exageros à medida em que os aparelhos criados pelos habitantes da cidade vão se tornando mais estranhos, com utensílios domésticos transformando-se em máquinas assassinas, mas o autor reconhece o humor involuntário que tais passagens possam trazer, e elas funcionam dentro do contexto da obra. O romancista conduz muito bem a narrativa, que está repleta de grandes momentos, como o sinal enviado pela xerife da cidade (a única pessoa da cidade que resiste aos alienígenas, mesmo não sendo imune como Gardner) ou o show de mágica que um garoto realiza com consequências trágicas. E se muitos (eu incluso) reclamam que King não consegue fechar suas histórias de forma satisfatória, em Os Estranhos, o romancista entrega um clímax fantástico, repleto de reviravoltas e com uma conclusão linda.

Este é um dos trabalhos de King onde mais se percebe suas assinaturas. Esta tudo lá, da pequena e bucólica cidade do Maine que sê vê aterrorizada por um grande mal ao protagonista autobiográfico, entre outras coisas. É tudo muito típico de King, mas esses elementos recorrentes da obra do romancista parecem ser postos aqui de forma muito mais sombria e extrema do que em outros trabalhos. Falando no protagonista, Jim Gardner é um personagem repleto de defeitos e traumas, um anti-herói cheio de camadas dramáticas, alguém de quem nem sempre vamos gostar devido a certas ações egoístas ou pensamento inflexíveis, mas que somos plenamente capazes de simpatizar e torcer por ele, tornando-se assim um dos melhores e mais subestimados personagens criados pelo autor.

King não se furta de agradar seus fãs mais atentos, colocando pequenas participações ou citações de personagens de outras obras suas. A cidade de Derry, palco dos romances A Coisa  e Insônia é mostrada como a cidade vizinha de Haven, com o diabólico Pennywise de A Coisa chegando a fazer uma pequena ponta.  A Oficina, organização governamental vista no livro A Incendiária, tem uma participação no 3º ato, enquanto personagens dos romances Zona Morta e O Talismã fazem pequenas participações. Embora essas referências à própria obra mostrem certa auto indulngência da parte do autor, elas são muito bem colocadas e não atrasam o ritmo da narrativa. É um Fan Service que o livro não precisava? Decididamente não.  Mas como não atrapalha em nada, não vi problema.

Embora eu perceba que Os Estranhos não seja um livro para todos os gostos, não posso deixar de recomendá-lo. É um ótimo romance de terror e ficção científica que traz uma trama intensa com personagens muito bem construídos. Trata-se de uma grande homenagem de Stephen King às obras sci-fi da década de 1950, carregando inclusive todos exageros deste período. Esta é a obra de um autor sem filtros, o que resulta em prós e contras, e entre os contras, aponto uma narrativa um pouco inchada e um certo abuso da natureza absurda da trama, mas que no fim das contas tem seus aspectos positivos muito mais fortes do que os negativos. Decididamente um trabalho bem subestimado de Stephen King, inclusive pelo próprio autor.

Os Estranhos (The Tommyknockers)- Estados Unidos, 1987
Autor: Stephen King
Editora Original: Putnam
Editora Brasileira: Francisco Alves
Tradução: Luisa Ibañez
647 Páginas

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