Crítica | Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro

Do arsenal de lendas urbanas que compõem o amplo feixe de narrativas do folclore popular, a loira do banheiro é uma das mais conhecidas e utilizadas no terreno ficcional. A versão que mais circula é a da garota que mata aulas e se comporta mal. Certo dia, ao escorregar, cair e bater a cabeça no banheiro, ela morre e passa a assombrar a escola. Noutras versões, há a relação com o bullying, afinal, como apontam as teorias e estudos acadêmicos sobre o folclore contemporâneo, as lendas geralmente dialogam com cada momento político, social e econômica na qual é veiculada.

Os produtores de Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro pegam carona na lenda e a veiculam no ambiente escolar, sem muitas modificações em sua estrutura. Antes da análise específica do conteúdo fílmico, creio que seja interessante fazer um breve panorama sobre a lenda e as suas supostas origens. A loira do banheiro é a lenda sobre uma jovem de roupas brancas e com pedaços de algodão no nariz que surge após um ritual de invocação. Variação do que é contado na história do espírito feminino que aparece no espelho quando chamada três vezes, isto é, a lenda Blood Mary (Maria Sangrenta), a sua origem brasileira remonta ao século XIX. O estudo encontra-se presente em História e Memória da Escola Complementar de Guaratinguetá (1906-1913), publicação da pesquisadora Débora Maria Nogueira Corbage.

Segundo a pesquisa, a lenda surgiu por aqui com base na história de Maria Augusta de Oliveira Borges, jovem nascida próximo ao final do século XIX. Filha de um visconde influente, a garota foi obrigada a casar-se com apenas 14 anos. Infeliz, vendeu as suas joias e objetos de valor e fugiu para Paris. Morreu aos 26 anos e como o atestado de óbito nunca foi encontrado, a causa da sua morte é desconhecida. A família trouxe o corpo de volta ao Brasil e o manteve numa urna de vidro para visitações públicas. A mãe da garota, transtornada, teve alucinações com a garota pedindo para ser sepultada, solicitação obedecida pelos entes queridos logo mais.

Algum tempo depois, a casa deu lugar ao espaço educacional da Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves. Um incêndio misterioso em 1961 só fez aumentar o mistério em torno dessa lenda. Algumas pessoas alegaram que foram surpreendidas pelo espírito que vagava pelos corredores do local. Há ainda mais dados para reforçar a narrativa oral. Conforme relatos, a loira do banheiro caminha pelos corredores e banheiros e abre as torneiras para saciar a sua sede, pois o que se acredita é que tenha morrido por conta da raiva, doença comum na Europa, conhecida por causar, dentre tantos problemas, a desidratação. A sua presença é sentida por um forte cheiro de perfume feminino. Assustador, não?

Pois é mais ou menos nessa linha que uma assombração invade os corredores da Escola Isaac Newton. Como eliminar uma maldição do tipo? Segundo o filme em análise, basta chamar a equipe de exterminadores de criaturas do além. Para a resolução do problema na escola amaldiçoada, a equipe dos caçadores de assombrações conta com Jackson (Danilo Gentili), Carolina (Dani Calabresa), Fred (Léo Lins) e Túlio (Murilo Couto). Em algumas cenas, os integrantes ganharão reforço quase nulo do segurança (Digão Ribeiro). O grupo de youtubers que se diz especialista em presenças do além decide conquistar o devido reconhecimento do público e por isso, traçam um plano para eliminar a loira do banheiro, numa aventura com muitas piadas e escatologia, preconceitos e misoginia, como nós já podemos esperar de um filme que envolve os comediantes descritos na ficha técnica.

Com roteiro assinado pelo cineasta, numa segunda parceria com Danilo Gentili, Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro mergulham na matriz autorreferente, em especial, um “certo” tipo de produção cinematográfica dos anos 1980, tendo em vista a captura de diversos públicos e mesclar humor e horror no desenvolvimento da história. O resultado é questionável, tal como o irregular Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola. O material dramático busca reinterpretar alguns elementos da lenda mais conhecida, mas mantém o humor e o estilo subserviente aos referenciais estrangeiros, algo que a série brasileira Terrores Urbanos fez em seus cinco episódios, também focado nas lendas urbanas.

Provavelmente inspirado na engenharia escatológica de Sam Raimi e Peter Jackson, isto é, Evil Dead – A Morte do Demônio e Fome Animal, respectivamente, a equipe técnica de Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro faz um bom trabalho audiovisual, haja vista a necessidade de camuflar as falhas gritantes do roteiro e a direção irregular de Fabrício Bittar. Ao longo de seus 103 minutos, podemos contemplar o eficiente design de produção de Glauce Queiroz, a condução musical de David Menezes (exagerada) e o correto trabalho de Marcos Ribas na direção de fotografia. O criador dos créditos finais também merece destaque, tamanha a qualidade do trabalho de desfecho, algo que infelizmente não salva os problemas anteriores.

Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro (Brasil – 2018)
Direção: Fabrício Bittar
Roteiro: Danilo Gentili
Elenco: Bárbara Bruno, Dani Calabresa, Danilo Gentili, Digão Ribeiro, João Paulo Campos, Léo Lins, Matheus Ueta, Murilo Couto, Pietra Quintela, Ratinho, Sikêra Júnior
Duração: 108 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.