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Crítica | Os Fantasmas Contra Atacam

por Kevin Rick
436 views (a partir de agosto de 2020)

Baseado em Uma Canção de Natal, de Charles DickensOs Fantasmas Contra Atacam (uma das piores traduções de título que já vi) traz a conhecida trama de redenção de um homem desagradável durante o Natal, sendo visitado por três fantasmas (passado, presente e futuro), para que aprenda a ser uma pessoa melhor com cada visita temporal. Frank Cross (Bill Murray), a versão contemporânea do pão-duro Ebenezer Scrooge, é um cínico executivo de televisão que humilha seus funcionários, grita com crianças e quer capitalizar com o feriado lançando comerciais aterrorizantes sobre o espírito natalino.

Desde o início do filme em que vemos Frank Cross discutindo com sua equipe diferentes propagandas baseadas em Uma Canção de Natal, a obra ganha seu caráter de intertextualidade com o material original. Não é apenas uma adaptação moderna do livro, mas o referencia (homenageando e humilhando) em comerciais e cenários para uma produção ao vivo da história de Scrooge. Aliás, a encenação do clássico de Dickens se dá com a tortura de fazer empregados trabalharem durante o Natal. Não é apenas a adaptação, mas a própria obra Uma Canção de Natal serve como causa e efeito da narrativa.

É dentro desta proposta intertextual que o roteiro e a direção de Richard Donner buscam na sátira a atualização moderna da obra de Dickens através do pessimismo. Não é uma história sobre o impacto do espírito natalino em um homem antipático, mas a construção da oposição a sua representação positiva. Cross não é o único detestável. O mundo burocrático é execrável; seu chefe falecido que veio alertá-lo, assim como seu patrão atual e um concorrente a seu cargo, eram/são gananciosos. Até mesmo a fantasia carrega essa atualização, com seu aspecto mundano e sujo nas ambientações e nos fantasmas, que, por sua vez, passam seus “aprendizados” de formas violentas e parodiadas do clássico.

Neste contexto anti-natalino que percebo a problemática do humor durante o filme, pois a obra não se compromete inteiramente com essa proposta, tentando criar uma simpatia inexistente com o personagem de Cross, afinal, não há o desenvolvimento de aprendizado durante sua jornada. Vemos vislumbres de remorso, rapidamente esquecidos para o retorno da sua personalidade odiosa, resultando em um estudo de personagem e relacionamentos desconexos no contexto perdido – moral ou imoral? -, especialmente problemático na completa falta de química e afinidade entre os personagens de Bill Murray e seu interesse amoroso interpretada por Karen Allen.

O desfecho sentimental e súbito do filme, com direito a discurso brega, representa muito bem como Os Fantasmas Contra Atacam não decide se assume sua proposta inicial insolente e pragmática como verdadeira identidade do filme ou se retorna ao mesmo molde do material original. Por fim, decide terminar em uma nota terna e caridosa, e ainda que cafona, consegue ser sinceramente emocional com a ótima performance de Bill Murray, mas traduz a falta de comprometimento de uma obra que não decide sua linguagem e contexto. Me parece um filme que se tornou um clássico por sua irreverência dentro do subgênero “filme natalino”, mas que conclui sua história com a inexistente construção de redenção do desagradável.

Os Fantasmas Contra Atacam (Scrooged – EUA, 1988)
Direção: Richard Donner
Roteiro: Mitch Glazer, Michael O’Donoghue (baseado em Uma Canção de Natal, de Charles Dickens)
Elenco: Bill Murray, Karen Allen, John Forsythe, Bobcat Goldthwait, Carol Kane, Robert Mitchum, Michael J. Pollard, Alfre Woodard
Duração: 101 min.

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