Crítica | Os Filhos do Padre

estrelas 3,5

Como eu não falo croata, não tenho certeza sobre a tradução em português do título original desse filme (que provavelmente tenha vindo do título em inglês, The Priest’s Children), mas posso dizer que sendo ou não uma tradução correta, Os Filhos do Padre não cai bem à obra ou mesmo faz jus a ela. O filme tem uma caminho que sinaliza esse sentido, mas o conjunto de todos os eventos que vemos em cena constituem outra coisa, uma realidade mais séria, mais reflexiva sobre papéis sociais e o papel da igreja do que nos sugere esse título (e cartaz!) marqueteiro e equivocado.

A história de Os Filhos do Padre acontece na Dalmácia, bela região croata banhada pelo Mar Adriático, para onde é denominado o nosso protagonista, padre Fabijan, recém saído do seminário. Sua missão é substituir o pároco local, que estará em breve assumindo um cargo maior, em Roma. A vila onde fica a igreja é assolada por uma onda de mortes, ao passo que poucos nascimentos acontecem. O padre Fabijan se incomoda com a situação e, logo após uma confissão curiosa de um fiel, resolve tomar uma atitude a respeito.

O tom da comédia exercido em Os Filhos do Padre é leve e nada apelativo. A obra brinca com a difícil convivência dos indivíduos em uma sociedade repleta de regras e que vive cobrando demais de todos. Na mesma situação se encontra a igreja, cujo papel de forte influência sobre a vida das pessoas acaba por lhe imprimir a ação de algoz. É a essa conclusão que o padre Fabijan chega, quando, já doente, faz a sua confissão final, que acaba sendo a pedra angular de todo o filme, em flashback.

Há um interessante tom de confissão permeando toda a fita. Não apenas a inteligente ligação que o roteiro faz com os acontecimentos do presente e passado, mas também o modo como o protagonista se dirige ao público, olhando para a câmera, conversando com a plateia como se estivesse em um grande confessionário. O tom de crônica se faz presente a partir daí, tendo, a rigor, a função de aproximar o público da história – tornando-o cúmplice – e narrar algumas interações dramáticas.

O desfile de personalidades quase exóticas é um ponto positivo para aquilo que o filme propõe, uma vez que essas personagens ajudam a criar uma realidade completamente possível de existir. Cidades pequenas possuem a mesma dinâmica social e possivelmente os mesmos problemas. Nessa linha, a discussão sobre ter ou não ter filhos, o pecado do uso de contraceptivos, a função religiosa, civil e moral de um padre, tudo isso vem à tona. As camadas do filme são muitas e vão muito além da cômica premissa, que funciona razoavelmente bem em toda a obra.

O diretor perde um pouco a simpatia do espectador ao guiar a história como sendo um braço de um musical cotidiano. Uma canção croata acompanha praticamente todas as cenas de caráter cômico, o que, no decorrer do tempo, não só a torna previsível como desnecessária, atrapalhando o espectador a abstrair melhor a sequência em questão, que, possivelmente, se sairia melhor sem trilha ou com um tema diferente.

Os Filhos do Padre brinca com as feridas dogmáticas da igreja e seu impacto na sociedade. É um filme leve e divertido, mas que pode causar um certo mal-estar estético em espectadores mais críticos. Todavia, nem esses e nem os menos exigentes deixarão de se divertir bastante. Deveriam existir mais padres ingênuos como Fabijan.

Os Filhos do Padre (Svecenikova djeca) – Croácia / Sérvia, 2013
Direção: Vinko Bresan
Roteiro: Vinko Bresan, Mate Matisic
Elenco: Kresimir Mikic, Niksa Butijer, Marija Skaricic, Inge Appelt, Goran Bogdan, Zdenko Botic, Niko Bresan, Dusan Bucan
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.