Crítica | Os Flintstones (2016) – Vol. 1

Do Universo Hanna-Barbera, que a DC Comics começou a publicar em 2016, trazendo versões que poderiam ser categorizadas de “realistas” dos queridos personagens das manhãs animadas das crianças dos anos 70 e 80, umas das mais elogiadas foi Os Flintstones que teve apenas doze edições divididas em dois volumes. E a principal razão para os elogios foram as críticas sociais que Mark Russell inseriu em sua narrativa.

Considerando o espetacular trabalho de roteiro que o mesmo Russell demonstrou na bem menos festejada HQ do mesmo universo sobre o Leão da Montanha, começo a imaginar que ou ele tem duas personalidades, uma que escreve for dummies e outra que cria textos sofisticados ou que ele estava ainda tateando em suas tentativas de adaptação desses personagens para os quadrinhos tendo o realismo como mola mestra. Seja como for, considerando o tanto de atenção que Os Flintstones recebeu versus a mais completa ausência de comentários sobre o Leão da Montanha, minha conclusão é que o que o pessoal gosta mesmo, lá no fundo, é de obviedades.

Usando uma estrutura episódica, com cada edição abordando um tema e todas elas costuradas tenuemente por uma ambientação em comum e referências cruzadas esporádicas, Russell demonstra ser mestre na cavalice narrativa, na inserção de diálogos tão dolorosamente expositivos que eles mais parecem sermões de líderes religiosos para impor a seu rebanho o que fazer, o que dizer e o que pensar. Posso estar sendo particularmente duro e amargo aqui, mas é que é cansativo ler catequizações, seja ela de que natureza for, eu concordando ou não com os respectivos posicionamentos. Afinal de contas, o mundo está cheio de gente que acha que sabe tudo e que faz questão de derramar sapiência internet afora. Russell não precisava se somar a eles entregando tudo de bandeja ao leitor no lugar de desafiá-lo. É mais um que dá o peixe em vez de ensinar a pescar.

Bem-vindos à Bedrock!

Temas como consumismo, misoginia, racismo, deveres cívicos, genocídio, tensão entre patrão e empregado são abordados de maneira estanque em cada uma das seis edições que formam o primeiro volume, com direito a intermináveis diálogos que vão da conceituação até a crítica, seguido de uma resolução simplista para temas complexos, como um manual que lida tudo de forma perfunctória, mas que parece profundo em razão do uso de palavras difíceis ou gráficos que parecem complexos. No final das contas, os Flintstones da segunda década dos anos 2000 lembra pouco os originais. Sai a sutileza da crítica ferina de outrora para a literal pedreira da forma óbvia que críticas sócio-econômicas tomaram hoje em dia em diversas mídias.

Talvez – e apenas talvez – exista um público que precise dessas obviedades marretadas dessa forma na cabeça, pois é possível que muitos não sejam afeitos a detalhes e comentários metafóricos. Tenho para mim, porém, que pouco constantemente é muito melhor do que muito esporadicamente. Em Os Flintstones, Russell não sabe dosar e, sem dosar, ele mata por overdose, por cansaço e aqueles que precisam de obviedades marretadas podem se afastar ou podem não gostar do que leem justamente por ser diretamente contrário ao que “ouvem por aí”. E, com isso, o efeito da obviedade marretada é o contrário do desejado. Mas essa pode ser apenas a minha pegada da coisa, não sei, pois, como disse, a maxissérie foi altamente elogiada por aí.

Mas nem tudo se perde, já que a arte de Steve Pugh é muito, mas muito divertida. A recriação de Bedrock e, principalmente, de toda a estrutura “moderna” da Idade da Pedra emula e atualiza os adorados desenhos animados e entrega uma universo pré-histórico coeso e eficiente. As aparências dos personagens ganham feições realistas que funcionam, assim como a maioria dos “eletro”domésticos (a única exceção é o telefone, que não faz sentido algum, mas tudo bem). As cores de Chris Chuckry também merecem destaque por conseguirem fazer a transposição exata entre o desenho cartunesco original e a pegada em tese mais realista que vemos na HQ. No conjunto, a arte é um festim para os olhos e é o que, para mim, me fez efetivamente virar as páginas que cansativamente pareciam amarradas à âncora narrativa de Russell.

Os Flintstones, mesmo carregado no texto expositivo e nas obviedades “bem explicadinhas, nos seus míííííííínimos detalhes” acaba divertindo daquele jeito rasteiro que muitas HQs assumem. Longe de, para mim, merecer os elogios rasgados da crítica, a recriação dos personagens atiça a nostalgia pelos desenhos animados de outrora e funcionam como leitura descompromissada.

Os Flintstones – Vol. 1 (The Flintstones – Vol. 1, EUA – 2016/7)
Contendo: The Flintstones (2016) #1 a 6
Roteiro: Mark Russell
Arte: Steve Pugh
Cores: Chris Chuckry
Letras: Dave Sharpe
Editoria: Marie Javins, Brittany Holzherr
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: setembro de 2016 a fevereiro de 2017
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil (encadernado): 30 de novembro de 2017
Páginas: 167

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.