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Crítica | Os Imperdoáveis

por Ritter Fan
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O faroeste é um gênero cinematográfico que normalmente evoca imagens icônicas de pistoleiros de mira infalível e moral dúbia salvando damas em perigo ou até mesmo cidades inteiras, com direito a tiroteios constantes, cavalgadas épicas e paisagens deslumbrantes. Quando fatos reais são retratados em alguns dos longas – como por exemplo o duelo do O.K. Corral – eles ganham dimensões gigantescas que transformam seus protagonistas em verdadeiros super-heróis de chapéu, esporas e pistolas e espingardas em punho. Lendas foram e são criadas assim.

Mas mitos podem e devem ser desconstruídos e Hollywood já ofereceu diversas obras que trafegaram triunfalmente por esse caminho como Meu Ódio Será Sua Herança e Onde os Homens São Homens ao ponto do revisionismo ser até mesmo considerado um sub-gênero do faroeste, com o western spaghetti também despontando, do outro lado do Atlântico, como uma forma diferente de encarar a narrativa heroica tradicional. No entanto, talvez nenhum outro longa tenha sido tão abrangente e preciso aos derrubar as lendas e desconstruir a maneira como o espectador encara o faroeste quanto Os Imperdoáveis, obra de Clint Eastwood à frente e atrás das câmeras que concorreu a nove Oscar, levando quatro, especialmente os de Melhor Filme e Melhor Direção, um feito raro considerando que apenas três outros filmes do gênero foram agraciados com a premiação máxima e isso contando com Onde os Fracos Não Têm Vez, um western “impuro” por se passar nos dias atuais.

Além dos méritos da obra em si, que abordarei adiante, outro aspecto que valida a importância de Os Imperdoáveis é justamente o fato de ser uma obra de Eastwood, um dos mais importantes nomes do gênero faroeste desde que interpretou Tom, em uma micro-ponta sem créditos em Crimes Vingados, de 1956, ajudando a construir o que hoje entendemos como sendo a imagem do pistoleiro calado, durão e invencível que tanto apreciamos. O que o ator e cineasta faz é olhar para si mesmo, então já com 62 anos de idade, e colocar na telona uma obra que desfaz o que ele mesmo ergueu, em um processo autocrítico belíssimo e corajoso que é raro de se ver por aí. Clint Eastwood, um dos arquetípicos pistoleiros do audiovisual, revela a verdadeira natureza de seus personagens, emprestando uma dimensão metalinguística absolutamente inafastável do longa.

A sequência de abertura de Os Imperdoáveis diz tudo o que precisamos saber sobre o filme. Vemos, ao longe, a silhueta de um homem cavando uma cova embaixo de uma árvore e próximo a uma casa enquanto o sol se põe ao fundo, em um belíssimo, mas melancólico contraste. É, para todos os efeitos, o fim de uma era, o fim de um tipo de vida desregrada e sem lei que dominou o chamado Velho Oeste e que, agora, está se tornando mais civilizado e mais domado. William Muny (Eastwood) é o pistoleiro e assassino que largou tudo para erigir uma família seguindo os valores cristãos de sua esposa, o que significa filhos, distância da bebida e uma vida modesta em uma fazendo de criação de porcos no Kansas.

Mas a antiga vida de Munny, pistoleiro fora-da-lei de renome em seu auge, a chama de volta, assim como um envelhecido Michael Corleone é tragado mais uma vez para seu passado em O Poderoso Chefão III. O catalisador desse chamado é o jovem e provavelmente auto-apelidado Schofield Kid (Jaimz Woolvett) que, também de forma muito parecida com a maneira como os pequenos filhos de Munny olham para seu pai, parece encarnar o deslumbrado garoto que vê em Shane um herói, alguém para espelhar-se em Os Brutos Também Amam. O jovem tenta convencer Munny a ajudá-lo a fazer justiça – por recompensa, claro – a uma prostituta que teria sido retalhada por dois bandidos em Big Whiskey, no Wyoming, sequência que abre o filme é que é brilhantemente construída para que o espectador a interprete de maneira absoluta, sem atenuantes. Negando primeiro, mas, depois, percebendo que precisa do dinheiro por causa da paupérrima fazenda e de seus filhos, Munny sai para arregimentar seu antigo parceiro Ned Logan (Morgan Freeman) para a tarefa e a jornada então começa.

O roteiro de David Webb Peoples, um dos nomes mais injustamente esquecidos em Hollywood, é enganosamente simples. Essa simplicidade vem da “visão aérea” da premissa: três pistoleiros se juntam para vingar dama desfigurada por bandidos. No entanto, nada, absolutamente nada é simples em Os Imperdoáveis e muito da profundidade narrativa da obra mistura-se à direção e atuação de Eastwood. Momentos como ele treinando a mira com seu revólver e errando sempre, não conseguindo sequer montar em seu cavalo ou apanhando violentamente no momento telegrafado para ser “heroico” formam um emaranhado de cutucadas violentas ao mito do pistoleiro infalível, algo que é reiterado por diálogos que deixam evidentes que todos os “grandes feitos” de Munny foram resultados de bebedeiras e de uma vida completamente desregrada que jamais deu valor a qualquer um ao seu redor.

Schofield Kid, por seu turno, simboliza a continuidade, a passagem de bastão, já que, para todos os efeitos, ele se torna o pupilo de Munny ou, pelo menos, ele age como tal e se imagina como tal, mesmo tendo miopia e não enxergando além de alguns metros a sua frente. Ele é, transportando-o para os dias atuais, o jovem das redes sociais que acredita em tudo o que lê e que se encaixa com o que ele próprio pensa. Seu desejo de firmar-se como um grande pistoleiro vem das lendas orais e escritas que pipocavam a todo tempo no Velho Oeste, e não pelas circunstâncias de sua vida. Logan, finalmente, tem a função de Grilo Falante, de consciência. Ele é o velho e sábio pistoleiro que enxerga com clareza tudo o que está acontecendo e a melancolia por justamente compreender tudo tão rapidamente é sua marca, uma espécie de peso que carrega em seu ombro.

Dos lados dos supostos “mocinhos”, não sobra pedra sobre pedra. O xerife “Little” Bill Daggett (Gene Hackman) não é muito mais do que um bandido com uma estrela no peito, achando-se dono da verdade e dispensando o seu tipo de justiça, ou seja, aquilo que ele enxerga dessa forma, como deixar impunes os bandidos que retalharam o rosto da prostituta, forçando apenas que o dono dela seja indenizado, o que, ironicamente, catalisa a recompensa que traz Munny para sua cidade, e pública e cruelmente surrar English Bob (Richard Harris) pela rua simplesmente para mandar um recado a qualquer um que vier criar confusão ali. Sua torpeza moral é metaforizada por sua casa em construção sem ângulos retos – que parece algo vindo do expressionismo alemão que, não sem querer, lidava muito com o peso da autoridade – e repleta de furos, uma verdadeira projeção de seu subconsciente.

No entanto, as próprias prostitutas são relativizadas no filme, o que só revela o cuidado do roteiro de Peoples em lidar com uma realidade que não queremos encarar. Lideradas por Strawberry Alice (Frances Fisher), o grupo de mulheres querem vingança extrema pelo que foi feito a uma delas. Olho por olho não é nem de longe suficiente e os cortes no rosto de Delilah Fitzgerald (Anna Thomson) exigem, na visão de Alice, o assassinato dos marginais. Mas aquela certeza absoluta de que eles merecem isso que somos induzidos a ter na sequência inicial da violência contra a jovem vai aos poucos caindo por terra não só pela gravidade relativa do que foi feito, como também pela desproporcionalidade da pena, uma evidente crítica às jornadas heroicas de muitos pistoleiros em longas de faroeste. Não é que o crime em questão não seja horrível e não precise ser punido, mas sim que o conceito da chamada Justiça da Fronteira seja o extremo, algo que a situação colocada vem para desnudar.

Diria, porém, que nenhum outro personagem é tão simbolicamente perfeito quanto o de Saul Rubinek, o escritor W. W. Beauchamp que primeiro segue English Bob para contar seus feitos e, depois, passa a seguir Little Bill com o mesmo objetivo, depois que o primeiro é humilhado, perdendo relevância a seus olhos. Beauchamp é, por assim dizer, a encarnação da construção de lendas, da visão histórica a partir dos olhos dos vitoriosos. É o que ele representa que faz o rosto de Schofield Kid brilhar ao olhar para Munny, por assim dizer. Não é possível “ver” mitos sendo feitos, mas é perfeitamente possível entender o personagem como o porta-voz e o causador desse efeito tanto no aspecto macro – e digo macro mesmo, em geral como mitologias inteiras foram criadas ao longo da História do Homem – quanto no micro, como o biógrafo que exagera os traços positivos e os feitos do biografado, algo que era mesmo muito comum na época, com personagens famosos da época pagando para fincar a imagem que eles gostariam que os outros tivessem dele, não muito diferente do que muita gente faz hoje em dia de maneiras diferentes, inclusive com Photoshop. É absolutamente fascinante ver o que o roteiro de Peoples e a câmera de Eastwood consegue estabelecer aqui por intermédio do uso desse em tese “pequeno” personagem.

Falando em câmera, o trabalho do cineasta em Os Imperdoáveis é irretocável. Eastwood consegue não só extrair o melhor de cada um do elenco – inclusive dos então razoavelmente inexperientes Woolvett e Thomson -, como jamais, em momento algum, chama atenção para seu trabalho. A movimentação de câmera é suave, as tomadas em plano aberto que fazem uso das filmagens em locação e que foram fotografadas lindamente por Jack N. Green (que faz parceria com o diretor desde O Destemido Senhor da Guerra) têm função narrativa clara de contraste entre a “realidade” dura e o “ideal” imaginado e a trilha sonora de Lennie Niehaus pontua suavemente a ação. Não há nada verdadeiramente fora do lugar aqui, mesmo que por vezes alguém possa achar que o uso de metáforas visuais – notadamente a “casa torta” de Little Bill sejam um tanto quanto didáticas demais. Eastwood já tinha larga experiência na cadeira de diretor desde que enveredou também por esse caminho em 1971 com Perversa Paixão, mas aqui, talvez em razão do material que muito claramente tem conexão umbilical com ele, o cineasta não deixe nada ao acaso, nada que não faça a obra convergir para ser seu grande triunfo cinematográfico e um dos melhores faroestes já feitos.

E eu termino minha já demasiadamente longa crítica com uma pergunta que decorre de minha afirmação no início no sentido de que Os Imperdoáveis seria um faroeste revisionista. Diante da maturidade e da crítica do que Peoples e Eastwood colocam na telona, será que revisionismo é mesmo o melhor termo? Será que o longa não é um atrasado, mas muito bem vindo longa “enquadrador” de narrativa? Uma forma de realinhar o que entendemos como sendo os componentes clássicos de todo um gênero e, nessa toada, tornando-se quase que um reboot de décadas e décadas de abordagem cinematográfica? Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: Peoples, Eastwood e Os Imperdoáveis destroem lendas estabelecendo-se como lendas da Sétima Arte.

Os Imperdoáveis (Unforgiven, EUA – 1992)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: David Webb Peoples
Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Winger, David Mucci, Rob Campbell, Anthony James, Tara Frederick, Beverley Elliott, Liisa Repo-Martell, Josie Smith, Shane Meier, Aline Levasseur, Cherrilene Cardinal
Duração: 130 min.

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