Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Os Indomáveis

Crítica | Os Indomáveis

por Ritter Fan
438 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

Os Indomáveis é uma nova adaptação de conto do ótimo autor americano Elmore Leonard, falecido em 2013, e que criou a série de TV Justified, que atualiza os conceitos do faroeste.  A primeira versão cinematográfica, com o mesmo título em inglês – 3:10 to Yuma – e que, no Brasil, ganhou o outro “ótimo” título Galante e Sanguinário e ambas as propostas são muito simples: um fazendeiro precisa levar um criminoso do ponto A para o ponto B, passando por diversos obstáculos, especialmente, claro, a gangue desse mesmo criminoso.

O conto é muito objetivo e apenas esse conceito é mantido nos filmes. Os desenvolvimentos são bem diferentes entre si, ainda que os nomes dos personagens utilizados em Galante e Sanguinário, ainda considero o clássico entre os dois, sejam repetidos em Os Indomáveis, de maneira a se criar um mínimo de familiaridade. Mesmo com essa característica, rotular o segundo filme como uma refilmagem do original de 50 anos antes, é reduzir o segundo filme à uma sombra do primeiro e isso é, no mínimo, uma injustiça. Afinal, Galante e Sanguinário, muito em razão do Código de Produção em vigor à época, é um filme asséptico, simplista demais que, não fosse a presença de Glenn Ford como o criminoso Ben Wade (ou seja, em papel inverso ao bom-mocismo clássico que marcou a carreira do ator) e a fotografia em preto-e-branco marcante de Charles Lawton Jr., não seria particularmente tão bem lembrado assim. Basta ler minha crítica anterior para entender minhas razões para essa afirmação.

Assim, Os Indomáveis, apesar de indubitavelmente beber na fonte de Galante e Sanguinário em termos de estrutura de roteiro, é um filme que fica em pé sozinho, em seus próprios termos. E a principal razão para isso é a química da dupla principal, em constante choque. O pobre fazendeiro Dan Evans é vivido por Christian Bale e o criminoso Ben Wade é encarnado por Russell Crowe. Os dois, contracenando, já é razão suficiente para elevar a fita do lugar-comum, pois a natureza fechada de Evans – sempre com roupas mais claras – contrasta com o jeito bon vivant de Wade – sempre com roupas escuras – em um embate de personalidades que perdura até o derradeiro momento do filme. Evans, precisando de dinheiro, aceita fazer parte de um grupo que precisa levar Wade, que acabara de roubar uma “carruagem-forte” da cidade de Bisbee até Contention, onde o criminoso deverá embarcar no trem das 3:10 para Yuma para ser aprisionado e julgado.

E o que no filme original é algo básico e mesmo assim arrastado, ganha contornos mais complexos em Os Indomáveis, ainda que não livre de problemas. O roteiro, feito por uma trinca de escritores, funciona como uma corrida de obstáculos que, a cada momento, elimina alguém do grupo do qual Evans faz parte. Ao mesmo tempo, porém, o fazendeiro ganha estofo narrativo, permitindo que a audiência se compadeça com suas necessidades o que, de certa forma, facilita a aceitação da transição da personalidade de Ben Wade de um criminoso sanguinário (e galante também!) a um homem que vê em Evans o semblante do que poderia ter sido. E Evans não só ganha uma história pregressa como fisicamente é retratado como desfavorecido, pois perdera a perna durante a Guerra de Secessão lutando para o Norte. Com isso, podemos nos identificar com o personagem e entender mais profundamente a indignação de seu filho William (Logan Lerman, que contracenaria novamente com Crowe em Noé) com o que parece ser a covardia de Evans ao início e sua necessidade de se provar diante da família, insistindo em levar a cabo o plano de levar Wade até o trem, apesar das poucas chances reais de isso realmente acontecer.

Mas é a “corrida de obstáculos” que acaba tornando a progressão narrativa um tanto quanto claudicante. Sim, ganhamos a oportunidade de aprendermos mais sobre Evans e Wade (e também sobre os demais do grupo, especialmente o caçador de recompensas Byron McElroy, vivido por Peter Fonda) e sim, com isso conseguimos entender as motivações da hesitante dupla no clímax da fita. Acontece que essa natureza episódica que intercala ação com exposição acaba se tornando repetitiva demais, alongando a projeção para pouco mais de duas horas, o que definitivamente cansa o espectador. Ainda que a interação Evans-Wade seja engajante e a entrada de Williams no terço final funcione, quando o ponto alto chega – os 300 metros do hotel até a estação de trem em Contention – já desejamos que o filme acabe logo. E isso sem falar que a personalidade de Wade sofre uma reversão brusca demais, exigindo um pouco mais da suspensão da descrença do que deveria.

James Mangold é um bom diretor e consegue trabalhar os atores de maneira crível até certo ponto e, com a fotografia eficiente – mas não particularmente memorável – de Phedon Papamichael, além da montagem cadenciada e nada confusa de Michael McCusker (ambos repetindo a parceria com  Mangold de Johnny & June) resulta em um faroeste “de aventura” que diverte apesar dos problemas, especialmente em razão da química cheia de farpas entre o Batman e o Gladiador. Uma ótima pedida para um momento descompromissado.

Os Indomáveis (3:10 to Yuma, EUA – 2007)
Direção: James Mangold
Roteiro: Halsted Welles, Michael Brandt, Derek Haas (baseado em conto de Elmore Leonard)
Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Logan Lerman, Dallas Roberts, Ben Foster, Peter Fonda, Vinessa Shaw, Alan Tudyk, Luce Rains, Gretchen Mol, Lennie Loftin
Duração: 122 min.

Você Também pode curtir

6 comentários

Brendo Barbosa 14 de abril de 2021 - 18:18

Esse é facilmente um dos melhores westerns desde aquele Unforgiven do Eastwood, o personagem do Bale é excelente, desperta nossa empatia que é uma beleza, ele consegue ser um homem de princípios e palavra, mas também falho e humano, adoro o fato dele, apesar de bastante habilidoso, passar longe do pistoleiro bonzão tão comum no gênero. Já o Crowe é sagaz e ameaçador, seu personagem possui tons de cinza, e em momento algum ele é apenas preto no branco. Discordo a respeito da fotografia acredito que ela seja belíssima e memorável, o que podia se destacar mais é a trilha sonora ficando apenas no funcional, mas ok.

(SPOILERS)
A respeito da natureza episódica não vejo como um empecilho, acredito que o diretor saiba bem a hora de parar antes de começar a ficar previsível, até porque todas as mortes são cabíveis dentro da trama, e os contextos são variados, Wade só mata aqueles que ele possui algum problema, o Doc é pego naquele tiroteio perto do 3°ato, e o xerife sobrevive.

Sobre a mudança do Wade no final, também discordo, é perfeitamente aceitável, ele nunca foi tão monstruoso quanto era conhecido, tanto que vários personagem dizem isso, ao compreender Dan e entender sua índole, ele passa a admirá-lo (como é simbolizado através do desenho que faz no ato final), e ver nele o que poderia ter sido, visivelmente o personagem buscava alguma redenção, e acredita conseguir ao ajudar Dan a prendê-lo, após a morte deste, o ódio de Wade é notável enquanto executa Ben Foster e seus capangas.

Mas, devo dizer que o filme possui algumas situações meio inverossímeis, como a trecho em que Lerman rende Wade, achei meio “deus ex machina” ele chegar lá naquele momento, ou a cena que o Crowe foge após o tiroteio com os indígenas, com exceção do Bale, todos armados e ainda assim permitem que o cara fuja? Ok, esses momentos não atrapalham o filme como um todo, então, 4,5/5.

Responder
planocritico 14 de abril de 2021 - 19:17

Entendo seus pontos, mas eu nem consigo começar a pensar em colocá-lo na mesma frase que Os Imperdoáveis…

Abs,
Ritter.

Responder
Brendo Barbosa 14 de abril de 2021 - 16:09

Ué? “um dos melhores Westerns desde Unforgiven”, não vejo nada de errado nessa frase, não digo que é necessariamente no mesmo nível, apenas falei que após Os Imperdoáveis, esse foi um dos filmes do gênero que mais se destacaram.

Responder
Brendo Barbosa 14 de abril de 2021 - 20:32

Ué? “um dos melhores Westerns desde Unforgiven” não vejo nada de errado nessa frase, não disse que é necessariamente no mesmo nível, apenas falei que após Os Imperdoáveis, esse foi um dos filmes do gênero que mais se destacaram.

Responder
Diogo Maia 30 de julho de 2020 - 20:32

Um dos melhores faroestes desde Era Uma Vez no Oeste. Ao contrário de outros filmes do gênero, os personagens desta obra não são apenas figuras caricatas ou arquétipos clássicos do cowboy, do xerife corrupto ou do vilão pistoleiro unidimensional. O Evans de Christian Bale é um protagonista inseguro e tem motivações estritamente pessoais, sem os traços heroicos tradicionalmente explorados no Western, geralmente inspirados por um dever moral e de caráter ilibado. Já o Wade de Russell Crowe é um antagonista cheio de camadas e justificativas nem sempre tão óbvias, o que pode desagradar os fãs mais tradicionalistas. No final, a mudança um pouco abrupta do comportamento dele incomoda, mas ao longo do filme a relação entre os dois é bem trabalhada, sem pressa e, ao final, as opiniões de um em relação ao outro estão claramente alteradas, como pode ser constatado no momento em que o segundo faz um desenho do primeiro em uma bíblia, como se estivesse registrando alguém que admira, já que fez a mesma coisa com uma garota no início da obra. Este aqui é o melhor trabalho do James Mangold, sem sombra de dúvidas.

Responder
planocritico 1 de agosto de 2020 - 02:38

Taí um filme que preciso rever!

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais