Crítica | Os Irmãos Willoughby

Antes mesmo do preto na tela se transformar em imagem viva, a voz do narrador anuncia que esta não é uma história sobre uma família unida, na qual o amor os levará a um final feliz. Pela predominância do moralismo conservador na indústria das animações, já logo imaginamos que a moral de Os Irmãos Willoughby será justamente uma jornada que, ao fim, irá contradizer esta frase inicial e a família, que inicialmente se odeia, irá encontrar a paz. Bem, ainda bem que não, uma vez que o meu maior medo durante o desenrolar da trama era a possibilidade de uma redenção dos pais extremamente abusivos e tóxicos com seus filhos. Afinal, nesta nova animação da Netflix, descobrimos que o conceito de família está muito mais ligado a uma conexão emocional do que uma tradição sanguínea genealógica.

Desde o início, o filme brinca com o tratamento animalesco ou até de prisão sofrido pelos filhos. Apenas as sobras de comida são deixadas para eles, cantorias são proibidas e o castigo leva-os para um porão que mais parece mais um calabouço medieval. Falando em aparências, toda a parte gráfica e o design de produção optam por deformações que reforçam a opressão sofrida por aquelas crianças. Na casa, os corredores parecem apertá-los, os tetos aparentam levar ao infinito, as sombras dos pais se projetam nas paredes como figuras de um filme de terror, além da decoração marcada por diversos retratos dos ancestrais da família, como se aquelas crianças tivessem uma responsabilidade de seguir uma tradição milenar. No mesmo sentido, a própria casa é vista, do lado de fora, espremida no meio de dois imponentes prédios, completando a força visual da metáfora.

E por que esses pais são tão cruéis com os filhos? Apesar do roteiro de Pearn e Stanleigh não parecer muito preocupado em esclarecer a questão, é possível tirar algumas conclusões. Primeiramente, o narrador revela que a família Willoughby sempre foi composta por grandes inventores e todos tinham a marca de um grande bigode. Porém, ao chegar na geração do Pai, seus pelos faciais nascem finos e seu “grande” feito é colocar mini-navios dentro de garrafas. Já da mãe, é fazer tricô. Curiosamente, as duas atividades remetem a opressão vivida naquela casa. Enquanto o primeiro hobby representa o desejo do eterno enclausuramento, no segundo, o aspecto visual do cabelo dos filhos remete ao próprio tricô da mãe, associando-se ao mito das moiras que controlavam o destino das pessoas através dos fios. 

Exposto isso, pode-se dizer que esses pais são um fracasso e por isso projetam nos filhos a própria insatisfação suas inseguranças. Por outro lado, todos esses aspectos vão também indicando que esta vai ser uma história de libertação daquela prisão. Assim, se no primeiro ato, quando o filme se passava dentro da casa, havia um predomínio por sombras, tons escuros e o vermelho, a viagem de descoberta do mundo é acompanhada por um arco-íris e visitas a fábricas de doces, símbolos opostos e que agora representam toda a criatividade infantil que não pode mais ser contida. Até por isso, quando os irmãos conhecem as outras duas figuras adultas do filme, a Babá e o Comandante Melanoff, existe uma relutância em aceitá-los, visto que o único contato adulto que eles possuíam anteriormente era marcado por abusos.   

De certo modo, Os Irmãos Willoughby faz uma boa sessão dupla com o recém-lançado Dois Irmãos, uma vez que, em ambos, uma jornada é iniciada por irmãos em busca dos pais, apenas para que no final seja descoberto que o essencial está na relação fraternal, sendo essa justamente desenvolvida por consequência da viagem. Contudo, apesar das mensagens similares, a diferença primordial dos dois é que enquanto a obra da Pixar se sustenta pelos diálogos dramáticos e a busca por microexpressões cada vez mais realistas, a produção da Netflix vai para o caminho oposto. A estranheza é tanta, que não sei dizer ao certo de que é feita a animação, parecendo um 3D que também puxa traços do stop-motion. Logo, a escolha pelo esquisito não poderia ser mais acertada para mostrar uma família fora dos normal e também reforçar todo um ponto de vista infantil, transformando a casa que viviam em um espaço cênico que poderia ser retirado do Expressionismo Alemão. No fim, a rejeição pela tradição e pelos padrões, abrindo caminho para a descoberta das novas possibilidades, seja no campo visual ou tematicamente. 

Os Irmãos Willoughby (The Willoughbys) – Canadá, Reino Unido, Estados Unidos, 2020
Direção: Kris Pearn
Roteiro: Kris Pearn, Mark Stanleigh (baseado no livro de Lois Lowry)
Elenco: Will Forte, Maya Rudolph, Alessia Cara, Terry Crews, Martin Short, Jane Krakowski, Seán Cullen, Ricky Gervais
Duração: 92 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.