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Crítica | Os Irregulares de Baker Street – 1ª Temporada

por Kevin Rick
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Existem algumas obras que me deixam desanimados antes mesmo de iniciá-las, como, por exemplo, séries ou filmes que utilizam algum universo, marca ou franquia famosa como veículo de divulgação e atrativo bobo, sem nunca verdadeiramente ter um propósito artístico com o determinado legado que utiliza. Claro que é completamente impossível saber a abordagem que tais obras dão sem assisti-las, mas só de se ler uma premissa, ver um trailer ou até mesmo um simples título, dá pra sacar o contexto caça-níquel. E é exatamente isso que acontece em Os Irregulares de Baker Street, a mais nova série da Netflix – que por sua vez é uma adaptação de graphic novels –, que, como o próprio nome diz, usa a mitologia do Sherlock Holmes para atrair a audiência, mesmo que não exista qualquer necessidade de macularem os personagens de Arthur Conan Doyle.

Meu ponto aqui não é o de um fã raivoso que esperneia quando sua obra favorita é adaptada com uma visão divergente, ou até mesmo polêmica, mas sim da proposta da série. Veja, Enola Holmes, mesmo sendo um filme – já baseado em uma série literária – que utiliza os personagens de Doyle como maneira de ganhar público, propõe algo no mínimo interessante na mitologia, independente do resultado, e não falo de fidelidade, mas sim de linguagem artística. Existe ali um motivo além da nomeação e da propaganda, havendo vínculos e coerência com os princípios do material original. É pensando nisso que Tom Bidwell criou esta série, baseada nas crianças de rua que ajudavam Sherlock em suas investigações nos livros e contos de Doyle, mas são, aqui, imaginadas como adolescentes para se inserir na cota juvenil que tanto faz sucesso na gigante do streaming.

Contudo, a ideia é minimamente curiosa, primeiro pelo vínculo com o material fonte que citei, e pela premissa de desmistificação e desenvolvimento desses personagens secundários, possivelmente construindo uma abordagem dramática para a realidade cruel das ruas na era vitoriana. Ou simplesmente usar um cantinho resignado do trabalho de Doyle para entregar uma espécie de visão nova dos contos de Sherlock, com esse toque de marginalidade. Infelizmente, Os Irregulares de Baker Sreet não faz nada disso, se sentindo confortável com seu drama teen mal feito.

A história acompanha os jovens Billy (Jojo Macari), Spike (McKell David), Jessie (Darci Shaw) e, nossa protagonista, Bea (Thaddea Graham), pelas ruas de Londres, em sua típica trama de adolescentes desajustados e incompreendidos. O discurso da série sumariza tudo de ruim desse subgênero de drama juvenil, desde o romance superficial, diálogos horrorosos, dramaturgia com a profundidade de um pires, o encadeamento novelesco da narrativa e adultos maldosos, inclusive um Watson egocêntrico e um Holmes drogado e imprestável. E olha que eu comecei a série de coração aberto, e no minuto que percebi que a proposta fugiria totalmente do contexto da época, eu realmente tentei comprar a linguagem adolescente, mas o dramalhão do show não consegue nem ser razoável no meio dessa mediocridade do subgênero que vemos por aí.

A série assume um caráter sobrenatural, extremamente inorgânico com o núcleo investigativo, e chega a ser hilário como o roteiro que mesclar o tom mágico com uma estrutura procedural de detetive, sendo que faz menos do que pouco para construir essa atmosfera. A série pula de mulheres perdendo olhos para frases como “Você só está aqui porque é curioso” dita centenas de vezes para o jovem rico Leopold (Harrison Osterfield). O cenário e o figurino querem passar uma imagem de época, mas a trilha sonora é recheada de músicas pop. A história sobrenatural é complexa – e desinteressante -, mas os arcos dos personagens são idióticos, a ponto de revirar os olhos com as situações dramáticas postas. Não existe tom nessa obra. Ela quer ser uma releitura interessante do Sherlock, com esse toque fantástico, mas o uso dessa mitologia é completamente desnecessário. Os coadjuvantes de Doyle e seu apartamento célebre poderiam ter qualquer nome e não faria diferença nenhuma à história, além de que a abordagem adolescente dentro dessa premissa vazia não proporciona qualquer tipo de divertimento descerebrado.

Os Irregulares de Baker Sreet é o filho do (péssimo) drama adolescente com a proposta caça-níquel de usar o Universo de Doyle. Tom Bidwell não traz nada novo ou interessante à mitologia, além de que sua cadência investigativa/sobrenatural não causa mistério, divertimento ou impacto dramático. Personagens genéricos em uma aventura genérica, sem qualquer qualidade de atmosfera, dramaturgia ou experiência audiovisual.  Um desastre total, e não adianta dizer que é porque o crítico não gosta de série adolescente ou uma trama soap opera, pois eu realmente tentei comprar a proposta da obra, completamente esquecível do início ao fim.

Os Irregulares de Baker Street (The Irregulars) – 1ª Temporada | Reino Unido – 26 de março de 2021
Desenvolvimento: Tom Bidwell
Direção: Joss Agnew, Johnny Allan, Weronika Tofilska
Roteiro: Tom Bidwell, Sarah Simmonds
Elenco: McKell David, Thaddea Graham, Jojo Macari, Harrison Osterfield, Darci Shaw, Clarke Peters, Royce Pierreson, Henry Lloyd-Hughes, Edward Hogg, Alex Ferns, Ian Whyte, Eileen O’Higgins, Nell Hudson, Charles Armstrong, Rory McCann, Olivia Grant, Lisa Dwyer Hogg, Jonjo O’Neill, Tim Key, Sheila Atim, Pip Carter, Anthony Barclay, Shelley Conn
Duração: 423 min. (oito episódios)

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