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Crítica | Os Mil Olhos do Dr. Mabuse

por Luiz Santiago
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Depois que voltou à Europa, quando deu por encerrada a sua carreira nos Estados Unidos, Fritz Lang dirigiu mais três filmes: O Tigre da Índia, O Sepulcro Indiano (projeto muito querido do diretor) e a parte final de sua trilogia Dr. Mabuse, depois da qual o cineasta se aposentou. Os Mil Olhos do Dr. Mabuse veio 27 anos depois de O Testamento do Dr. Mabuse, e encontrou uma sociedade completamente modificada, povoada por telas, viciada em vigilância e constantemente alimentada, ludibriada e deseducada pelas telas. Se nos filmes anteriores Lang abordou a capacidade de Mabuse em hipnotizar massas inteiras em contextos distintos (como o jogo e o terrorismo), agora ele exerce esse poder fazendo uso da tecnologia e almejando poder bélico nuclear.

Apesar de conceber uma história com o personagem de Norbert Jacques (Dr. Mabuse), Lang e seu parceiro de escrita, Heinz Oskar Wuttig, adaptam aqui o romance em esperanto Mr. Tot Aĉetas Mil Okulojn (O Sr. Tot Compra Mil Olhos), de Jean Forge. A atmosfera tecnológica do livro se faz presente através da máquina de vigilância que o icônico protagonista administra no Hotel Luxor, palco de toda a ação. Cercando essa atmosfera que nos permite fazer diálogos com a relação entre segurança pública, vigilância dos cidadãos e até mesmo uso de dados obtidos ilegalmente para benefício de um certo grupo, encontramos também ingredientes fantasiosos e místicos, vistos na maneira como o apartamento de Cornelius foi concebido pela direção de arte — uma mistura entre temas egípcios e astrologia –, e nos diálogos a respeito de signos, estrelas da sorte e do azar.

O Mabuse dos anos 1960 é a encarnação simbólica de um inimigo do passado, e o roteiro reforça os muitos paralelos entre a força dominadora e destruidora de Mabuse com as de Hitler. O nazismo e a fracassada empreitada do III Reich vêm à tona diversas vezes, sempre em tom de ressentimento e reprovação, representando em diversos contextos um momento de atraso para o país. O herdeiro dos hábitos e habilidades de Mabuse, no entanto, não está preocupado com política, não tem ambições ideológicas e nem pode ser alinhado a nenhum grupo socialmente organizado. Sua intenção é o controle das massas para um fim caótico e, em suma, verdadeiramente niilista. Ele nada quer e ao mesmo tempo quer tudo: seus métodos de conquista de pessoas, posição social e dinheiro são meios através dos quais pretende colocar as mãos em armas nucleares e, com elas, destruir quem bem entender.

Se no processo de ascensão ele obedece a uma linha de ação muitíssimo bem estudada, assumindo diversas identidades, fazendo uso de diversos agentes e descartando aqueles que “não lhe serve mais“, em seu momento de vitória ele dá uma clara mostra de que se embriagará pelo poder, podendo dar vazão à sua sede de sangue e à sua ânsia de ver populações inteiras pedindo sua proteção, sua misericórdia, enquanto governos inteiros prostram-se aos seus pés, tentando qualquer tipo de acordo desesperado. A presença desses mil olhos da vida de todos os personagens do filme escancara a crítica de Lang à própria civilização. No modelo que nos desenvolvemos hoje, é impossível livrar-se dos aparatos fiscalizadores, detentores de um poder capaz de agir sobre nós, seja justa ou injustamente. Em uma visão expandida, as instituições sociais são alguns desses mil olhos que os Mabuses de nosso tempo, aqueles detentores da programação para as telas, dos algoritmos, das câmeras e dos meios tecnológicos para manipular rebanhos humanos ao seu bel prazer, utilizam para se manter exatamente onde estão e, de preferência, subirem ainda mais alto.

Os Mil Olhos do Dr. Mabuse é um filme com um forte tom de desalento em sua conclusão. Ele deixa claro que o padrão de ação empregado pelo vilão, no passado e no presente, jamais morrerá de fato. Assim como as ideias nazistas, igualmente levantadas no decorrer do filme e com as quais podemos contextualmente fazer ligações aqui, sempre haverá um sucessor para manter os mais miseráveis atos humanos em andamento (me vem à mente, agora, Ele Está de Volta), conseguindo arrastar muita gente para executar parte do massacre e eventualmente ser interrompido por uma situação de desgaste, o que não significa muita coisa, a longo prazo. Os mil olhos sempre estarão à espreita. Mantê-los longe de trazer o fim para muito mais gente inocente é uma luta necessariamente constante de qualquer sociedade. Ignorar isso é abrir espaço para o caos.

Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (Die 1000 Augen des Dr. Mabuse) — Alemanha Ocidental, França, Itália, 1960
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Heinz Oskar Wuttig (baseado em uma ideia de Jan Fethke, nos personagens de Norbert Jacques e no livro de Jean Forge)
Elenco: Dawn Addams, Peter van Eyck, Gert Fröbe, Wolfgang Preiss, Werner Peters, Andrea Checchi, Marielouise Nagel, Reinhard Kolldehoff, Howard Vernon, Nico Pepe, Jean-Jacques Delbo, David Cameron, Linda Sini, Renate Küster, Rolf Weih, Rolf Möbius, Lotti Alberti
Duração: 103 min.

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