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Crítica | Os Miseráveis (2012)

por Laisa Lima
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Um musical não é só composto por pessoas cantarolando. Assim como em qualquer outro gênero, ele é feito da transmissão dos ideais da obra que confecciona. A disputa quase sociopolítica revestida de história romântica em Amor, Sublime Amor (1961) é o exemplo perfeito desta concepção, que une a essência crítica ao formato melódico. Agora, se pegarmos os musicais mais recentes, também é possível ser visto um mundo à parte, onde diálogos são canções e as ruas são os palcos. No caso de Os Miseráveis (2012), de Tom Hooper, os becos de uma França no século XIX são fragmentos de um discurso maior: será a liberdade, a igualdade e a fraternidade de fato igual para todos?

Readaptação da peça da Broadway que, por sua vez, adaptou um livro do romancista Victor Hugo, Os Miseráveis já se torna clássico por conta de seus precedentes. Apesar das outras versões para a TV e duas para o cinema, em 1935 e 1998, o filme de 2012 é o único criado em proporções grandiosas, seja nos cenários ou no elenco astronômico. O enredo permanece centrado no ex-prisioneiro Jean Valjean (Hugh Jackman) que, após descumprir sua sentença condicional, vira prefeito de uma cidade na qual conhece Fantine (Anne Hathaway) e, posteriormente a morte da moça e em busca de redenção pessoal, passa a cuidar de sua filha. Entretanto, o policial Javert (Russell Crowe), que persegue Valjean desde o sumiço do homem, o encontra e a antiga rivalidade volta à tona. Será Valjean capaz de fugir novamente ou será a hora de enfrentar seu antagonista diretamente ligado a sua vida pregressa? O meio em que se delineia o longa-metragem envolve, nessa jornada, não só estes dois personagens, mas também elementos representativos de ideologias para além da Revolução Francesa.

No filme, há todo um olhar cuidadoso por trás. Os cenários, riquíssimos em sua ornamentação, desde os destroços de um navio no começo da obra até a imundice de uma Paris banhada pela divisão de classes sociais, são dignos de reconhecimento. Ademais, o feito de dar beleza ao que pouco tem algo de belo necessita ser mencionado. A maquiagem e a caracterização do sofrido povo da França são críveis na medida em que as feições destes indivíduos são palpáveis, apresentando peles acometidas por doenças e roupas encardidas. Apesar do exagero, o intuito de montar a pobreza e o descaso do Estado em personificações faz-se esdrúxula e colaboradora de um objetivo maior: ostentar a inevitabilidade de uma revolução. Quase sempre vindas da população carente e de seus devidos comissários, as canções partem do princípio de que a mudança, por mais que seja essencial, está na mão de poucos. Até porque, tais expressões musicais circulam em torno do dia a dia da plebe parisiense, tornando-se pessoal somente quando se trata dos protagonistas e seus conflitos internos. 

A marcante “I Dreamed a Dream”, cantada por Fantine, de Anne Hathaway, é uma tipagem significante do estilo musical de Os Miseráveis; complementar ao resto do filme e com alta carga emocional. Se observar à volta do longa-metragem, é primordial, para tempos legitimamente revoltosos, melodias tão intensas quanto. E isso, juntamente com a ambientação à par de um quadro um pouco mais desasseado de Eugène Delacroix, engrandece qualquer discurso falado (ou cantado), já que a adesão da proposta pelo público diz respeito igualmente ao impacto visual. Entretanto, nem mesmo a fortificação das potentes canções anula o fato de, por ser uma película com perto de 3 horas e quase inteiramente com falas cantadas, o cansaço ser integrante, possivelmente, de uma parte da experiência do espectador. Alguns – visivelmente efetuados fora do tom – existem apenas para seguir com a ideia de um musical completamente musicalizado em todas as suas esferas.

Um dos culpados pela tonalidade desafinada é Russell Crowe, que mesmo estando em um bom papel como o irredutível Javert, entrega um certo incômodo a quem o ouve em determinadas ocorrências. Já Anne Hathaway e Hugh Jackman – indicados ao Oscar, inclusive – cooperam para a profundidade existente no filme, exibindo uma melancolia e uma culpa fundamentais para o entendimento total da história do filme e de seus componentes, literalmente miseráveis, o que perpassa apenas um simples musical. Os demais existentes no longa-metragem funcionam para a dramaticidade em cada subtrama. Nenhuma carece de melhores personagens, já que cada um tem seu lugar como revoltoso, mocinha, salvador, ou qualquer outro, adicionando ao enredo sujeitos importantes para o desenvolvimento no geral. Este desenvolvimento, no entanto, anda com mais rapidez do que deveria.

Com atos rápidos – como o de apresentação da história de Fantine e do próprio Valjean – e outros lentos demais – tal qual a trama atrás das barricadas – o diretor Tom Hooper prioriza o que está se vendo. O ritmo, contudo, permanece no mesmo seguimento das imagens que o cineasta acha interessante mostrar. No caso, ele parece ter escolhido valorizar mais toda magnificência da produção do filme com seus planos abertos e aéreos. Porém, com demasiados planos fechados nos rostos dos atores e uma estética semelhante a um quadro de pintura (elementos vistos em outros trabalhos do artista, como O Discurso do Rei, de 2010), a temática se enquadra em uma disputa desleal. A intimidade dos intérpretes para com suas figuras e o acompanhamento próximo de cada nuance em suas vozes e suas gesticulações, rejeitam em partes a Broadway e seu espetáculo ao tentar trazer o realismo que a peça não pôde dar. A locação e os objetos cênicos mais adequados para cada “número” do longa-metragem, volta a questão da enorme preocupação de Hooper com os artifícios plásticos, um meio de captação de emoção.

Se no século 19 ainda existia a miséria do proletariado, atualmente, existe o audiovisual para revelar isso. Os Miseráveis, embora coberto por uma beleza estonteante, percorre a classe social que sofre desde os primórdios, e dá voz a ela por intermédio de personagens miseráveis e desgraçados por uma sociedade impetuosa. A exaustão ao escutar melodias por quase 3 horas, apesar de mal utilizadas em algumas horas, não sintoniza se a realização da audiência for o cume da revolução, ou seja, a conquista do significado de liberdade. Se o espectador se deixar levar, então, pela pobreza (que, por mais estranho que pareça, sobressai a beleza do filme) exibida e pelo contraste com o pouco vislumbre da burguesia, existirá uma empatia e até um encantamento. Temáticas não tão aprofundadas, como a fé perdida e logo encontrada de Valjean, não saem do trilho em que o longa-metragem está e onde sua proposta quer levá-lo: no mundo daqueles que vivem à beira da indignidade. Logo, músicas funcionais e emotivas o acompanham, fazendo possível o não esquecimento de que aquilo é cinema, mas ainda assim, é uma canção para a liberdade.

Os Miseráveis (Les Miserables)  – EUA, Reino Unido, Irlanda do Norte – 2012
Direção: Tom Hooper
Roteiro: Herbert Kretzmer, Alain Boubill, Jean-Marc Natel, James Fenton, William Nicholson
Elenco: Anne Hathaway, Hugh Jackman, Russell Crowe, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham Carter, Samantha Barks, Sacha Baron Cohen, Aaron Tveit, Daniel Huttlestone
Duração: 157 min.

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