Crítica | Os Mortos Não Morrem

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Quem diria que Jim Jarmusch sairia da poesia cotidiana sobre a beleza da vida (Paterson, 2016) e faria de seu próximo longa de ficção uma comédia misturada com fantasia e horror sobre uma invasão zumbi na pacífica cidade de Centerville, embalada por uma referencial canção de Sturgill Simpson e com brincadeiras metalinguísticas que se perderiam em intenção e necessidade no meio do enredo.

O estilo, aqui, não trai em nada o diretor. Dando uma passada rápida por opiniões gerais a respeito do filme, é fácil identificar reclamações hilárias como “falta de respeito ao terror” ou que o cineasta “não capturou a essência dos filmes de zumbis“, ou seja, choramingo tolo de quem viu apenas três filmes na vida. Não importa se o espectador sabe quem é ou jamais ouviu falar em Jim Jarmusch na vida. O fato é que a esta altura do campeonato, depois de 125 anos de invenção do cinema como conhecemos, é de se imaginar que qualquer espectador que adentre a uma sessão de filme de gênero tenha ao menos uma ideia de que existem dezenas e dezenas de formas de se interpretar e retratar um gênero na tela. E que cada diretor possui uma assinatura, um olhar que tornará a sua abordagem… diferente.

Reclamar da “abordagem de gênero” em Os Mortos Não Morrem, no sentido engessado de que zumbis só podem ser retratados de uma maneira nos cinema, é resultado de loucura ou cinefilia rala. De Zumbi Branco (1932) ao presente exercício de Jarmusch, passando por obras tão distintas de três safras anteriores (para não ter que fazer aqui uma enciclopédia sobre o tratamento do tema nas telonas) como Invasão Zumbi (2016), Cargo (2017) e A Noite Devorou o Mundo (2018), o que mais temos é tentativas de diretores e roteiristas inovarem com esses mortos-vivos, cada um a seu modo. E é sob esse olhar que mergulhamos naquilo que o presente roteiro nos entrega, dentro do estilo do diretor: uma crônica lenta, que usa de silêncios e parcial imobilidade de personagens que tentam agir sobre algo que vem para mudar tudo aquilo a que estão acostumados. Para Jim Jarmusch, o abalo na rotina é sempre algo interessante de se retratar. Desta vez, porém, essa mudança veio faminta e… bagunçada.

Bill MurrayAdam DriverChloë Sevigny vivem os policiais dessa pequena cidade que vê consequências de ações mundiais chegarem a seu quintal. De cara, o roteiro acena para uma reação em cadeia onde pseudo-ciência dá as mãos a divertidos absurdos e a críticas sociais (leia-se: alfinetadas nos fanáticos trumpistas e no governo Trump), dando conta de perfuração nos polos da Terra, a inversão do campo magnético do planeta e um resultado quase místico vindo daí, como se a fase final da destruição humana não tivesse exatamente a ver com a destruição física do planeta, mas liberasse forças que fossem capazes de mudar o que entendemos da máxima regra que é ser humano: um dia, todos vamos morrer. Aqui, porém, a regra se altera. Os mortos não morrem.

Para mim, essa premissa é interessantíssima. Ela ganha na comicidade e no cinismo do diretor, com seus diálogos propositalmente artificiais, repetitivos e seus personagens meio congelados, acostumados a não fazer nada  e acreditar no que diz o governo sobre como a exploração selvagem dos recursos do planeta “faz bem a todos“. Para confrontar essa nova realidade o diretor cria todo tipo de gente, das já citadas figuras da lei ao quase místico observador exterior (Tom Waits, o Eremita Bob), passando pela face reacionária (Steve Buscemi), pelo nerd dono de loja e cheio de referências cinematográficas (Caleb Landry Jones), pela hábil e estranha cidadã que “parece de outro mundo” (Tilda Swinton) e por aí vai. Note que para cada um deles o figurino é uma espécie uniforme, falando muito mais sobre os personagens do que os próprios personagens. E como a fotografia está dividida em dois momentos bem particulares em termos de iluminação (os diurnos mergulhados em um verde sutil e os noturnos imperando com suas sombras e focos macabros de luz nos comércios e casas, especialmente no longo ato final) o público não consegue escapar em nenhum momento da ameaça dos zumbis ou da própria invasão. E é já em avançado momento da história que começamos a lamentar as escolhas do diretor.

Por mais que não tenha gostado do destino dado à personagem de Chloë Sevigny, o meu real problema com a conclusão de Os Mortos Não Morrem está na mistura completamente aleatória do fator alienígena e da confusa exposição da linha metalinguística na obra, que praticamente dá as mãos ao didatismo na narração do Eremita Bob. Quando resolveu trazer o apocalipse ao mundo, o diretor procurou aliar os seus zumbis ao objetivo metafórico que George Romero deu a essas criaturas, ou seja, a crítica ao consumismo. E isso é escrito e filmado de maneira brilhante, com os mortos-vivos orbitando coisas que mais faziam quando eram vivos, procurando consumir algo que lhes deram prazer, numa espécie bizarra de “hedonismo post mortem” que faz a gente rir de nervoso. No final do filme, o roteiro repete desnecessariamente essa intenção, como se quisesse ampliar o mesmo comportamento para o mundo todo e adicionar um quê de poesia maldita à danação da espécie: de um jeito ou de outro, seremos consumidos pelo que nós e nossos semelhantes fazemos com o mundo. A questão é que isso enfraquece o texto, porque esse conceito já tinha sido estabelecido. E o mesmo ocorre com a metalinguagem mal-encaixada e o fator alien. Coisa demais para um filme que não precisava de mais nada, além de um bom final.

Atropelando sua ótima ideia de “filme de zumbi” com complicações e reafirmações desnecessárias, Jim Jarmusch termina por entregar uma obra que tende a dividir o público entre odiadores e amantes, com bem poucos (como eu) no meio desse espectro. A obra é realmente interessante, engraçada a seu modo e como disse anteriormente, não trai o diretor e seu estilo. Mas recebe um floreamento que em vez de torná-lo mais exótico (e talvez tenha sido essa a intenção do cineasta) acaba deixando-o menos palatável.

Os Mortos Não Morrem (The Dead Don’t Die) — EUA, Suécia, 2019
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Elenco: Bill Murray, Adam Driver, Tom Waits, Chloë Sevigny, Steve Buscemi, Eszter Balint, Danny Glover, Maya Delmont, Taliyah Whitaker, Jahi Di’Allo Winston, Kevin McCormick, Sid O’Connell, Caleb Landry Jones, RZA, Larry Fessenden, Rosie Perez, Tilda Swinton, Iggy Pop, Selena Gomez
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.