Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantarSão ocupadas em nascer e morrer
MPB + rock psicodélico + tropicália. Lançado em junho de 1968, pela Polydor, Os Mutantes, primeiro álbum da banda de mesmo nome, chegou ao mercado causando furor. Produzido por Manoel Barenbein e orquestrado por Rogério Duprat, o álbum é — com razão — considerado um dos mais importantes da música brasileira, com experimentos e inovações que abriram as portas para outras bandas e cantores usarem esses recursos em estúdio, no futuro. A influência dos Beatles aqui também é sentida na concepção geral do álbum, que não se contenta com pouco. Mudanças de ritmo no decorrer das músicas, distorção do som das guitarras, ruídos de sons comuns de ambientes, uso de sonoplastia para marcar o passo ou transição são percebidas ao longo das faixas, que além do rock, trazem samba, baião e ritmos do candomblé. O trio formado por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias conseguiu traduzir o espírito da Tropicália em música, quando o Brasil vivia sob a ditadura empresarial-militar e, poucos meses depois do lançamento deste disco, enfrentaria o endurecimento do regime com o AI-5, em dezembro de 1968.
Rita Lee disse que Caetano e Gil compuseram Panis et Circenses, a faixa de abertura do disco, “em apenas 15 minutos“. A musicalidade circense, a letra, que pode ser interpretada pelo lado da crítica à tortura e ações dos militares durante aqueles anos iniciais da ditadura; ou como as contradições entre a inocência da tenra idade (ou do espírito livre) versus a vida adulta e cheia de agenda para cumprir, foi uma excelente escolha para dar início ao álbum. A Minha Menina, de Jorge Ben (que começa falando para todo mundo tossir), tem sonoridade rica, com um riff distorcido na guitarra de Sérgio Dias. O Relógio, segundo Rita Lee, é “uma homenagem ao seu próprio relógio“, calma no primeiro bloco, como se as imagens líricas que invoca não fossem agressivas, assim como a passagem do tempo — aqui, interrompidas, falando da relatividade e das muitas formas de entendermos a passagem dos anos.
Adeus Maria Fulô, de Humberto Teixeira e Sivuca, é uma versão interessantíssima de uma gravação de 1951. Mesmo vindo de um baião e mesmo tendo a ideia de modernizar a faixa, Os Mutantes não usaram nem guitarra e nem sanfona. O xilofone e a percussão (com o tempo do baião), além de sons adicionais, fazem o trabalho atmosférico e experimental da faixa. A tocante e simples Baby, de Caetano, vai crescendo progressivamente, com os arpejos de guitarra por Sérgio Dias imitando o papel corrente do violão bem marcado nesse tipo de composição, numa leitura mais pop, mais MPB. Senhor F tem nuances de Martha My Dear e Being for the Benefit of Mr. Kite! dos Beatles, e carrega estrutura similar ao jazz, falando sobre sonhos inalcançáveis através da mídia de massa e das relações de trabalho. Bat Macumba (santa batida, Batman!) é o flerte do grupo com o candomblé, trazendo uma excelente linha de baixo e com participação de Gilberto Gil na percussão.
Le Premier Bonheur du Jour brinca um pouco com a versão original gravada por Françoise Hardy, com um solo de flauta e acompanhamento de uma bomba de inseticida para marcar o tempo do chimbal, algo que quase sufocou todo mundo no estúdio. Trem Fantasma é uma divertidíssima visita ao parque de diversões, com referências a Zé do Caixão e tudo! A narrativa lírica acompanha um casal que compra entradas por 400 cruzeiros e embarca num passeio surreal pelos medos e prazeres do brinquedo, culminando com a aparição do personagem icônico do cinema de terror brasileiro. Tempo no Tempo é a excelente versão dos Mutantes para Once Was a Time I Thought, de John Phillips para o The Mamas & The Papas, com belo uso dos sopros e da percussão com estalar de dedos. Para fechar o disco, Ave Gengis Khan, a instrumental + vocalise + distorção de voz (de César Baptista, pai de dois dos integrantes da banda), uma espécie de mantra de guerra ou de despedida, após a experiência psicodélica que tivemos com o disco.
Os Mutantes (1968) é um dos marcos fundamentais da música brasileira. A capacidade do trio de fundir experimentalismo com melodias cativantes, de combinar crítica social com humor irreverente, de misturar rock psicodélico anglo-americano com diversos ritmos brasileiros, criou algo genuinamente único e duradouro. Nessa estreia, o conjunto criou um novo paradigma para a música popular brasileira, provando ser inovador e acessível, local e universal, sério e divertido. O disco capturou o espírito irrequieto de 1968 enquanto antecipava caminhos que a música brasileira só trilharia anos depois. A irreverência do trio ao desconstruir baião, samba e candomblé para recriá-los sob nova ótica experimental abriu portas para gerações futuras de artistas. Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias conseguiram algo raro: criar um álbum que pode ser ouvido e entendido como declaração política cômica, laboratório sonoro e coletânea de canções bem produzidas, bem executadas e memoráveis.
Os Mutantes
Artista: Os Mutantes
País: Brasil
Lançamento: 1968
Gravadora: Polydor/Polygram
Estilo: MPB, psicodélico, rock
Duração: 42 min.
