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Crítica | Os Nibelungos – A Morte de Siegfried

por Ritter Fan
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Como fez com diversas outras obras, Adolf Hitler apropriou-se do poema épico germânico Nibelungenlied (Canção dos Nibelungos) e suas mais famosas adaptações da época para avançar suas ideias de superioridade da “raça ariana” e seus impulsos genocidas, o que de certa forma afeta negativamente a análise de Os Nibelungos, obra dirigida por Fritz Lang e co-escrita por ele e sua então esposa Thea von Harbou e lançada dois anos depois de Dr. Mabuse, o Jogador. Dividida em duas partes que chegaram aos cinemas com poucos meses de diferença, a monumental saga fantástica de Lang pode ser vista tanto como a precursora de obras como O Senhor dos Aneis e Game of Thrones, quanto uma abordagem que tinha o objetivo declarado – pelo próprio Lang – de levantar a moral germânica depois do fim da Primeira Guerra Mundial e seus devastadores efeitos amplificados pelo Tratado de Versalhes e uma das primeiras encarnações audiovisuais do übermensch de Friedrich Nietzsche.

Fica evidente, portanto, o apelo do herói Siegfried – loiro, musculoso, valente, invencível e super-poderoso – como um símbolo de superioridade de todo um povo para alguém como Hitler, algo que se torna ainda mais evidente na medida em que vemos o protagonista lidar com seres peludos, feios, de baixa estatura e, depois, com uma nobreza fraca e traidora. Mesmo sem querer, Lang criou o garoto-propaganda do Nacional Socialismo, um fantasma e uma culpa que o cineasta carregaria para sempre, usando seus filmes seguintes para, de diversas maneiras diferentes, expiar esse pecado, ainda que seja completamente injusto imputar qualquer responsabilidade ao criador, uma vez que a segunda parte da história, A Vingança de Kriemhilde, ignorada por Hitler, obviamente, seja mais do que suficiente para criar o equilíbrio necessário.

O Siegfried (ou Sigurdo, em português) de Fritz Lang, vivido por um cabeludo e empavonado Paul Richter, ganha uma diferença importante do mesmo personagem em Nibelungenlied: no lugar de ele ser fruto de uma corte real, ele é a encarnação de um país, de uma terra, de uma região. Sim, há textualmente a indicação de que ele é um príncipe, filho do Rei Siegmund, de Xanten, mas esse é um detalhe irrelevante na trama, já que todo o foco fica em como ele, primeiro visto forjando sua própria espada na forja de Mime (Georg John), decide seu próprio caminho que mira no casamento da Princesa Kriemhild (ou Crimilda) da Borgonha (a região é mais conhecida como sendo na França, mas o nome original vem do mais antigo povo germânico, os Burgúndios), vivida por Margarete Schön, mas que passa pela luta com um dragão cujo sangue lhe concede invulnerabilidade, com exceção em um ponto nas costas como o Aquiles da Antiguidade e o enfrentamento do Rei Alberich (ou Alberico), dos Nibelungos, também vivido por Georg John, que lhe vale uma máscara de invisibilidade e transformação em qualquer pessoa e um inestimável tesouro. Em outras palavras, ele é um home que, por sua valentia e vitórias, conquistou seus próprios poderes e destino, uma mensagem que pode ser vista de maneira inocente como sendo uma de ânimo, de que é possível dar a volta por cima, mas que, em retrospecto, estabelece uma conexão insalubre com o Nazismo.

No entanto, se por um momento conseguirmos nos abstrair dessas implicações e mergulharmos na proposta de Lang, descobriremos um filme muito além de seu tempo, uma obra de contornos épicos inacreditáveis para a época em que foi feito. Se Quo Vadis, Cabíria e Intolerância já haviam escancarado as portas para esse tipo de narrativa grandiosa ainda na Aurora do Cinema, Os Nibelungos – A Morte de Siegfried consegue ir talvez a um nível acima por construir uma Jornada do Herói que não deixa nada a dever aos longas que o antecederam e muitos que o sucederam e ainda sucedem, sedimentando o caminho para narrativas únicas que colocam o Homem em conflito com a Natureza ou apequenados pela monumental geografia ao seu redor, seja ela natural ou artificial.

Se, para os olhares modernos, acostumados com a muleta da computação gráfica, a importante luta de Siegfried com o dragão cujo sangue lhe dá invencibilidade parecerá ridícula, a ambientação da floresta onde ela acontece com certeza chamará atenção pelo detalhismo e grandiosidade. O mesmo vale para as cavernas dos Nibelungos e seus tesouros, além de sua transformação em pedra. O palácio e a catedral do reino do Rei Gunther (ou Guntário), vivido por Theodor Loos, são gigantescos, com visões do exterior com características expressionistas (que, não duvidaria, serviram de inspiração para a grandiosidade dos comícios nazistas conforme capturados por Leni Riefenstahl) e interiores suntuosos e absolutamente simétricos que certamente teriam a aprovação de Stanley Kubrick. Os figurinos que caracterizam cada grande personagem, com o branco e dourado de Siegfried e Kriemhilde, o preto depressivo de Gunther e a mesma cor, só que com viés guerreiro tanto da Rainha Brunhilde de Isenland (Hanna Ralph) quanto do braço direito de Gunther, Hagen de Tronje (Hans Adalbert Schlettow), ambos com capacetes extraordinários que fazem alusões a aves, mostram o cuidado do design de produção e a riqueza da abordagem, algo que é amplificado sobremaneira pela tintura amarelo-dourado originalmente aplicada ao celuloide, que cria uma impressão muito diferente do filme em comparação com ele em mero preto e branco.

Apesar de sua duração avantajada – são 149 minutos só para essa primeira parte da história – não há barrigas narrativas sensíveis se o espectador imbuir-se da serenidade necessária para se assistir um longa dessa natureza, até porque a teatralidade das atuações (e os penteados, ah, os penteados!!!) exige um estado de espírito específico, longe do frenesi exigido pelo público atual que é entregue de bandeja pelos estúdios. Claro que ajuda muito a divisão em sete capítulos bem demarcados com intertítulos explicativos sobre o que vai acontecer, restando ao espectador descobrir o como e o porquê, além dos efeitos óticos soberbos que Lang não se furta em usar com constância. Os cenários variados, de florestas, a cavernas, além de palácios, terras de lava, jardins e interiores mil atiçam a curiosidade, com o uso da perspectiva criando ilusões muito eficientes também contribuem para que a passagem temporal funcione dentro e fora da obra, evitando o marasmo, com o roteiro usando comparativamente pouquíssimos inter-títulos.

Os Nibelungos – A Morte de Siegfried é monumental, uma inacreditável obra de fantasia que é um tour de force cinematográfico que por vezes consegue ser ainda mais impressionante do que Metrópolis, o filme mais conhecido do diretor. O Nazismo pode ter se apropriado de sua simbologia, o que tem o potencial de afetar a visão de qualquer um sobre o longa, mas ele sem dúvida merece outra chance.

Os Nibelungos – A Morte de Siegfried (Die Nibelungen: Siegfried – Alemanha [República de Weimar], 1924)
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou
Elenco: Paul Richter, Margarete Schön, Hans Adalbert Schlettow, Theodor Loos, Hanna Ralph, Gertrud Arnold, Georg John, Hans Carl Mueller, Erwin Biswanger, Hardy von Francois, Frida Richard, Yuri Yurovsky
Duração: 149 min.

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