Home QuadrinhosArco Crítica | Os Novos Mutantes #87 a 89 [Primeira Aparição: Cable]

Crítica | Os Novos Mutantes #87 a 89 [Primeira Aparição: Cable]

por Giba Hoffmann
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A estreia de Cable nos quadrinhos, logo no início dos anos 1990, é representativa das tendências que o universo mutante seguiria ao longo da década, em termos tanto de estilo quanto de narrativa. O soldado hi-tech com passado misterioso e envolvimento múltiplo em diversos arcos e tramas complicadas que se estendem e sobrepõem ao longo dos diversos X-Títulos em que o personagem aparece: temos aí a hipérbole noventista em pessoa.

Nessa primeira etapa, no entanto, trata-se de um momento anterior ao famigerado “golpe de estado” dos desenhistas, que levaria as narrativas da hipérbole estilística à auto-caricatura sem substância ao longo dos próximos anos, abastecida pela bolha de mercado das comic shops e seus igualmente famigerados gimmicks calcados no colecionismo para alavancar as vendas.

Assim como quando tivemos Chris Claremont brevemente trabalhando junto de Jim Lee, resultando em um direcionamento e estilo temporariamente único para as histórias, que rapidamente se transformariam sem volta para pior, aqui na fase final do primeiro volume de Os Novos Mutantes temos a roteirista já veterana Lousie Simonson trabalhando junto de um jovem Rob Liefeld, em uma narrativa que, mesmo sem o benefício contextual em ser lida posteriormente, já trazia consigo desde o início o caráter transicional.

A arte de Liefeld é conhecida pelo fato da terrível qualidade ser praticamente ponto pacífico entre os leitores – salvo raras exceções extremadas de fetichistas entusiastas do estilo que conseguem ou apreciá-lo no contexto, ou deixar passar pela nostalgia, ou quiçá desfrutar do efeito “é tão ruim que chega a ser bom”. O fato é que aqui felizmente todo o caos de traços, excesso de linhas e anatomia surrealista se encontra a serviço de um roteiro bastante competente da parte de Simonson, o que ajuda o exercício todo a soar definitivamente mais palatável do que as futuras contribuições deste jovem promissor ao Universo Marvel (e também à Image, é claro).

A trama traz como central o confronto entre a Força Federal – grupo policialesco de mutantes liderado por Mística, atuando sob o aval do governo – e a Frente de Libertação Mutante, liderados pelo misterioso Conflyto. Os titulares Novos Mutantes encontram-se de início literalmente de fora da situação, voltando de sua última aventura em Asgard apenas para demonstrar nada mais que um leve interesse pelos recentes desaparecimento e reaparecimento à jato da nave do X-Factor e do sequestro de seus colegas mutantes neófitos Skids e Rusty Collins.

A história segue com um ritmo um tanto desordenado, especialmente na primeira edição, antes de encontrar os trilhos e entregar batidas mais envolventes ao longo das duas partes subsequentes. Parte disso se deve à imensa quantidade de personagens e eventos que são aludidos ao longo do enredo, capaz de confundir em momentos mesmo alguém (cof cof, eu, cof cof) que já tenha lido anteriormente a história e todas as outras precedentes, caso não haja uma recapitulação mínima do estado das coisas nessa época por parte do leitor. Embora a segmentação das revistas e o modelo mais focado nos arcos (visando, é claro, a venda em encadernados) tenha trazido maior organização nessa frente, também é certo que há um charme na forma como o quadrinho não tem timidez alguma em relação ao seu caráter seriado, o que por resultado deixa o leitor, ao final da leitura, curioso pelo que acontecerá em seguida (e mesmo pelo que aconteceu antes!).

A primeira aparição efetiva de Cable não é das mais dignas, sendo que, apesar de todo o visual descolado e banca extremamente hard-boiled do personagem, o cara acaba tomando uma surra da dupla zé-ninguém Ceifador Mutante e Estroboscópica. Pois é. Provavelmente a ideia era estabelecer a FLM como ameaça real, mas o resultado acaba mais é fazendo com que Cable parecesse muita pose para pouca eficiência. Capturado pela Força Federal com a mão biônica detonada, é apenas na edição seguinte que vemos um pouco do que o soldado futurista é capaz.

A fuga de Cable da base da FF é bastante divertida e nos mostra o personagem vencendo praticamente meia Irmandade de Mutantes sozinho e sem nenhum armamento que não algumas bugigangas que trazia escondidas no corpo. Essa acaba sendo a real estreia do figura em suas plenas capacidades, e segue para uma fuga pela cidade em direção à nave do X-Factor, onde o velho misterioso espera encontrar ajuda. Por meio de sua manipulação do público e monólogos estratégicos, percebemos que o figurão já traz bastante experiência passada – embora permanecemos no escuro a respeito de sua real natureza (a bem da verdade, acredito que mesmo Simonson e Liefeld também estavam na mesma situação!).

Intercalando os perrengues do velho biônico com os dramas pessoais da garotada dos Novos Mutantes, o enredo vai construindo em torno da temática do quanto a equipe se encontra atualmente sem rumo, após ter sido abandonada não por uma, mas por duas figuras de mentoria, que os deixaram literalmente sem um teto para dormir e sujeitos a viver de favor na nave dos primeiros formandos da agora extinta Escola Xavier, o X-Factor – que por sua vez, envolvido em zilhões de problemas próprios, claramente não tem tempo para dar a atenção devida ao grupo de mutantes ainda relativamente iniciante.

É muito bacana a forma pela qual o trio Míssil, Mancha Solar e Dinamite acabam encontrando com o fugitivo Nathan em seu combate contra Blob e Pyro, enquanto compravam um presente para a despedida de Rahne, que está sendo levada por uma Moira atualmente dominada pelo Rei das Sombras (pois é, a coisa estava complicada mesmo!). Neste momento importante da cronologia dos Novos Mutantes temos o início do que futuramente se tornaria a X-Force, e tudo isso é habilmente trabalhado no roteiro de Simonson, especialmente nas sequências retratando nossos heróis.

Ainda que com uma trupe de vilões no geral inexpressivos e montando sobre uma história que começa um tanto convoluta, o arco da aparição inicial de Cable consegue inserir o figura de forma orgânica na vida de um grupo de Novos Mutantes sem muita perspectiva e carente de uma figura de liderança. Encontrando-na no lugar onde menos poderia-se supor que estivesse, os desenvolvimentos aqui preparam bem o amadurecimento dos Novos Mutantes em X-Force e lançam as bases para o personagem de Cable, ainda que fique bem claro em vários momentos que a ideia de fazer dele o bebê de Scott vindo do futuro (eles inclusive dividem uma página na edição 88!) ainda não estava na mesa. Uma boa leitura seriada que compensa um roteiro simples com boa caracterização e momentos marcantes o suficiente para se destacar.

Os Novos Mutantes #87 a 89 (New Mutants Vol. 1 #87 – 89 , EUA – 1990)
Publicação no Brasil: X-Men #62 e 65 (Ed. Abril, Dezembro de 1993 e Março de 1994)
Roteiro: Louise Simonson
Desenhos e Arte-final: Rob Liefeld
Cores: Steve Buccellato (apenas edição #98) e Brad Vancata
Letras: Joe Rosen
Capas: Rob Liefeld
Editora nos EUA: Marvel Comics
Data original de publicação: março a maio de 1991
Páginas: 22 (cada número)

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8 comentários

JC 16 de maio de 2018 - 18:02

Caraca,,,,,quando eu lia nessa época…..(sim sou velho …), eu achava a arte bacaninha, mas amava Jim Lee e Marc Silvestri. Achava Todd espetacular, Rom Lim apenas ok, e Sal Buscema (Gente, não era ele não, era um que desenhava Spider Man nas horas vagas de Greg Capullo….esqueci o nome – Piorei mais ainda , não era o Greg… – MARK BAGLEY!) , ruim de doer os olhos.

Hoje vejo que Perez que era um mago. E definitivamente Alex Ross é O Cara.

Até hoje.

Engraçado que eu odiava a Arte de Bill sctarazwckking (nunca vou acetar o nome dele) e de Sam Kieth.

Hoje babo pelos dois. ehehehehehhe. Sam Kieth com The Maxx é uma das obras mais injustiçadas que eu conheço.

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G. Hoffmann 17 de maio de 2018 - 18:05

Hehehe também sou dessa época, @JCnaWEB:disqus ! A memória afetiva faz mal pra gente né, eu reconheço que ainda hoje curto mais essas coisas do Liefeld do que deveria.. hahahaha

Curto demais o Bill Sienkiewicz também, cara! Do Sam Kieth, acho que só li a mini do Wolverine/Hulk, que me lembro. Coisa fina, mesmo!

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JC 18 de maio de 2018 - 17:19

Cara, procura The Maxx!!! Sério!!!!!!!

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Mojo 24 de maio de 2018 - 12:13

Amigo, aos meus 12 anos McFarlane e Jim Lee eram os deuses da arte!! Não via defeito nos desenhos do Liefeld e Marc Silvestri, achava tudo lindo e morria de tédio com a arte do John Romita Jr. Bill Sienkiewicz e Sal Buscema kkkkkk!!! Naturalmente depois de alguns anos, tudo mudou, mas o meu pré adolescente interior ainda se mantém fã das histórias dos anos 90.
PS: Menção honrosa ao Arthur “Longshot” Adams, ótimo artista criador do mundo de Mojo.

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G. Hoffmann 24 de maio de 2018 - 19:22

@Mojopgr1980:disqus , Art Adams acho foda até hoje! Bom demais!!

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planocritico 14 de maio de 2018 - 23:52

Essa arte faz sangrar os olhos, por En Sabah Nur!!!!

HAHHAHAHAHAAHAHHHAH

Abs,
Ritter.

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Luiz Santiago 14 de maio de 2018 - 23:55

Você fala assim, mas a gente sabe que você tem uma coleção de pôster de arte do Liefeld pendurada na parede do seu quarto…

Só os peitos de pombo!

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G. Hoffmann 15 de maio de 2018 - 01:49

E olha que essas acho que são antes de alguém falar pra ele que ele era o messias dos desenhistas, e o pior – ele acreditar!
Sabe que dá até pra esquecer que é ele em alguns momentos (coisa que nas magnum opus dele mais pra frente ele garante que você não esqueça – você fecha o gibi e continua vendo pessoas com 80+ dentes e dezenas de músculos torácicos!)

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