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Crítica | Os Oito Odiados – Versão Estendida

por Ritter Fan
4148 views (a partir de agosto de 2020)

Os Oito Odiados, melhor filme (esse começo foi para a galera do “parei de ler quando o crítico…”) da excelente filmografia de Quentin Tarantino, ganhou tratamento VIP desde sua concepção, com o cineasta fazendo das tripas coração para empregar técnicas da velha guarda para abordar seu “teatro filmado” da maneira mais clássica possível, o que acabou gerando a sensacional e quase mítica Versão Roadshow do longa, que antecedeu sua estreia em grande circuito. Curiosamente, quatro anos depois de chegar aos cinemas do mundo, precisamente em 25 de abril de 2019, o longa ganhou uma terceira versão, denominada simplesmente Versão Estendida, que foi disponibilizada exclusivamente no Netflix dos EUA (e talvez de alguns outros países, não tenho certeza, mas ainda não no Brasil).

No entanto, mais do que uma mera versão estendida, o que Quentin Tarantino e o montador Fred Raskin fizeram para o canal de streaming foi acrescentar cenas novas e versões mais longas de cenas existentes e, então, “recortar” seu filme em uma versão de minissérie em quatro episódios, o que pegou todo mundo de surpresa. Cada um deles tem título e créditos de abertura e encerramento como uma minissérie padrão, com a seguinte divisão:

Episódio 1: Last Stage to Red Rock – 50 min.
Episódio 2: Minnie’s Haberdashery – 51 min.
Episódio 3: Domergue’s Got a Secret – 53 min.
Episódio 4: The Last Chapter – 56 min.

Quem se recordar da versão cinematográfica, perceberá que os títulos dos três primeiros episódios batem exatamente com os capítulos de Tarantino, mas o segundo capítulo do longa, Son of a Gun, foi inserido em Last Stage to Red e The Four Passengers e Black Man, White Hell, passaram a compor The Last Chapter, o que dá uma visão bem clara de como acontecem os “intervalos”. A já avantajada duração original do longa de 168 minutos (187 na Versão Roadshow, só que quase 16 minutos sendo de “abertura” e “intervalo” é aumentada consideravelmente para 210 minutos, já contando os créditos no início e final de cada episódio.

A pergunta que muitos terão inicialmente é: o filme mudou com as novas cenas? A resposta é um categórico não. E eu vou além: essa versão sequer era “necessária”, não sendo mais do que um exercício de Tarantino e Raskin para ver se eles podiam converter o longa em uma minissérie a pedido do Netflix, certamente com o objetivo de tornar o filme mais “palatável” para aqueles que consideram que ver um filme de quase três horas em uma sentada só é cansativo, especialmente quando muitos acham “que quase nada acontece” na projeção. Dito isso, como viciado em versões alternativas de filmes, devo dizer que, para minha surpresa, a versão em minissérie de Os Oito Odiados funciona muito – deixe-me reiterar: MUITO – bem.

Claro, tendo tido o privilégio de assistir às duas versões cinematográficas do longa como descrito nas respectivas críticas e sendo um amante da chamada “experiência cinematográfica”, não tenho dúvidas em afirmar que assistir ao filme nas duas versões de tela grande na tela grande é a melhor maneira de apreciá-lo, mas, assim como a Versão Épica que aglutina O Poderoso Chefão e O Poderoso Chefão II em um filme só é outra forma de se apreciar duas obras-primas, a minissérie de Os Oitos Odiados é outra maneira de se encarar o mesmo filme, uma que, no mundo de hoje, torna-se ainda mais relevante e prática e que, em termos de história, nada se perde. Percebe-se muito claramente o cuidado de Tarantino e Raskin ao trabalhar nessa nova versão, pois, no lugar de começar do zero, eles mantiveram intacta toda a estrutura narrativa, sem alteração na ordem dos acontecimentos, mas acrescentando sequências que muito discretamente emprestam outros “olhares” ao seu faroeste teatral.

Um bom exemplo disso são as sequências extras envolvendo Joe Gage, personagem de Michael Madsen. Na versão cinematográfica, ele é um literal personagem de segundo plano, enquanto que, na minissérie, ele ganha mais desenvolvimento com sua maior exposição “solo”, por assim dizer, ao longo do suspense brilhantemente construído. É como se, na nova montagem, o cineasta tivesse aproximado mais o personagem do espectador, emprestando-lhe mais nuanças. Outro momento que chama atenção é a entrada de John Ruth (Kurt Russell) e Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) no Armarinho da Minnie, pois, no longa, não há mudança de ponto de vista e a sequência mantém o mistério sobre toda a situação. Na minissérie, essa sequência ganha mais tempo para que haja um “passeio” pela visão de outros personagens, o que estabelece mais diretamente a conexão de Daisy com os que estão ali presentes. Não é nada óbvio e não é nada que estrague a surpresa (que não é exatamente surpresa, temos que convir) mais para o final, mas sim uma forma de conectar e estabelecer mais outro prenúncio do que está por vir, aproximando o longa da estrutura clássica de uma série ou minissérie, como é a proposta aqui.

Além disso, há os necessários “conectores” que levam mais fluidamente de um episódio ao outro, adicionando minutagem que, se não mudará a vida de ninguém, proporcionará uma experiência melhor para o formato escolhido. Na verdade, são eles que mostram o verdadeiro cuidado de Tarantino e Raskin com sua obra, pois cineastas menos preocupados com seu trabalho simplesmente cortariam o mesmo longa em capítulos da forma como ele originalmente estava, sem trocar de chapéu para um equivalente a showrunner.

A Versão Estendida de Os Oito Odiados não traz – e nem é a proposta trazer – novas linhas narrativas e alterações radicais no que já foi apresentado. O que importa mesmo, como já diria Vincent Vega, não as “pequenas diferenças”. Os melhores cineastas não produzem filmes como se fosse uma árvore cheia de galhos, um para cada lado, mas sim como uma estrada reta, sem muita gordura. Foi assim no recente O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone que desapontou muita gente “por ser igual” ao original (e simplesmente não é, mas não adianta discutir muito sobre isso) e é assim em Os Oitos Odiados. Trata-se, apenas, de uma outra maneira de se apreciar a mesma coisa que, como disse, não precisava  existir, mas, em existindo, resta apenas constatar que Tarantino foi bem sucedido em sua empreitada mais uma vez.

Obs: Tive a oportunidade de assistir ao filme em sua versão minissérie, no começo de 2020, antes da pandemia eclodir, quando estive nos EUA e acessei minha conta do Netflix por lá.

Os Oito Odiados – Versão Estendida (The Hateful Eight – Extended Cut, EUA – 2019)
Direção: 
Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern, James Parks, Dana Gourrier, Zoë Bell, Lee Horsley, Gene Jones, Keith Jefferson, Craig Stark, Belinda Owino, Channing Tatum, Quentin Tarantino
Duração: 210 min.

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