Crítica | Os Oito Odiados

Os Oito Odiados provavelmente é, mesmo considerando a filmografia quase que completamente experimental de Quentin Tarantino, seu filme menos palatável, menos apreciável automaticamente. As restrições a que o cineasta se auto-impôs, transformando sua obra de quase três horas de duração (e mais de três horas no formato em 70 mm) essencialmente em teatro filmado não só mostram coragem em tentar coisas novas, como também pouca preocupação em agradar o chamado gosto popular. Apesar de verborrágico, o longa, por ser um faroeste, vale-se muito pouco de linguagem pop e, por ser uma produção de caráter bem mais restrito do que Django Livre, não tem nem mesmo a pegada mitológica da saga do personagem de Jamie Foxx.

Em poucas palavras, Os Oito Odiados é um faroeste de suspense quase que integralmente passado dentro de um ambiente só, o Armazém da Minnie, localizado no meio do nada com coisa nenhuma, para onde todo o elenco aos poucos converge em razão de uma nevasca. Dentre os personagens, há os caçadores de recompensa John Ruth (Kurt Russell) que capturou e está em processo de transporte de sua prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) e Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), com prisioneiros mortos, além do miliciano Chris Mannix (Walton Goggins), que lutara pelo Sul na Guerra de Secessão e que, agora, está a caminho de ser empossado como xerife em Red Rock, no Wyoming. Depois de um prelúdio belíssimo e extremamente lento em que o grupo acima é apresentado e reunido, eles chegam ao tal armazém para passar pelo menos a noite e a história efetivamente começa. Mas que história? Bem, falar mais não só é desnecessário, como também inevitavelmente traria spoilers para a crítica, mas basta dizer que é quase que um romance de Agatha Christie envelopado como faroeste teatral, com as surpresas e revelações de praxe, além de ricas histórias pregressas e um perfeito encapsulamento das dicotomias, diferenças sociais e problemas dos Estados Unidos de outrora que se manifestam até hoje em dia.

Mas o que realmente espanta no filme e que me deixou de queixo caído são as mencionadas restrições a que Tarantino se auto-impôs. E engana-se quem as reduz a apenas um “teatro filmado”, pois Os Oito Odiados é mais do que isso. Vejo mais como uma espécie de evolução do que Alfred Hitchcock fez em sua carreira, como se Tarantino estivesse se apoiado nos ombros do Mestre do Suspense para subir mais um degrau. Afinal, Hitchcock trabalhou eficientemente o artifício de “quase um cenário só” em Disque M para Matar, de 1954. No entanto, antes desse filme, em 1948, ele mesmo havia se auto-imposto a utilização de apenas um cenário e planos-sequência alongados e costurados como um só em Festim Diabólico. E, como se isso não bastasse, no mesmo ano de Disque M para Matar, ele trabalhou quase um ambiente só que serve de ponto-de-vista para a vida pululante do outro lado da rua em Janela Indiscreta. O que Tarantino faz, aqui, é pegar o conceito de mistério em um cenário só, algo que ele de certa forma fez em Cães de Aluguel, e acrescenta o seguinte: (1) o uso constante de profundidade de câmera total, o chamado foco profundo, mantendo todos os planos permanentemente em foco; (2) fotografia em 70mm e razão de aspecto alargada, algo normalmente aplicável a obras que trabalho planos gerais abertos e não confinadas a um ambiente; e (3) a eliminação de divisões (paredes) em seu cenário, mantendo cada personagem no campo de visão do outro por todo o tempo em que eles estão no Armazém da Minnie. Porque as limitações? Acho que, assim como no caso de Hitchcock e outros cineastas, trata-se, aqui, de desafiar-se.

Com essa estrutura, criar suspense ou tensão exige um cuidado extremo com o posicionamento da câmera, posicionamento esse que, considerando o cenário e o estilo narrativo, não podia fazer uso de malabarismos ou movimentos bruscos, travellings ou tomadas a partir de gruas, pelo menos não de maneira constante. O que o cineasta faz dentro do armazém graças ao trabalho preciso de Robert Richardson na cadeira de diretor de fotografia, ele já ensaia nos longos minutos em que mantém a câmera focada na cruz no início da projeção, com a diligência chegando ao fundo, mexendo-a muito vagarosamente. Assim como no teatro, portanto, tudo precisa estar precisamente posicionado, o que deve ter sido um pesadelo para os continuístas durante as filmagens que começaram em dezembro de 2014 no Colorado, em meio a condições climáticas complicadas.

Repare como o Armazém de Minnie é explorado pela câmera logo que “nós” entramos lá pela primeira vez. Aprendemos sobre cada canto daquele local. A cadeira com o velho general Sandy Smithers (Bruce Dern), o fogão/aquecedor e as mesas, tudo acaba se tornando familiar e constante, com quebras apenas quando a ação é brevemente transposta para fora do local e nos flashbacks. A tensão, portanto, é criada pela ausência de espaço morto, pela completa certeza de que algo acontecerá (porque algo tem que acontecer, claro), mas que, no cenário que nos é apresentado, o “como” é em si mesmo um mistério insolúvel. Alguns até podem dizer que “adivinharam” a reviravolta, mas isso não quer dizer nada, já que o importante é a execução, exatamente como a execução da jornada do Dr. Malcolm Crowe em O Sexto Sentido é trabalhada. Em outras palavras, pouco importa o fim, já que é a forma como chegamos lá que realmente interessa.

E sim, os personagens de Os Oito Odiados são fascinantes se o espectador der chance a eles, cada um com um rico passado que traz à tona fortíssimas críticas sociais que podem muito facilmente ser transpostas para os dias de hoje. A rivalidade entre Norte e Sul, o papel da escravatura nessa arquitetura história, o preconceito arraigado de determinados personagens, a sana vingativa de outros. Até mesmo a violência contra a mulher ganha espaço com os abusos sofridos por Domergue pelas mãos de Ruth (alguém acha que não foi proposital a escalação de Russell em essencialmente o mesmo papel de À Prova de Morte?).

Em termos narrativos, a construção da “peça teatral” é brilhante, já que o Armazém de Minnie parece representar a civilização em meio ao oeste selvagem, sem lei. Vejam, por exemplo, a insistência de Ruth em levar Domergue viva para ser enforcada. Ele ganharia a mesma recompensa com a fugitiva viva ou morta, mas ele quer – por um fetiche, por orgulho, pouco importa – levá-la para as portas da Justiça, o que já imprime, desde o início da projeção, a imposição da lei e da ordem naquele lugar desolado. E o assunto ganha desenvolvimento uma vez que todos estão reunidos no cenário principal, e, na medida em que o mistério se aprofunda, a impressão de civilização tão bem inserida pelo roteiro de Tarantino começa novamente a ruir, a abrir espaço para a desordem, para a barbárie.

Mas não canso de reiterar que a grande estrela da obra é mesmo seu apuro técnico. E não falo apenas das referidas restrições, como também da composição dos cenários, no cuidado com primeiro, segundo e terceiro planos (observem: sempre há algo acontecendo nos “cantos”) e da mixagem e edição de som, trabalhando elementos da natureza como pano de fundo e mantendo o espectador alerta com os ruídos constantes do interior do armazém como o som de canecas de metal batendo e o farfalhar de tecidos de texturas diferentes, do trabalho de figurino que cria “uniformes” imponentes principalmente para Warren e Ruth, especialmente o primeiro com seu forro amarelo berrante e gravata vermelha, da maquiagem aplicada delicada e realisticamente nos personagens, com destaque para Domergue e seu rosto cada vez mais arrebentado e da trilha sonora sem música pop pela primeira vez, que deu o Oscar a Ennio Morricone (longe de ser sua melhor, mas o homem simplesmente tinha que ganhar um Oscar antes de ser uma premiação póstuma!) e que sabe enaltecer a claustrofobia até mesmo de espaços abertos e assim por diante. Tudo isso, em conjunto, faz o espectador se sentir cúmplice do confinamento no armazém, amigo – ou inimigo – de determinados personagens, sofrendo em antecipação por algo muito sangrento que inevitavelmente virá.

Longo, econômico em ação, mas cadenciado e esteticamente virtuoso, Os Oito Odiados é um filme quase inclassificável. Quentin Tarantino colocou-se em uma sinuca de bico cinematográfica de onde saiu triunfante com uma obra diferente, mas ao mesmo tempo familiar em relação a tudo o que veio antes em sua cinematografia. Esse faroeste confinado de mistério em tempo quase real até pode ser odiado por muita gente e não faço julgamentos aqui, mas diria que a experimentação do cineasta pode ser igualmente fascinante do começo ao fim se formos além do que costumeiramente esperamos de Tarantino.

Os Oito Odiados (The Hateful Eight, EUA – 2015)
Direção:
Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern, James Parks, Dana Gourrier, Zoë Bell, Lee Horsley, Gene Jones, Keith Jefferson, Craig Stark, Belinda Owino, Channing Tatum, Quentin Tarantino
Duração: 168 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.