Crítica | Os Olhos de Orson Welles

Orson Welles é, sem dúvida alguma, um dos artistas do século XX que transcendeu as artes em que se envolveu – teatro, rádio e cinema – tornando-se uma figura mítica e lendária, cercada de uma aura divina e ao mesmo tempo trágica. Sua adaptação teatral de MacBeth (conhecida informalmente como MacBeth Vudu) com um elenco todo negro quebrou barreiras em 1937, sua narração radiofônica de Guerra do Mundos assustou os EUA em 1938, tornando-se um dos mais icônicos momentos do rádio e seu primeiro filme, que escreveu, dirigiu, produziu e estrelou, Cidadão Kane, é consistentemente inserido nas listas dos melhores da Sétima Arte, isso quando não é o número um.

Com essas credenciais não é sem querer que Welles é uma das figuras das artes mais estudadas e esmiuçadas, com seus filmes inacabados sendo terminados e lançados décadas depois de sua morte em 1985 com intenso interesse e escrutínio de todos (vide O Outro Lado do Vento). Em Os Olhos de Orson Welles, o crítico, historiador de cinema, produtor e diretor Mark Cousins, conhecido por seu livro História do Cinema e por seu documentário épico de 15 horas A História do Cinema: Uma Odisseia, decidiu debruçar-se sobre Welles, tentando trazer um ângulo novo sobre essa figura inimitável.

Para isso, ele conseguiu acesso a diversos textos, desenhos e pinturas do próprio Orson Welles e partiu desse material para repassar a história dele com um olhar lírico de idolatria, algo que Cousins nem de longe tenta esconder. Mas é importante um aviso: apesar da excelente garimpagem de vasto material de Welles desde tenra idade, além de uso de trechos de seus filmes, entrevistas e também de alguns momentos icônicos no teatro, Os Olhos de Orson Welles não é a melhor fonte para que um espetador interessado nos detalhes da vida do prolífico artista procure.

Ao contrário até, Cousins oferece sua interpretação pessoal sobre a visão de Welles e trabalha o documentário de maneira apenas perfunctoriamente linear, já que ele não se faz de rogado e estabelece um vai-e-vem entre décadas que pode desnortear os não iniciados no trabalho do biografado. Além disso, sua paixão por Welles e seu conhecimento profundo sobre o Cinema por vezes traz conclusões herméticas ou até “viajantes” que podem afastar os que não conseguirem mergulhar na proposta.

Além disso, a narração de Cousins é irritante. Não o texto veja bem, já que ele narra de maneira peculiar, como se fosse um carta dele para Welles lida em voz alta, o que só amplifica a sensação de idolatria irrestrita e que, para ficar bem claro, não é de forma alguma um ponto negativo aqui. Mas sua voz, com forte sotaque irlandês do norte, absolutamente é e ele deveria ter percebido isso. Mesmo querendo pessoalizar ao máximo o documentário, teria sido muito mais propício que algum narrador tivesse sido trazido para seu projeto, o que potencialmente emprestaria mais pompa e circunstância ao resultado final.

Mesmo com alguns senões, porém, Os Olhos de Orson Welles é um documentário muito prazeroso e rico que tenta entrar na cabeça, na psiquê de Welles a partir principalmente de seus desenhos, alguns belíssimos e dignos de uma exposição em galeria. Cousins transporta a visão de rostos e de perfis antes mesmo de Welles começar sua carreira nas artes e fazendo correlações do mais alto gabarito com suas obras futuras e isso enquanto nos faz passear pelos lugares que o jovem futuro diretor visitou antes de voltar de vez aos EUA. Com isso, o documentário nos leva para a Irlanda inicialmente, depois Marrocos, Espanha e França, traçando uma jornada pela mente em formação desse monstro das artes que sempre teve enorme dificuldade – por fatores endógenos assim como exógenos – em efetivamente deslanchar sua carreira cinematográfica, o que me faz pensar aqui com meus botões como seriam as criações dele com o apoio total da indústria cinematográfica.

Cousins continua sua viagem pelas grandes produções de Welles e também por seus grandes amores, suas esposas, amantes e amigos, tentando mostrar o quão importante elas foram para sua formação e, de certa forma, para seu fim também. Mas o diretor evita entrar em grandes polêmicas e glosa muita coisa da vida de Welles justamente porque seu objetivo é olhar para a arte dele a partir de seus desenhos e escritos e não contar uma história cronológica do homem que um dia viria a fazer a voz de Unicron em um desenho dos Transformers, talvez um dos momentos mais vergonhosos da História do Cinema (não a animação em si, mas sim que alguém do porte de Welles tenha que ter aceitado o papel).

Os Olhos de Orson Welles não deve de forma alguma ser a primeira fonte de pesquisa de alguém sobre Welles, mas essa verdadeira ode a uma das mais importantes figuras do Cinema é imperdível e hipnotizante para quem estiver preparado para ela e, claro, souber abstrair a narração cansativa de Cousins. Orson Welles merece toda essa atenção, não tenham dúvida.

Os Olhos de Orson Welles (The Eyes of Orson Welles, Reino Unido – 2018)
Direção: Mark Cousins
Roteiro: Mark Cousins
Com: Mark Cousins, Beatrice Welles, Orson Welles
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.