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Crítica | Os Olhos do Dragão, de Stephen King

por Rafael Lima
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Os Olhos do Dragão, publicado pela primeira vez em 1984, é uma obra bastante peculiar dentro da bibliografia de Stephen King. O romance nasceu de uma reclamação da filha do autor que, quando criança, não gostava da literatura de terror do pai, pedindo que ele produzisse algo que fosse próprio para crianças. Daí surgiu a ideia de escrever um livro fortemente calcado na fantasia clássica infantil, e é isso que o autor entrega aqui, manipulando bem alguns dos clichês do gênero, e outros nem tanto.

A primeira frase do livro é “Era Uma Vez”, marcando fortemente o estilo de conto de fadas adotado pela trama, com direito a príncipe, dragão e mago malvado. A história se passa no reino de Delain, onde vive o Rei Rolando com seus filhos Pedro e Tomás. O Rei Rolando tem como conselheiro o misterioso Mago Flagg, que constantemente manipula o Rei para atingir seus próprios objetivos. Mas com o corajoso e esperto Príncipe Pedro cada vez mais perto de assumir o trono, Flagg começa a temer por seu lugar na corte, e passa a tomar providencias para que quem fique com a coroa de Delain seja o manipulável e ciumento príncipe Tomás.

Como dito no começo deste texto, Os Olhos do Dragão é um verdadeiro conto de fadas, possuindo uma inocência tanto em sua prosa quanto em sua narrativa que pode causar estranhamento para quem está acostumado a outras obras do autor. King até que não se sai mal neste terreno novo, criando uma história interessante e de leitura rápida, que vai de um ponto a outro do enredo com uma objetividade admirável.

Ao mesmo tempo, essa agilidade da narrativa não prejudica a construção de mundo do Reino de Delain, que surge verdejante e próspero, um ambiente bem estabelecido que contrasta com a segunda metade da trama, num cenário mais sombrio. E se o autor não abre mão completamente se suas raízes de terror — vide a cena em que um personagem é envenenado –, tais passagens são lúdicas o suficiente para não chocar as crianças, ao mesmo tempo em que carregam um subtexto sombrio para ser captado por leitores mais maduros. Mas apesar de muitos acertos, o romance traz algumas características que podem irritar.

Maniqueísmo não é necessariamente um defeito, e tendo em vista o gênero que o livro se dispôs a trabalhar, ele é até desejado. Mas o autor claramente acaba pesando a mão. Pedro, o nosso protagonista, é insuportavelmente bondoso, nobre, corajoso e por aí vai. Seu irmão Tomás é insuportavelmente burro, desajeitado, fraco e por aí vai. Quase todos os personagens têm este defeito de ser unidimensionais demais, o que só vira qualidade no caso do vilão, o Mago Flagg, que passa ao leitor a sensação de um personagem bem ameaçador, que atua como a verdadeira personificação do mal. Claro, King consegue trabalhar este personagem dentro de uma ótica maniqueísta não só por estar mais do que acostumado a escrevê-lo (é um vilão recorrente, que já havia aparecido em A Dança Da Morte e na série A Torre Negra), mas porque honestamente vilões são muito mais fáceis de escrever dentro desta dinâmica maniqueísta ao extremo do que heróis.

Outro problema é aquele velho calcanhar de Aquiles de Stephen King que ele raramente consegue superar: o clímax da obra. Fiquei com a sensação de que King se estendeu demais na preparação para o desfecho e, na hora do clímax, as coisas se resolvem com uma facilidade excessiva. Apesar dos pesares, como a dificuldade em tornar os personagens interessantes dentro do estilo maniqueísta que era exigido pela história, Os Olhos do Dragão não é um livro ruim. É uma leitura rápida, divertida e pueril, em um exercício saudável do autor de flexionar tanto o seu estilo narrativo quanto o seu estilo de prosa.

Os Olhos do Dragão – The Eyes of The Dragon – Estados Unidos, 1984
Autor: Stephen King
Editora Original: Viking Press
Editora Brasileira: Editora Objetiva
Tradução: João Guilherme Linke
216 Páginas

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