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Crítica | Os Olhos Sem Rosto

por Rafael Lima
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A máscara é um dos signos mais frequentes dos filmes de terror. Em muitas obras, a máscara é usada para inspirar o medo naqueles que a veem, mas em Os Olhos Sem Rosto, de Georges Franju, ninguém teme tanto a máscara quanto a pessoa que a usa. Neste belo filme que marcou a retomada do gênero no cinema francês, Franju nos apresenta uma sombria história de obsessão pela perfeição, e fala sobre a tragédia que essa obsessão pode trazer. Na trama, a jovem Christiane (Edith Scoob) tem o rosto horrivelmente desfigurado após um acidente de carro. O pai da moça, o Dr. Genéssier (Pierre Brasseur), um famoso cirurgião, forja a morte da filha e, com a ajuda de sua leal governanta Louise (Alida Valli) dá início á um plano macabro para reconstituir o rosto de Christiane. O médico passa a sequestrar jovens garotas de Paris para roubar-lhes a pele do rosto e executar um transplante experimental em sua filha.

Escrito por cinco roteiristas (entre eles o próprio diretor e Jean Redon, autor do livro que originou o roteiro), Os Olhos Sem Rosto foca na dinâmica entre Christiane, o Dr. Genéssier e Louise, e como os três lidam com os crimes que estão sendo cometidos para restaurar a face da garota. A obsessão de Genéssier é o que move o principal conflito do filme, e é interessante observar como o roteiro mantém ambíguas as principais motivações do médico para fazer o que está fazendo. Ele está agindo em nome do amor pela filha? É culpa por ter provocado o acidente que a desfigurou ou simplesmente está vendo a chance perfeita de testar suas teorias? O filme nunca nos dá essa resposta, e essa ambiguidade do personagem (apoiada pela atuação estoica de Pierre Brasseur) mexe não só com o público, mas também com a protagonista.

O roteiro constrói Christiane como alguém que é tão prisioneira do pai quanto as garotas que ele sequestra, o que é simbolizado pela relação próxima que ela tem com os animais presos que Genéssier utiliza como cobaias dos experimentos. Ainda que seja construída como a mais relutante do trio envolvido nos assassinatos, o medo de ser vista como um monstro e o desejo de ter uma vida normal ao lado do noivo Jacques (François Guérin) acabam falando mais alto. Entretanto, mesmo quando o experimento de Genéssier parece dar certo e Christiane ganha um novo rosto, a garota não está contente, pois o rosto que a mira no espelho não é o dela, e ela sequer pode sorrir de forma natural. Seja vestindo a sua máscara branca, ou um rosto transplantado, a moça se sente como um fantasma. O arco dramático construído para a protagonista marca o grande tema do filme que é o questionamento sobre o valor da beleza se ela não tiver uma alma.

Fechando o trio principal, a personagem de Alida Valli é escrita como uma devotada á família Genéssier, já que o médico restaurou o seu rosto ferido (ainda que ele não estivesse tão danificado quanto o de Christiane). Mesmo que surja como a figura predatória que atrai as garotas para a mesa de cirurgia, Louise não é incólume aos crimes que comete, e diferente do patrão, ela realmente demonstra preocupações sinceras com o bem-estar da protagonista. Ainda há uma subtrama envolvendo a investigação da polícia sobre as moças desaparecidas, mas que só serve como um dos poucos alívios cômicos do filme, principalmente devido a participação de Paulette (Béatrice Altariba), uma ladra atrapalhada que é usada como isca pelos detetives do caso.

Mas sem a direção de George Franju, Os Olhos Sem Rosto seria um filme completamente diferente. O diretor dá à obra uma aura poética ao filmar Christiane quase como um ser etéreo enquanto ela anda pelo casarão do pai com o seu vestido esvoaçante e sua máscara branca. A mise-en-scène marca os movimentos da personagem de forma extremamente delicada, e a aura fantasmagórica em torno da personagem, reforçada pela máscara inexpressiva de Christiane, permite que vejamos apenas os expressivos olhos de Edith Scoob. Mas se o longa carrega esse lirismo, as cenas mais gráficas e de maior horror são conduzidas com grande crueza e distanciamento. O maior exemplo é a cena em que Louise e o Dr. Genéssier realizam uma cirurgia em uma vítima sedada para literalmente lhes roubar o rosto. A cena é filmada sem trilha e com uma frieza clínica, onde a câmera trata os cortes precisos que o cirurgião faz no rosto da vítima com a mesma indiferença com que trata os desenhos que Genéssier faz na face da jovem que marcam os locais onde os cortes serão feitos. Recurso semelhante é usado no momento em que Christiane tira a sua máscara para uma das prisioneiras do pai, onde o rosto desfigurado da jovem é levemente desfocado, pois não é o choque da visão do rosto que o cineasta busca aqui, e sim o impacto emocional que os gritos da prisioneira tem sobre Christiane, que lentamente recua de volta à sombra.

Outro grande destaque do filme é a trilha sonora composta por Maurice Jarre. O tema principal, que geralmente acompanha Christiane, é extremamente belo e melancólico, retratando perfeitamente a solidão do personagem e o caráter de conto de fadas macabro da narrativa. Já o tema de Louise, uma valsa circense que sempre toca quando a governanta está espreitando uma vítima, cria um bem-vindo estranhamento justamente por não parecer se comunicar com o perigo que as personagens correm. A direção de arte também é um primor, e também bastante econômica na forma como retrata os diferentes ambientes do casarão do Dr. Genéssier, onde se passa a maior parte da trama, ao conseguir transmitir nos cenários a natureza obsessiva do seu dono.

Os Olhos Sem Rosto é um marco do cinema de terror francês, tendo ao longo dos anos se tornado inspiração para diversos diretores, como Jesus Franco, John Carpenter e Pedro Almodóvar. Georges Franju entrega um obra bela, poética e ao mesmo tempo desapaixonadamente violenta, para os padrões da época, a fim de nos contar uma história de obsessão por perfeição e beleza; questionando se tal beleza possui valor se não houver uma alma. Vale a pena conhecer essa obra onde o que mais nos perturba não é um rosto deformado ou uma cirurgia sangrenta, e sim a tristeza e o desamparo nos olhos de sua protagonista mascarada.

Os Olhos Sem Rosto (Les Yeux Sans Visage) – França, 1960
Direção: Georges Franju
Roteiro: Georges Franju, Jean Redon, Pierre Boileau, Thomas Narcejac, Claude Sautet (Baseado em romance de Jean Redon)
Elenco: Pierre Brasseur, Alida Valli, Edith Scoob, Juliette Mayniel, François Guérin, Alexandre Rignault, Béatrice Altariba, René Génin
Duração: 88 min.

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