Crítica | Os Órfãos (2020)

Na dinâmica de produção ocidental, quando uma narrativa é construída, as ideias precisam estar bem amarradas, explicadas até o desfecho, tendo em vista expor ao público as motivações para o desempenho dos personagens diante de suas ações. Os orientais são mais flexíveis, gostam de brincar com o excesso de subjetividade, indo ao extremo oposto das propostas que ocorrem do “lado de cá”. Isso não significa que todos os filmes ocidentais sejam óbvios demais, pois há casos que deixam espaço para interpretações múltiplas, ou finais que, ao flertar com a dubiedade, saem das padronizações comuns ao cinema comercial, necessariamente palatável para que haja o consumo. Essa era a proposta da cineasta italiana Floria Sigismondi para Os Órfãos. Não deu certo. A culpa, por sua vez, não é da polêmica escolha de seu desfecho que foge do convencional, mas das estratégias narrativas ao longo do processo de evolução dramática. São incongruências tão fortes que até no ato da escrita desta reflexão, não consegui manter alguma linearidade para traçar os pontos críticos que considero relevantes diante da experiência.

Mais recente tradução intersemiótica de A Volta do Parafuso, clássico gótico de Henry James, publicado em 1898, os realizadores flertaram com as possibilidades do final aberto, o que pode ser pensado como algo positivo, frescor para o excesso de didatismo do cinema contemporâneo, mas por conta de sua condução imprecisa da metade para o terceiro e último ato, acaba por se perder, tal como a protagonista, envolta numa redoma de mistérios, corredores com iluminação parca, aparições estranhas, etc. Antes de excursionar pelos problemas da narrativa, mas antes disso, creio que seja relevante tecer algumas considerações sobre o ponto de partida, isto é, o texto literário de James, alvo de polêmicas desde sempre na história da crítica literária do século XX, material transformado em roteiro pela dupla formada por Chad Hayes e Carey Hayes. As discussões psicológicas podem render um bom debate, mas infelizmente, do ponto de vista artístico, o filme é um punhado de imagens esplendorosas, criadas em meio ao texto estéril.

No enredo, um narrador não identificado acompanha o seu amigo a ler o manuscrito de uma governanta e sua falecida amiga, ambas funcionárias de uma antiga e macabra mansão. No desenvolvimento da história, o leitor fica entre a presença sobrenatural e as alucinações dos personagens que protagonizam os acontecimentos, com fantasmas que podem ser interpretados como extensões macabras de nossa realidade cotidiana, ou seja, alegorias para os medos e perturbações internas de alguém que transforma a sua existência numa assombrosa sequência de fatos aterrorizantes. Debatido largamente por especialistas, o final aberto da história nunca teve uma interpretação fechada, sendo assim, essa proposta diante de tal enredo não é exclusividade dos realizadores de Os Órfãos, mas parte do conteúdo antes mesmo de ser transformado em narrativa da era da reprodutibilidade técnica.

No filme, enfático diante de suas referências góticas, com edificações antigas, envoltas numa bruma misteriosa, a protagonista Kate (Mackenzie Davis) circula, tendo em vista cumprir a sua função de professora. Ela será a mentora de Flora (Brooklyn Price), uma menina aparentemente doce, mas construída de maneira ambivalente, o que nos deixa diante da dúvida sobre ser um anjo ou demônio. Miles (Finn Wolfhard), por sua vez, é o garoto problemático, expulso da escola por agredir um colega. Será assim que se tornará mais presente dentro de casa. Enquanto ele é hostil, agressivo com animais, em especial, ao pisar num peixe ou esmagar uma aranha com as mãos, a sua irmã é sempre sorridente e gentil. Com o avanço da narrativa, desconfiados por causa dos sons e imagens estranhos que circulam pelos espaços, a protagonista e nós, espectadores, não sabemos exatamente o que é real ou imaginário, o que é assombração ou pesadelo, quem de fato tem está bem ou tomado por más intenções. Até a primeira hora tudo isso é empolgante. O problema é que a atmosfera de pesadelo logo começa a ficar tediosa, com os personagens viciados dentro do eixo circulatório da narrativa que não avança, mantendo-se dentro da equação suspense + susto + aparição sobrenatural = pesadelo ou situação macabra real. O que a história entrega é que algo de muito estranho ocorreu com a professora anterior, detalhes entregues de maneira parcial pela Sra. Grose (Barbara Marten).

A direção de fotografia assinada por David Ungaro é bastante colaborativa, em especial na iluminação dos ambientes e movimentação da câmera, o que nos permite uma identificação com a protagonista ao adentrar numa zona tão incomum ao seu cotidiano. No entanto, a estética não é suficiente quando o texto falha. Tudo bem que a obra que serve como ponto de partida traz o vocábulo “volta” no seu título, mas em Os Órfãos, a circularidade depois dos 50 primeiros minutos de filme torna o seu desenvolvimento prejudicial, algo que torna ainda mais inaceitável o desfecho que não podemos chamar de aberto, mas escancarado. Uma opção, que por sinal, não sabemos se faz parte de uma ousada e autêntica vontade de sair do lugar comum ou a busca dos realizadores por polêmica. Tudo bem que as noites praticamente sem dormir tornaram os dias da protagonista mais difíceis, o algo que justifica o seu mergulho no tecido alucinatório costurado ao longo dos 100 minutos de filme, mas ainda assim, não é suficiente para justificar a falta de ação no segundo ato, talvez o mais prejudicado de todos, principalmente pelo excesso de aparições dos fantasmas (ou alucinações) diante de Kate, imagens promovidas pelo bom trabalho de Brenda Taylor enquanto supervisor dos efeitos visuais da produção, recurso que por sua vez, não é suficiente, como dito no começo do parágrafo, haja vista as demandas dramáticas concebidas de maneira inadequada.

Inicialmente temos uma exposição de fatos que estabelece bem a intrigante estadia na Mansão da família Fairchild. Há pouco jumpscare, a trilha sonora de Nathan Pollock promove a imersão, elementos que possibilitam a imersão. O design de produção de Paki Smith é apurado, geralmente um recurso obrigatório em narrativas com toques góticos. Os clichês estão lá: a ala sombria que não deve ser acessada, as bonecas com representatividade dúbia, tal como os manequins de uma sala de costura, assustadores, parte da direção de arte de Nigel Pollock, responsável por preencher os espaços da cenografia de Justine Wright. São repetições comuns aos filmes situados em casas assombradas que não incomodam, ao contrário, permitem a identificação diante do vasto imaginário das habitações amaldiçoadas por presenças nefastas. O que torna as coisas problemáticas é a maneira como a direção conduz tais clichês, materiais subaproveitados na condução da história que parece enrolar tanto que em seu desfecho, basicamente não nos importamos mais com o que vai acontecer. Sobre o uso de jumpscare, cabe ressaltar, é comedido na primeira parte e torna-se excessivo do meio para o final, a ponto de se tornar cansativo.

Escolhida como tema da segunda temporada da série A Maldição da Residência Hill, focada em Shirley Jackson em seu primeiro ano, a história de Henry James continua sendo de interesse da indústria cultural, pois oferta aos espectadores, muitas possibilidades de entretenimento. Se as novas versões continuarem dentro deste esquema de final aberto, é bem possível que agrade em partes, o público consumidor, mas irrite a nossa crítica preguiçosa, interessada em filmes que explicam demasiadamente o seu conteúdo ou tente, mesmo que erroneamente, conseguir ser o “furo” ao analisar e amarrar o desfecho da história que a própria diretora tentou, ao longo da divulgação, explicitar que é ambivalente, bastante aberto, tendo em vista provocar os espectadores, convidando-lhes para um “banquete” de interpretações próprias, oriundas da espectatorialidade mais ativa. A indignação diante de nosso campo de reflexão veio quando buscava um horário ideal para assistir ao filme. Antes mesmo da aparição das sessões disponíveis, uma série de textos agregados no Google são apresentados. Com títulos de qualidade duvidosa, oriundos do jornalismo cultural sensacionalista, boa parte das críticas de Os Órfãos focavam na explicação do final, ou em dizer, de maneira taxativa, que a narrativa é a pior produção de terror de todos os tempos. Curioso que em um deles, a pessoa diz não ser especialista em terror. Então, como dizer taxar assim de maneira tão irresponsável? Sinal dos tempos, uma era de horror que não acomete apenas o interior das produções, mas que se desdobra em nossa realidade, talvez até mais horripilante.

Os Órfãos (The Turning, EUA – 2020)
Direção: Floria Sigismondi
Roteiro: Carey W. Hayes, Chad Hayes, Henry James
Elenco: Barbara Marten, Brooklynn Prince, Denna Thomsen, Finn Wolfhard, Mackenzie Davis, Mark Huberman, Niall Greig Fulton
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.