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Crítica | Os Pássaros (1963)

por Luiz Santiago
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Se a gente olhar para os 5 filmes que Alfred Hitchcock dirigiu depois de Os Pássaros (1963), fica muito fácil entender por que esta sua livre adaptação do conto de Daphne Du Maurier é considerada a “última grande obra” do Mestre. Não acho que nenhum desses filmes seguintes sejam ruins, mas certamente não tiveram o impacto sobre o público que diversas outras produções do diretor tiveram, sendo Os Pássaros esse último grande momento de um filme do Mestre do Suspense como símbolo, como referência, como algo que chamasse atenção além do normal. E nesse caso específico, não é para menos.

Com roteiro de Eva HunterThe Birds conta uma pequena e uma grande história. A pequena é a relação amorosa entre a protagonista Melanie Daniels (Tippi Hedren) e o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor), relação que abrirá as portas para um triângulo e desembocará numa leitura edípica também, reforçando uma das muitas interpretações que as pessoas fazem deste filme através do viés psicanalítico. Já a grande história é aquela que dá identidade ao filme e que traz o principal mistério da fita, perfeitamente ocultado pelo diretor: a partir de um determinado momento, sem explicações, os pássaros começam a atacar as pessoas em Bodega Bay. A quantidade de aves mais a violência dos ataques deixam os habitantes locais paralisados, incrédulos. Até que chega o momento em que precisam lutar por suas vidas.

Uma das formas de olhar para a obra é pela sua “desconexão” diante a filmografia de Hitchcock, e não levanto isso como um ponto negativo. Temos aqui um terror ligado à natureza que dá à obra um véu exploitation, especialmente porque não existe uma forma de explicar, combater ou afirmar que o problema estava para acabar. O final aberto dá o tom de desesperança essencial para a fita, e o diretor fez muito bem em deixar o filme exatamente nesse ponto, com o carro andando lentamente pela estrada, “mergulhado num mar de pássaros“. Antes desse tipo de temática de animais descontrolados e vilões (a natureza voltando-se contra o homem, por algum motivo) ganhar um de seus maiores ícones — notem que eu estou excluindo Godzilla aqui por motivo óbvios — e virar febre de produção, Hitchcock dava a esse tipo de temática uma chocante abordagem. Mesmo não sendo pioneiro no tratamento do tema — filmes com animais-vilões/natureza-vilã, posteriormente apelidados de eco-terror, são bem antigos –, certamente foi um dos mais inesquecíveis, inclusive fazendo escola.

Apesar de trabalhar bem com os efeitos que tinha na época, o filme demonstra claramente a idade que tem. Isso não tira da obra, contudo, o impacto do ataque dos pássaros (minha cena favorita é a do ataque às crianças saindo da escola. E toda a preparação para esta cena é sensacional) ou o terror que eles vão progressivamente nos causando. Sem pressa, o diretor nos faz conhecer a personalidade de Melanie e, em torno de sua paixão repentina, adiciona uma boa dose de humor, sentimento que vai minando à medida que os pássaros mudam o seu comportamento e também muda o nosso olhar para eles, indo das belas aves no início da obra às medonhas máquinas de matar, no final. A cena do caos em que mergulham a cidade e o grande plano que temos desses animais na última cena é algo verdadeiramente assustador e se torna ainda mais impactante porque é difícil aceitar um ataque e até um comportamento agressivo/assassino desses animais no dia a dia (sim, os magpies são famosos por atacar humanos, mas é algo bem diferente do que temos no filme). E é jogando com esse combo de imprevisibilidades que o cineasta consegue o seu triunfo.

O filme já ganhou todo tipo de interpretação possível, com questões simbólicas, místicas, psicanalíticas até situações políticas típicas daquele momento da Guerra Fria (os pássaros como uma invasão comunista, etc.). Mas o enredo sempre está dando conta das relações casuais, disfarçadas por uma certa beligerância e que no momento em que se tornam fortes, recebem um chamado externo: a luta pela sobrevivência, o fim das amenidades. Independente do que motivou o ataque dos pássaros — isso, a meu ver, não tem a mínima importância — o filme guia facilmente as duas esferas de transformação, interna e externa aos personagens, que se desenvolvem em contraste. Uma assustadora história de mudanças comportamentais e transformação do belo e comum em motivo de medo. E tudo por motivos inexplicáveis.

Os Pássaros (The Birds) — EUA, 1963
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Evan Hunter (baseado na obra de Daphne Du Maurier)
Elenco: Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Tippi Hedren, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, Charles McGraw, Ruth McDevitt, Lonny Chapman, Joe Mantell, Doodles Weaver, Malcolm Atterbury, John McGovern, Karl Swenson, Richard Deacon
Duração: 119 min.

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