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Crítica | Os Pequenos Vestígios

por Kevin Rick
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Os Pequenos Vestígios

Os Pequenos Vestígios é um filme estranho. Não é nem a questão dele ser decepcionante – o que ele certamente é -, mas sim a visão de uma obra com todos os elementos para criar uma película pelo menos ótima que decide se enveredar num caminho que não equilibra sua própria linguagem, entregando uma experiência meio… vaga. Têm-se o elenco célebre, um bom diretor e uma curiosa premissa dentro do gênero policial que beira a originalidade nos dias atuais. Digo isso, pois muitas pessoas certamente iniciaram o filme esperando algo narrativamente e estilisticamente próximo de Seven: Sete Pecados Capitais, mas o conceito aqui não é tanto de uma investigação que vai te puxando para o mistério e esmagando suas expectativas e morais com o crime, mas sim de propor uma obra sobre a frustração do trabalho policial.

E esse é o primeiro obstáculo do roteiro e da direção, pois se a proposta é um realismo investigativo, essa dificuldade vagarosa de encontrar pistas, sem muita empolgação e entusiasmo, a experiência provocada no espectador será, bem, frustração. Considero a obra minimamente boa por saber expor esse conceito cinematograficamente, porém, paradoxalmente, é isso que transforma o filme, falando sinceramente, chato. Querendo ou não, estamos falando de arte, audiovisual, e não digo isso no sentido de que a fita deveria fugir da pegada realista ou ter grandes descobertas e um clímax arrebatador, mas onde está o mistério, o sentimento, o interesse do filme? Chega a ser irônico como o personagem de Denzel Washington constantemente fala da importância das “pequenas coisas” em uma investigação, e é justamente no quesito de detalhes que preenchem um bom filme que a obra falha.

Falando da história em si, a narrativa acompanha Joe “Deke” Deacon (Denzel), um delegado do condado de Korn, que foi enviado a Los Angeles para uma coleta de provas, mas acaba caindo de cabeça na investigação de um serial killer que está assassinando mulheres de forma hedionda. Ele se junta ao responsável do caso, Jim Baxter (Rami Malek), para buscar o possível assassino, que eles suspeitam ser Albert Sparma (Jared Leto). Para não adentrar em spoilers, o objetivo geral da obra é o que já descrevi, de uma caçada lenta e derrotista, mas a construção do filme em torno da dupla policial é extremamente vazia. Existe uma dinâmica curiosa entre os detetives, já que a obra não foca no crime, mas no impacto dos assassinatos nos personagens. Deke parte de um passado conflituoso e uma certa culpa e interesses egoístas, enquanto Jim é o típico obsessivo com a justiça. E os atores entregam bem a química quieta e melancólica, tornando-se ainda melhor à medida que Albert vai ganhando espaço no filme. Leto brilha no papel, bastante inquietante e estranho em todas as nuances humanas, além de que sua inserção de dúvida/liberdade na investigação dos detetives cai como uma luva na frustração geral.

O problema mesmo é a construção da atmosfera em torno dos personagens até o final, que é sim anticlimático e vem sendo criticado com fervor, mas que combina bem com o teor derrotista e pessimista da película, contudo, para chegar nele a audiência é exigida de uma paciência extraordinária com a inconsistência de ritmo da narrativa. Muita da culpa cai na edição rápida que dita um péssimo tom para o roteiro lento – até demais -, e a própria duração exagerada da obra. Me senti vendo o filme passando diante de mim sem nunca verdadeiramente comprar a experiência até o estágio final, e quando ele chega, a frustração, tanto dos personagens, quanto do espectador, é tão grande que você só quer o final logo. A curiosidade pelo caso, o mistério da identidade do assassino e o próprio arco da dupla protagonista são subjugados pela falta de tensão, a falta de um cuidado da direção para criar mistério, da trilha sonora para conceber aflição e de um roteiro mais preocupado com sua mensagem moral que na concepção da experiência.

Por fim, ainda não acho Os Pequenos Vestígios de todo ruim pela maneira que tenta transpor a frustração dos personagens e o trabalho da moralidade e do limite para pegar um possível culpado, além das boas atuações, mas a fita fica aquém do potencial apresentado. Os detalhes, são eles que constroem a experiência cinematográfica, e John Lee Hancock tinha uma premissa intrigante, um bom elenco e uma boa proposta da dificuldade policial, mas falha na execução dessas ideias com a linguagem vaga e pouco imersiva do filme.

Os Pequenos Vestígios (The Little Things) – EUA, 11 de março de 2021
Diretor: John Lee Hancock
Roteiro: John Lee Hancock
Elenco: Denzel Washington, Rami Malek, Jared Leto, Chris Bauer, Michael Hyatt, Terry Kinney, Natalie Morales, Isabel Arraiza, Joris Jarsky, Glenn Morshower, Sofia Vassilieva, Jason James Richter, John Harlan Kim, Frederick Koehler, Judith Scott, Maya Kazan
Duração: 128 min.

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7 comentários

Alan 16 de março de 2021 - 00:11

Fazia tempo que não via um filme com elenco tão bom, ser tão ruim. Deve ter um pouco mais de um mês que vi o filme e já me lembro pouco dele. Só lembro a sensação de que o filme pouco funciona, que as atuações são ruins demais, só o Leto que se salva, mais porque o personagem está ali para se destacar.

Achei um desperdício total de tempo.

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pabloREM 15 de março de 2021 - 10:44

Eu assisto a quase todos os filmes do Denzel e esse realmente não vai aparecer em nenhuma lista dos mais memoráveis dele. O filme parece um carro subindo o morro de freio de mão puxado. Agora, não acompanho a carreira do cara, mas fazia muito tempo que eu não via um ator tão ruim quanto esse Rami Malek, novela mexicana com robôs é pouco para ele.

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Kevin Rick 16 de março de 2021 - 00:11

“O filme parece um carro subindo o morro de freio de mão puxado” he, he, resumiu bem minha experiência com a obra. Certamente será um filme esquecível do Denzel, que, aliás, vem sofrendo para entregar fitas memoráveis viu. Sempre liguei ele a ótimos filmes, mas se pegar os últimos 10 anos dele, tem muito feijão com arroz. Tirando Fences e O Voo (que nem são isso tudo também), para mim só sobre filmes “normais”. Não lança nada arrebatador mesmo desde O Gângster.

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Junito Hartley 15 de março de 2021 - 00:36

O andamento desse filme tava bom, mas o final pra mim estragou, que decepção, achei ruim demais.

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Kevin Rick 15 de março de 2021 - 01:50

Acho justamente o contrário. Gosto do final, pois é bem em linha com o sentimento derrotista e frustrante da obra, mas não gosto do andamento até ele. Porém, concordamos na decepção…

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Infinite 15 de março de 2021 - 00:36

Um dos piores filmes de 2021,o Denzel washington tem uma atuação parecida como em chamas da vingança só que mais contido,e os diálogos desse filme sāo muito ruins muito basicos,a atuação do malek é muito ruim tambèm,o filme é muito mal editado tambèm.

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Kevin Rick 15 de março de 2021 - 10:45

Não chego a achar tão ruim assim, mas é uma grande decepção do ano mesmo. E também odiei a edição da obra, estraga completamente o ritmo da narrativa… Uma pena viu, tinha bastante potencial para ser um filme bacana.

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