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Crítica | Os Ratos, de Dyonélio Machado

por Leonardo Campos
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Ratos são ótimas criaturas para alegorias aterrorizantes. O escritor Dyonélio Machado, associado ao movimento modernista brasileiro, sabia bem dessa possibilidade e após receber o convite de Érico Veríssimo para escrever algo e submeter a um concurso literário, concebeu o romance Os Ratos, publicado em 1935, narrativa inquietante sobre o cotidiano angustiante de um homem engolido pelas demandas da modernidade e das exigências capitalistas da vida urbana em uma metrópole. Acoplado no que a crítica literária convencionou a chamar de Segunda Fase do Modernismo, a história ganhadora do Prêmio Machado de Assis oferta ao leitor uma linguagem direta, simples, sem preocupações com muita formalidade e um tom demasiadamente objetivo em seus 28 capítulos enxutos, bastante intrínsecos entre si. A tese do autor, isto é, a sua crítica central aqui é a forma como o dinheiro se tornou a mola propulsora de mão única nas relações sociais. Ele retrata isso diante do drama de Naziazeno Barbosa, herói dessa jornada sufocante e atual. Poucas vezes os ratos funcionaram dentro de alegorias tão impactantes. Geralmente utilizado em tramas de horror físico, os roedores do romance são potencialmente/psicologicamente perigosos, representados também no corrupto Dr. Romero ou em Rocco, um agiota mau-caráter.

O tema central, como já mencionado, é o dinheiro como combustível das relações humanas dentro de uma sociedade opressora desde sempre. Em Os Ratos, Dyonélio Machado nos mostra o seu protagonista na agonia diante da possibilidade de conseguir o dinheiro emprestado para pagar a sua dívida com o fornecedor de leite, credor que já fechou as portas para o personagem e alegou que não será mais entregue o combinado até que o seu débito seja saldado. Os roedores, símbolo da agonia e do consumo que rege tudo em seu entorno, alegorizam também a constante falta de solidariedade, sentimento desvalorizado numa sociedade que tem o dinheiro como meta principal. Ao deixar a quantia na mesa da cozinha para o leiteiro, Naziazeno Barbosa sofre com a visão em pesadelos constantes, isto é, a visão no espaço onírico dos ratos roendo o valor em cédula deixo para quitar o pagamento. Ao conseguir o que precisava para se livrar do fornecedor, ele agora precisa resolver as suas pendências com quem lhe emprestou. É uma ciranda sem fim que o leva para dentro de um espiral de angústia que pode muito bem representar a vida de quem atravessa a contemporaneidade e precisa assumir compromissos e lutar pela sobrevivência.

Ao finalizar um caos, o personagem começa outro. São dias em busca de soluções e apenas respostas que lhe negam o direito de acreditar que as coisas podem um dia mudar. O clima de angústia é reforçado por cada travessia de Naziazeno Barbosa pela cidade caótica, ora a delinear o tempo psicológico interno do personagem em estado calamitoso de ansiedade, e o tempo cronológico, da própria narrativa, a passagem das horas durante o dia que não traz nenhuma novidade acalentadora. Narrado em terceira pessoa, Os Ratos situa a sua narrativa em Porto Alegre e pode ser lida como uma história bastante realista, definidora da existência de muitos cidadãos brasileiros emergidos na cultura do consumo global, repleta de exigências, modelos e padronizações que não estão disponíveis para o acesso de todos. Quase cem anos depois, o romance de Dyonélio Machado nos oferta uma interpretação bastante urgente da vida atual, material textual que é interessante por ultrapassar a linha da crítica social e conseguir ser também um ótimo exercício da linguagem literária.

Desde o perfil do protagonista, um homem que se sente inútil, parco em seus recursos, ansioso e desesperado, convincente em sua trajetória cotidiana, aos processos de construção da narrativa que investe em alegorias, especialmente com o tempo, algo que parece urgir e apertar ainda mais a mente de Naziazeno Barbosa. No relógio que não faz mais parte de sua indumentária, pois está penhora, ao tempo do bonde que passa e indica o desenvolvimento do tempo dentro do dia que corre veloz. É assim que Dyonélio Machado tece os fios da sufocante existência de um homem fadado ao fracasso desde as primeiras linhas do romance que também é interessante em sua alternância entre passado e presente, boas lembranças e atualidade atroz que embaça qualquer vestígio de felicidade que tenha pincelado as cores do dia no passado. Herói da decadência, Naziazeno é um homem perdido numa cidade regida pela lógica do dinheiro. Espaço geográfico construído em torno do individualismo e da necessidade de adoção de estratégias de sobrevivência muitas vezes hostis, o espaço de circulação dos personagens em Os Ratos é a representação cabal do caos psicológico. Em suma, um romance instigante e muito atualizado.

Os Ratos (Brasil, 1935)
Autor: Dyonélio Machado
Editora: Planeta
Páginas: 107

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