Depois de uma prévia bastante elogiada no Free Comic Book Day de 2023, a Image lançou, com bastante segurança, o novo projeto de Rick Remender e Max Fiumara, intitulado Os Sacrificadores. Remender, que desde 2017 administra o selo Giant Generator dentro da Image para explorar criações autorais como Black Science, Deadly Class e Low, encontrou em Fiumara um desenhista capaz de materializar o universo de Harlos. Neste planeta, cinco famílias divinas governam uma sociedade onde a paz depende de um sacrifício: a cada 20 anos, famílias subordinadas entregam uma criança para a Colheita. Neste primeiro volume, que compila as seis edições iniciais do projeto, apresentando Pigeon, jovem aviano confinado ao celeiro familiar enquanto aguarda ser levado pelos emissários, e Soluna, filha dos deuses Sol e Lua, que habita os palácios celestiais e não entende o sistema que a privilegia. Dave McCaig completa a equipe trazendo cores maravilhosas que demarcam bem as classes sociais: tons sépia e cinzas para ambientes rurais de Pigeon, azuis noturnos e laranjas, amarelos e vermelhos intensos para salões onde Rokos e Luna vivem e celebram.
Referências ao conto Aqueles Que Se Afastam de Omelas (1973), de Ursula Le Guin, que questiona se a felicidade coletiva justifica o sofrimento de inocentes, são percebidas na base do roteiro. Remender transforma o sacrifício num ciclo industrial que atravessa gerações, e a grande revelação chega nas edições finais do arco, com a explicação sobre o que mantém, de fato, a juventude de todos esses deuses. E não é algo bonito. Pigeon descobre a verdade ao ser levado aos palácios, testemunhando o que deveria consumi-lo. Soluna, espionando os bastidores do Grande Baile oferecido pelo pai, finalmente compreende o que sustenta o seu estilo de vida. Remender estrutura a narrativa em progressão cuidadosa, mas ágil, mostrando particularidades dos personagens, a natureza real da Colheita, e permitindo que o horror final ganhe ainda mais peso. Visualmente, os deuses são distintos dos mortais, construídos com substâncias impossíveis. Rokos personifica fogo vivo, corpo como conflagração permanente. Luna se multiplica em fases distintas, com seu pó lunar. Outros deuses encarnam Água, Musgo, Rocha, Lama e elementos naturais como forças biológicas tangíveis. Essas escolhas de fantasia, mitologia e fábula distópica exploram questões que já vimos separadamente, em diversas mídias, mas raramente juntas.

Fiquei muito empolgado com o desenho inventivo de Fiumara, trabalhando o espaço e os habitantes de Harlos com extrema inventividade. A vida local mescla características de aves, répteis e mamíferos, com criaturas antropomórficas e biologicamente plausíveis (diferente dos deuses, como já expus), apesar de fantásticas. Já McCaig faz uso amplo de contrastes cromáticos, tornando muito mais potente a atmosfera da obra, especialmente quando temos poderes, lutas e violência em evidência. A força bruta, aqui, é tratada de maneira pontual, sempre aparecendo quando o evento é realmente chocante. Mesmo assim, os artistas não se deixam levar pelo apelativo. Um exemplo disso é a cena onde o pai de Pigeon o espanca. Fiumara mostra apenas uma parte do processo, dando mais atenção ao “antes e depois“, forçando o leitor a completar mentalmente todo o ato. Já na segunda parte do arco, quando as máquinas do “Paraíso” transformam as boas emoções das crianças em elixir, vemos que os desenhos alternam o horror da situação com a limpeza asséptica dos laboratórios farmacêuticos e campos de extermínio, criando um paralelo com sistemas reais de exploração industrial de corpos.
Os Sacrificadores propõe uma discussão muito interessante sobre os custos ocultos da prosperidade concentrada, perguntando quem paga pela juventude eterna, pelo luxo e pela perfeição de um lugar, uma família ou um grupo de pessoas. Remender e Fiumara deixam claro que a destruição desordenada do sistema divino não significa libertação automática para todos, apenas substitui uma forma de violência por outra ainda não compreendida, colocando na série uma dinâmica política e histórica que nós conhecemos muito bem. Essa ambiguidade moral separa a obra daquelas distopias simplistas, honrando a complexidade das negociações políticas e sociais reais. A gente chega ao fim da história e fica empolgado para conferir a continuação. Um projeto e tanto, cujas poucas falhas de estrutura não impedem de estar entre as mais interessantes de sua safra.
Os Sacrificadores – Vol.1 (The Sacrificers) — EUA, 2023
Roteiro: Rick Remender
Arte: Max Fiumara
Cores: Dave McCaig
188 páginas
