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Crítica | Os Sapatinhos Vermelhos (1948)

por Guilherme Almeida
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Começou a dançar, mas, quando queria ir para a direita, os sapatos a puxavam para a esquerda, e, quando quis subir ao salão, os sapatos a levaram para fora, desceram a escada, atravessaram a rua e saíram pelo portal da cidade. Ela dançava, não podia mais parar. E, dançando sempre, foi levada pelos sapatos até a sombria floresta.

Hans Christian Andersen
.

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Olavo Bilac

Michael Powell e Emeric Pressburger foram, durante os anos 40 e 50, a dupla de ouro do cinema britânico. Autointitulavam-se “Arqueiros” por causa da companhia sob sua direção, a Archers Film Productions, responsável pela realização de uma série de ótimos filmes, como Coronel Blimp – Vida e Morte e Narciso Negro, além do especialmente famoso Os Sapatinhos Vermelhos (1948), indicado em cinco categorias no Oscar e vencedor das estatuetas de melhor trilha sonora e melhor direção de arte.

O filme se baseia em texto literário original de mesmo nome, escrito por Hans Christian Andersen, autor dinamarquês conhecido por seus contos de fada. No caso de Andersen, todo o drama gira em torno da culpabilização da cobiça, da substituição pecaminosa da fé pelo desejo de fama. O conto tem como pano de fundo uma moralidade cristã, de maneira que os tons rubros dos sapatinhos remetem inequivocamente ao universo simbólico da maçã, efígie da contravenção, fruto que desde de a Idade Média se confundiu com o fruto proibido do Jardim do Éden. A lição que se depreende da história consiste em que a conexão espiritual com Deus deve sempre se sobrepor aos prazeres e intentos mundanos, a reza dedicada vale muito mais do que qualquer bem material, mesmo se ele for um sapatinho que reluz com beleza e brilho incomparáveis.

Pode-se dizer que a relação do filme com o conto existe apenas como pretexto. Não se trata mais de uma obra de cunho didático-moralizante, com cariz cristão, mas de um filme que aproveita um aspecto da trama de Andersen (o fato de os sapatinhos escravizarem sua vítima numa dança eterna) ao mesmo tempo que a transpõe para o mundo do ballet. Apresentam-se grandes espetáculos, amparados por um know-how russo e por vultuosos montantes de investimento, conjunção capaz de criar apresentações com apuro formal, coreografias perfeitas e orquestras retumbantes.

A história começa quando Victoria Page (Moira Shearer) e Julian Craster (Marius Goring) são aceitos, quase no mesmo momento, na companhia de ballet liderada Lermontov (Anton Walbrook), esteta obsessivamente dedicado à dança. Victoria sonha ser a melhor bailarina do mundo, e a grandiosidade do desejo é desde logo indicada pelas conotações triunfais de seu próprio nome; já Julian Craster é um talentoso compositor musical, conseguindo tomar para si a responsabilidade de criar a trilha que acompanhará o mais novo espetáculo sob o comando de Lermontov, “Os Sapatinhos Vermelhos”.

Walbrook vai criando um vilão fascinante, obcecado pelo controle total de suas bailarinas, de modo a anular nelas qualquer desejo extrínseco à Arte. Quando uma das dançarinas se casa, um irado Lermontov não se dá nem ao trabalho de parabenizá-la, virando-lhe as costas como que atingido por uma traição inaceitável. Sua personalidade manipuladora tende a transformar todos em títeres a sua disposição, numa tentativa de esvaziamento do livre-arbítrio alheio em nome dos intentos pessoais deste pequeno ditador que alça a perfeição da coreografia a verdadeira profissão de fé.

Não foram poucas as vezes em que o cinema retratou a ligação de personagens enlouquecidos com uma ou outra atividade. Para tomar exemplos mais próximos, quem não se lembra do ritmo frenético de Whiplash e seu protagonista em busca da performance impecável? Ou de Trama Fantasma, onde vemos o sempre competente D. D. Lewis na pele de uma famosa figura da alta-costura, absorvido de corpo e alma na produção de opulentas indumentárias para a elite europeia? Essas obras levam a determinação de personagens principais às últimas consequências, questionando até que ponto e em que medida é permissível a persecução irrefreada de um objetivo artístico.

Outra realização trava com Os Sapatinhos Vermelhos uma relação profunda, em aspectos tanto temáticos quanto estruturais. Em Cisne Negro (2010) o ponto de foco é também o ballet, porém as semelhanças não param por aí: em ambos os casos o drama representado pela dança se espelha no drama vivido pelas protagonistas na parcela não artística de suas vidas. Para ficarmos apenas no filme de 1948, pode-se constatar que o dilema pessoal de Victoria é polarizado entre a permanência no mundo da arte (e a consequente escolha por uma assepsia amorosa) ou a aposta na paixão por Craster (e o decorrente abandono de cargo na equipe de Lermontov).

Aliás, quando o vilão descobre o affair entre os jovens, uma aproximação violenta da câmera torna explícito o descontentamento de sua face. Não fica de todo claro se Lermontov nutre por Victoria algum desejo mais do que artístico, mas o importante é que qualquer tensão sexual, se existente, foi sublimada e canalizada para a realização do domínio no universo sublimizado da Arte. Toda a vida do esteta russo parece ter sido estilizada, desde as vestimentas até a decoração dos ambientes, numa espécie de revivescência afetada do dandismo.

O jogo de espelhos narrativo que estrutura a obra de Powell e Pressburger fica transparente quando vem à tona a apresentação bailarina da história dos sapatinhos vermelhos. Por sinal, essa é a sequência mais famosa do filme, pois leva a cabo uma hibridização total entre as linguagens teatral e cinematográfica. Veja-se que Victoria não dança no espaço delimitado de um palco fixo, mas percorre uma sucessão de cenários ligados pela montagem; além disso, a performance é recheada de trucagens fílmicas, com cortes, fusões e projeções. Do ponto de vista do roteiro da dança, acompanhamos a morte de uma menina dominada pelo bailar incessante dos sapatos, efeito de uma maldição terrível.

SPOILERS!

As cores realçam o que está em jogo no filme. Os Sapatinhos Vermelhos é conhecido por ter feito um dos melhores usos do Technicolor, construindo composições visuais coloridas com elegância. O vermelho em seus diversos tons está sempre prefigurando e projetando a simbologia trágica dos sapatos, embora seu valor acolha outros significados, desde o amor, passando pelo desejo e pelo luxo e chegando, no limite, ao sangue que marca a morte.

Victoria vê-se encalacrada pelo poder sedutor de Lermontov (quase mefistofélico) e o amor por seu parceiro. Futuro artístico garantido versus vida familiar burguesa, terna e apaixonada. Neste que não à toa é um dos filmes preferidos de Martin Scorsese (que, inclusive, fez a supervisão da restauração da fita), a necessidade impõe a escolha entre termos incomensuráveis e irredutíveis. O espelhamento entre o fim trágico de Karen, protagonista do conto de Andersen, e o desastre pessoal de Victoria parece pôr em cena a força de um destino sádico. Acaso ou não, a atriz que faz a personagem principal, uma bailarina que teve sua estreia no cinema exatamente nesse filme, chamava-se Moira, notadamente uma entidade tripartida da mitologia grega, responsável por tecer o Fado dos indivíduos.

Apesar do tom dramático do roteiro, as peripécias vão se desenrolando com uma sutileza bailarina. A montagem se aproveita de semelhanças visuais ou sonoras para garantir fluidez e continuidade, enquanto o fade out – fade in várias vezes substitui o corte seco. Justamente premiadas, a direção de arte e a trilha sonora de Brian Easdale, conjuminadas com a inteligência do entrecho, que torna homólogas, refletidas e refratadas as várias instâncias narrativas que compõem a malha do filme (o texto de Andersen, a adaptação para o ballet, os arcos dos personagens), formam um dos grandes clássicos do cinema britânico, criminosamente esquecido pelo público. O filme acerta ao recriar com originalidade o conto de fadas dinamarquês, acrescentando a dura lição de que, às vezes, acossados por decisões impossíveis, os indivíduos são obrigados a escolher a abstenção radical, o fechar de olhos eterno.

Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes)- Inglaterra, 1948
Direção: Michael Powell e Emeric Pressburger
Roteiro: Hans Christian Andersen (conto), Michael Powell, Emeric Pressburger e Keith Winter (diálogos adicionais)
Elenco: Moira Shearer, Marius Goring, Anton Walbrook, Ludmilla Tchérina, Léonide Massine, Austin Trevor, Irene Browne, Esmond Knight, Robert Helpmann
Duração: 134 min.

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8 comentários

Vinícius Mendes 15 de setembro de 2018 - 13:52

Esta crítica está maravilhosa, porque acaba de enriquecer minha percepção sobre esta obra-prima atemporal. É maravilhoso a simbologia personificada pelos sapatos vermelhos, a coexistência entre alma e paixão. Poderiam elas habitar no mesmo espaço? Ou melhor, podem elas viver uma sem a outra?
QUE FILME <3 (e que crítica!!!!)

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Luiz Santiago 21 de junho de 2018 - 16:15

“O Sacrificio (o do Tarkovski, claro)” AHUAHUAHAUAHUAHAUAHUAHAUAHUAHUAHUAHAH eu ri demais com esse esclarecimento, você não tem noção! Excelentes escolhas, amo todos esses que você citou. E sim, é algo difícil e mutável, conforme o tempo vai passando. Na minha lista já estiveram Cidadão Kane, 2001, O Pagador de Promessas e Manhattan (do Allen), mas fui mudando de opinião com o tempo e adicionando outros. Mas já faz uns anos que não vi nada que mude a minha opinião não…

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Luiz Santiago 20 de junho de 2018 - 23:26

Pô, que bom que gostou! Valeu! Esses filmes têm um lugar especialíssimo no meu coração.

Me diz aí, quais são os seus 5 favoritos?

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Guilherme de Almeida 21 de junho de 2018 - 15:21

É sempre difícil pra mim fazer essas listas hahah. Mas acho que nos dias de hoje seria algo como: Persona, Taxi Driver, Vertigo, 2001 e O Sacrificio (o do Tarkovski, claro). Só que nao necessariamente nessa ordem kkk

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Luiz Santiago 20 de junho de 2018 - 10:35

Mano, vem cá, meu dá um abraço!!!

Filmes assim me deixam exatamente nesse estado de me segurar para que “a crítica se tornasse uma chuva interminável e descontrolada de adjetivos”. E olha, você venceu com louvor essa tarefa, porque seu texto está incrível. Aliás, fico até mais feliz que a obra serviu para quebrar alguns preconceitos iniciais e isso é MARAVILHOSO quando acontece, não é? Eu amo quando vou todo cheio de dedos para ver um filme e o tempo vai passando e eu vou ficando mais boquiaberto, tipo: “mas isso aqui é bom demais!!!”.

Agora to mega ansioso pra ler teu texto de Pequena Loja. heheheheh Sem pressão, sem pressão ;D

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Guilherme de Almeida 20 de junho de 2018 - 18:11

SIM!!, é muito bom morder a língua e se dobrar a um filme que eu não esperava que fosse tão talentoso. Seu top 5, a propósito, só tem coisa espetacular, hein? Ótimo gosto!
Vishe hahaha. Vamos ver o que vai sair com a Pequena Loja.

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Luiz Santiago 20 de junho de 2018 - 03:11

Bom… por onde começar?

Primeiro, pelo fato de sua crítica estar maravilhosamente incrível e que eu fico muito feliz de ter pedido pra você escrever sobre este filme, e agora, ainda mais por ter aceitado. Tudo isso porque esta obra está no meu TOP 5 de filmes favoritos de todos os tempos e eu sou tão apegado a ela que não conseguiria escrever sobre (assim como até hoje não consegui escrever sobre o meu nº1).

O nível de beleza e símbolos, entrelaçados por uma malha de realidade (esse compulsão pela perfeição, por “fazer-fazer-fazer”) e a forma como os diretores transpuseram para as telas esse ambiente do ballet (que pode ser qualquer uma das áreas da nossa vida) sempre me deixou embasbacado. Gosto muito da retirada da “culpa cristã” e pela colocação de um fator humano no roteiro, que não deixa de ter a simbologia do Fruto Proibido, mas sem o peso moral/doutrinário, o que torna a coisa verdadeiramente livre na concepção.

Sem contar que eu já me acabei de chorar várias vezes no final, nas diferentes vezes que eu revi. Que filmaço maravilhoso! Aliás, essa dupla… vou te contar, viu! Um filme melhor que o outro!

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Guilherme de Almeida 20 de junho de 2018 - 07:27

Poxa, Luiz, você não tem noção de como eu fico feliz de você ter gostado. Deixa eu te contar uma coisa: logo depois de eu ter feito essa crítica e ter aceitado escrever sobre a “Pequena Loja na Rua Principal”, entrei num dos especiais do Plano Crítico e vi que os dois filmes estão no seu top 5. Ai fiquei um pouco nervoso hahaha. E com medo de escrever algo tosco, levando em conta que você por exemplo poderia escrever e parece conhecer e gostar tanto dessas obras.Agradeço por você tê-las confiado a mim!

Sobre minha experiência com o filme: eu nunca o tinha visto, embora já tivesse ouvido falar dele. Por algum motivo, comecei a assisti-lo com uma pequena dose de preconceito. Minhas indisposições iniciais foram DESTRUÍDAS pela qualidade da obra. Lembro claramente de estar no meu sofá com as costas arqueadas para a frente e uma espécie de embasbacamento incontrolável. Que coisa maravilhosa! Talvez eu não tenha expressado tão enfaticamente em meu texto meu encantamento, mas é porque eu tinha de evitar que a crítica se tornasse uma chuva interminável e descontrolada de adjetivos hahaha.

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