Crítica | Os Selvagens da Noite

“Warriors… Come out to play!”

Uma das maiores justiças da cultura popular foi a reimaginação de Os Selvagens da Noite em um videogame, nos meados da década de 2000. Mesma empresa responsável pela série Grand Theft Auto, a produtora Rockstar Games compreendeu um dos grandes fenômenos para a geração oitentista, que já era prenunciada aqui. Enxergar Os Selvagens da Noite como um clássico beat ’em up foi certeiro. O gênero em questão é enfocado no combate manual de um jogador contra múltiplos inimigos, cruzando cenários e fases diferentes, justamente em um ambiente urbano. Como principia a ação, Os Selvagens da Noite não possui muitas semelhanças com os jogos, por ser um antecessor à maioria dos maneirismos presentes nos videogames, que ainda estavam presos, na época, a um corpo primitivo. Mas a magnitude do projeto mora na essência do formato.

Os oponentes de cada gangue são rostos repetidos dentro de um grupo e de outro, como os próprios jogos redundando as faces dos inimigos criados. As sutis marcas que separam cada um dos membros do Baseball Furies são como variações mequetrefes para mostrar uma expansão de coadjuvantes. São apenas figurantes à serviço da narrativa, ou seja, uma proposta pelo descarte e que, mesmo assim, está de acordo com essa sociedade recriada. Uma Nova Iorque marginal, dominada pelos marginais. O vazio que o mundo sugere, com pessoas apenas transitando nas estações de metrô, é o mesmo vazio de jogos eletrônicos em que os cenários são meramente compostos por mocinhos e capangas. O que importa para o roteiro é a jornada sendo prosseguida e o mundo é criado enquanto os guerreiros principais cruzam um ambiente para seguir a um outro.

Walter Hill, responsável pelo longa-metragem, possui a graciosa vontade de construir o entretenimento pelo entretenimento, uma diversão quase escapista que possui auto-consciência do seu caráter tão limitador quanto engrandecedor. Quando surge uma problemática a mais, como a garota em rosa, a questão acompanha a narrativa e não a interrompe. O mais importante sempre é a missão, o retorno à casa, em Coney Island, onde mora os jovens protagonistas, procurados ostensivamente por todas as outras gangues desse mundo paralelo ao nosso. A desesperança, aqui, é ainda maior. O filme consegue ser tão sincero sobre a juventude e sobre o desperdício quanto sobre o modo como sustenta a sua visão. Uma poderosa ironia que igualmente se justifica – e acompanha o charme do produto – nas músicas apresentadas enquanto o enredo prossegue.

Uma das passagens mais icônicas de Os Selvagens da Noite, curiosamente, coloca o antagonista principal, o responsável por culpar os Warriors, gangue composta pelos protagonistas, da morte de um ícone urbano, chamando-os para brincar. David Patrick Kelly, o intérprete de Luther, incorpora a perdição que encontrou um estado da sociopatia corrompendo incessantemente a ordem. As garrafas se chocando incomodam. Também não é à toa que Cyrus (Roger Hill), o líder da maior das gangues de Nova Iorque, seja morto indiscriminadamente durante o seu monólogo grandioso, enquanto buscava uma união entre tantos povos diferentes. Quase como um Messias para os subúrbios. Mas não existe redenção, não existe salvação. Chegar em casa é o mínimo. Os protagonistas não se tornam os salvadores de uma cidade, apenas continuam vivos. Vamos jogar?

Tudo é tão gratuito quanto não se importa em não ser. A sobrevivência é o que resta. Com isso, a garota em rosa surge como o contraste, como a missão paralela que quase ocupa o coração dos espectadores, contudo, apenas ressurge esporadicamente. Eis a consolidação do beat ’em up como a essência para um cinema como esse, consideravelmente descartável e imensamente empolgante, em uma época na qual os beat ’em up nem mesmo existiam. Os níveis de um jogo sendo ultrapassados. Os cenários se repetindo – o metrô, por exemplo. Tão marcante também é a pluralidade de gangues e cores sendo representantes dessa juventude, com espaço até mesmo para grupos femininos, que não existiam na época em Nova Iorque. Um encontro universal entre o cinema, as revistas pulps, os quadrinhos e os games do futuro. Eis o despropósito enquanto o fim.

Os Selvagens da Noite (The Warriors) – EUA, 1979
Direção: Walter Hill
Roteiro: David Shaber, Walter Hill (baseado em romance de Sol Yurick)
Elenco: Michael Beck, James Remar, Deborah Van Valkenburgh, David Patrick Kelly, Dorsey Wright, Terry Michos, David Harris, Roger Hill, Tom McKitterick, Steve James, Brian Tyler, Dorsey Wright
Duração: 93 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.