Crítica | Os Sonhadores (2003)

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Começando seu filme com uma abertura estilizada, numa queda hipnotizante por imagens de estruturas parisienses sobrepostas umas às outras, as letras do título variando entre o branco e as cores primárias, a música psicodélica, Bernardo Bertolucci vai em busca do seu ideal Hippie. Do ano em que o filme se passa às referências à Nouvelle Vague (principalmente a Jean-luc Goddard), Os Sonhadores é o que tinha que ser: um longa sobre a contracultura, lançado em 2003, que conversa com o público adolescente nutella-metido-a-revoltado dos anos 2000. Aqui é tudo sobre Hipsters e como o cinema está intrinsecamente conectado com seu surgimento.

O roteiro de Gilbert Adair, baseado em seu livro homônimo, poderia ser dividido em duas partes: I – uma idiota brincadeira de referências cinematográficas e II – uma até interessante história de descoberta sexual. Sempre acontecendo, na “parte I”, momentos visuais emulando os grandes momentos de filmes da já citada Nouvelle Vague, sempre trazendo a contracultura como alimento principal da tão amada pelos protagonistas indústria cinematográfica francesa – pela primeira fala do personagem principal, Matthew (Michael Pitt), já dá para perceber –, e como essas experiências sensoriais de rebeldia fascinam as jovens mentes sedentas por subversão. A “parte II” faz com que os três personagens principais esqueçam por um momento o cinema e os filmes, e comecem as experienciar eles próprios suas pequenas subversões – geralmente voltadas às descobertas sexuais –, enquanto os pais de Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green, como uma genuína musa godardiana) viajam a trabalho.

Esses três jovens personagens principais são perfeitas representações do que é a “subversão” e o que se entende por rebeldia nos dias atuais. Para qualquer adolescente que vê Os Sonhadores logo o associa a uma imagem Hippie (como Across The Universe, 2007), porém o que o filme realmente mostra é o surgimento de uma geração de burgueses revoltados, cuja grande revolução não sai do âmbito dos filmes (às vezes livros) ou da subversão sexual (ou de roubar vinho da adega dos pais). São jovens que não conseguem ouvir uma palavra de freio vinda dos pais, pois ainda estão com a mente muito agitada com tudo que a vida os tem para apresentar, e que ainda não conquistaram. Um pequeno dia de revolta na frente do Cinémathèque Française, cinema favorito dos três, e de fuga da polícia e eles já estão com toda a pose de revolucionários, como algo super-descolado que veem nos filmes.

Para construir e conectar essas personalidades modernas ao cinema Bertolucci e Adair desenvolvem primeiro o que eles (mais especificamente Isabelle e Theo) mostram publicamente: uma arrogância sem limites –típica dos cinéfilos –, e a necessidade de demonstração de conhecimento a todo custo. Depois nos é apresentado seus lados mais íntimo, mostrando suas fraquezas e seus limites. É ali, no apartamento dos pais de Isabelle e Theo, que descobrimos o que há por trás das poses e vestes (literalmente). Matthew, um Hipster um pouco mais humilde, começa a perceber as contradições dos amigos que tanto admirava, e é aí que o filme fica mais provocativo – e ganha o peso pelo qual estava carente. Partindo para a construção do mundo dos jovens (quando o dinheiro dos pais acaba), imergindo-os em uma particular formação familiar regada a ciúmes, sexo, vinho, e outras descobertas.

Saindo das premissas do roteiro e do livro de Adair, Bertolucci engata os últimos vinte, ou por aí, minutos de filme em uma escalada na qual se pode tomar apenas dois caminhos, “entregar-se” e viver segundo a vida adulta (representada pela imagem dos pais) ou finalmente revoltar-se, de verdade, e lutar pelos ideais, e estar disposto a sofrer as consequências da luta. E esse foi certamente o maior acerto do filme, que se dispõe a conversar com a geração anos 2000: Hippie, Coca-Cola, e, trazendo para os anos 2010, Twitter e Instagram.

Os Sonhadores (The Dreamers) – Reino Unido, França, Itália, 2003
Direção: Bernardo Bertolucci
Roteiro: Gilbert Adair
Elenco: Michael Pitt, Eva Green, Louis Garrel, Anna Chancellor, Robin Renucci, Jean-Pierre Kalfon, Jean-Pierre Léaud, Florian Cadiou, Pierre Hancisse, Valentin Merlet, Lola Peploe, Ingy Fillion
Duração: 115 min.

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...