Crítica | Os Supremos – Vol. 1

Como já disse algumas vezes em outras críticas, o Universo Ultimate da Marvel Comics, capitaneado por Brian Michael Bendis, foi o responsável por me trazer de volta à leitura de quadrinhos mainstream, depois de passar os anos 90 inteiros distante deles (olhando em retrospecto, fico feliz por isso!). Recriar todo um universo sem o peso da continuidade de décadas tendo como carro-chefe o Homem-Aranha foi uma ideia até óbvia, mas que não havia sido colocada em prática nessa magnitude e com essa eficiência até esse ponto na história da Nona Arte e a editora, com isso, pavimentou, mesmo sem saber, seu futuro Universo Cinematográfico Marvel, já que a base do UCM é, queiramos ou não, a pegada mais “realista” que vemos na chamada Terra-1610. Mas a leitura das HQs do Aranha e dos X-Men foram meros aperitivos para Os Supremos, o prato principal publicado em forma de uma maxissérie em 13 edições ao longo de pouco mais de dois anos, entre 2002 e 2004.

A versão dos Vingadores desse novo Universo, escrita por Mark Millar, é um primor de “reimaginação” e uma das mais importantes séries da editora nos anos 2000 a ponto de não só o UCM ter bebido muito dessa fonte, como também o próprio Universo Marvel principal, o Terra-616, que foi aos poucos ganhando a “cara” do irmão mais novo, por assim dizer. E não é sem razão, pois, no lugar de só fazer a mesma coisa de novo com as proverbiais “pequenas diferenças“, como, sejamos francos, foi o caso dos primeiros volumes do Homem-Aranha de Bendis, Millar olhou de forma holística para a essência dos Vingadores e, sem traí-la, atualizou o grupo para um mundo mais cínico, mais violento e mais “doente”, aplicando uma pegada realista, mas sem perder as qualidades extraordinárias de uma coleção impressionante de seres superpoderosos reunindo-se para salvar o dia.

Esse primeiro volume de Os Supremos é dividido em dois arcos que são muito próximos e complementares com o primeiro lidando com a reunião do grupo sob os auspícios de Nick Fury em sua versão negra e propositalmente com a fisionomia de Samuel L. Jackson (a vida imitaria a arte alguns anos depois, como todos sabemos), ganhando o título Super-Humano, e o segundo lidando com a efetiva primeira missão do grupo, batizado de Segurança Interna. Ao ler os arcos, o primeiro aspecto que vem à mente é o quanto Millar é respeitoso ao material fonte lá atrás de Os Vingadores #1 e edições subsequentes desse momento formativo crucial do grupo. Tudo o que faz dos Vingadores os Vingadores é mantido intacto: sua origem conectada com a ameaça do Hulk, a formação clássica, a chegada do Capitão América, achado congelado e, depois, a participação da Feiticeira Escarlate e de Mercúrio, ex-vilões, como membros da equipe.

Mas é claro que todo o aspecto pueril das edições sessentistas do super-grupo não existe em Os Supremos, com Millar apenas pegando emprestado os conceitos de outrora e empregando uma roupagem moderna, cínica e pesada, com o autor extraindo das décadas de histórias os elementos mais controversos de cada componente do grupo e amplificando-os consideravelmente. Tony Stark, o genial cientista que desenvolveu a armadura do Homem de Ferro, é o egoísmo em pessoa e um homem já completamente entregue aos mais variados vícios, especialmente ao álcool. Hank e Janet Pym (Gigante e Vespa) formam um casal de cientistas com um relacionamento violento, repleto de abusos e agressões. Bruce Banner é um geneticista que, ao tentar duplicar o soro do super-soldado do Capitão América, tornou-se um monstro descontrolado, com sua persona humana sendo um mero fiapo de gente, ambos obcecados por Betty Ross, sua ex-namorada e ainda sua paixão que, aqui, funciona como a Diretora de Comunicações, título bonito para uma verdadeira spin-doctor, capaz de transformar tragédias em ações positivas de marketing. Thor é um hippie paz e amor que diz ser o Deus do Trovão, mas que ninguém acredita. Quando é achado, o Capitão América revela-se como o soldado certinho de sempre, mas com um lado violento e obsessivo preocupante. Finalmente, o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra são agentes da S.H.I.E.L.D. com muito mais experiência em campo que os demais heróis somados (talvez com exceção do Capitão) e que desdenham dos seres super-poderosos. Em outras palavras, Os Supremos formam a proverbial família disfuncional que Os Vingadores sempre foram, mas elevada pelo menos à 10ª potência, com todos os aspectos negativos sendo salientados e trazidos à tona pela caneta mordaz e, diria, maldosa de Millar. Um verdadeiro barril de pólvora prestes a explodir.

Colocando o Hulk como destaque do primeiro arco, o Gigante Esmeralda (mas aqui cinza) é a ferramenta que acaba sendo utilizada para justificar a existência do super-grupo. Se na origem dos Vingadores o Hulk foi manipulado por Loki, aqui ele é fruto da mente doentia do próprio Bruce Banner que vê em seu alter-ego a única possibilidade de Os Supremos manterem-se na ativa, considerando que o grupo, logo quando criado, cai no mais completo marasmo e passa a sofrer pressões orçamentárias dos EUA e das Nações Unidas. Vê-se muito claramente no trabalho de Millar a preocupação logo no início de encaixar a conceituação da equipe dentro da engrenagem política que reflete muito proximamente a que temos hoje em dia, estabelecendo Os Supremos quase que como uma ferramenta de controle, um Big Brother super-heroístico que pode até ter uma função nobre em sua gênese, mas que conta com um DNA já corrompido por carcinomas da sociedade.

Mas, se o primeiro arco é eminentemente pessimista, negativo, colocando Os Supremos sob uma luz tenebrosa, que chega a dar nojo até tanto no aspecto macro quanto no micro, quando olhamos para cada membro, o segundo começa uma caminhada de redenção ao colocar os heróis contra uma ameaça alienígena insidiosa que está há décadas infiltrando-se no mundo: os Chitauri. Vemos, aqui, a efetivamente inspiração para a saga Invasão Secreta, do Universo Marvel normal, que coloca os Skrulls no lugar de figuras importantes do cenário mundial, substituindo até mesmo super-heróis. O que Millar faz aqui é algo até mais amplo, pois amarra a presença dos Chitauri na Terra à origem do Capitão América, que é contada em detalhes no primeiro arco, ganhando relevo novamente no segundo.

Se em Super-Humano vimos destruição em massa do tipo que nos deixa angustiados pela sua natureza, em Segurança Interna Millar amplifica tudo, mas pisa em terreno bem mais conhecido e, por tanto, confortável, com a clara separação entre o bem e o mal. É um arco bem mais mastigável, ainda que igualmente estupendo, e que aos poucos eleva Os Supremos à efetiva categoria de super-grupo que podemos mais facilmente reconhecer. Seu olhar cínico permanece, mas é inteligentemente posto em xeque para permitir que o leitor perceba que aqueles são mesmo Os Vingadores, mas em um mundo significativamente mais próximo ao nosso, literalmente um O que Aconteceria Se… Os Vingadores Existissem de Verdade.

Por todos os dois arcos Bryan Hitch capitaneia o lápis, com Andrew Currie nos pincéis no primeiro arco e Paul Neary no segundo. O resultado é nada menos do que espetacular. Hitch não tenta embelezar os heróis, não tenta emprestar logo de cara aquela aparência de altivez. Os rostos são retorcidos em dor, raiva e em gritos, os uniformes são repaginados para uma pegada mais “grosseira”, mais vida real (na medida do possível) e os corpos, apesar de sempre atléticos, não são particularmente descomunais ou fora do comum. Mantendo a pegada realista de Millar, Hitch aborda Os Supremos com elegância, mas sem tornar tudo bonito e agradável. Além disso, há muita tecnologia permeando a narrativa, o que lhe dá oportunidade de trabalhar apetrechos e transportes igualmente fincados no realismo, mas com aquele toque diferenciador.

E, como se isso não bastasse, as sequências de ação de Hitch são de deixar o leitor sem fôlego pelo seu impacto nas páginas e pela riqueza de detalhes e a mais completa destruição que ele consegue distribuir quase que cirurgicamente pelos quadros. É, literalmente, uma pegada cinematográfica, com ângulos que, se pararmos para analisar, parecem mesmo indicar para um cinegrafista onde posicionar a câmera como em um sofisticadíssimo storyboard. Splash pages são muito bem aproveitadas, notadamente quando Hitch lida com o ensandecido Hulk ou quando foca na resistência final dos Supremos contra os alienígenas. Sabem a escala de Independence Day? É o que o artista faz aqui, com a vantagem de ele contar com um roteiro muito superior ao filme de Roland Emmerich.

O primeiro volume de Os Supremos é a versão “dentes cerrados” dos Vingadores e, diria, o melhor trabalho do Universo Ultimate da Marvel, além de competir seriamente para o panteão das melhores HQs de qualquer universo da editora e ponto final. Uma obra corajosa que influenciou profundamente o futuro da Marvel Comics e, também, do Marvel Studios. Nada mal, não é mesmo?

Os Supremos (The Ultimates, EUA – 2002/4)
Contendo: The Ultimates #1 a 13
Roteiro: Mark Millar
Arte: Bryan Hitch
Arte-final: Andrew Currie (#1 a 7), Paul Neary (#8 a 13)
Cores: Paul Mounts
Letras: Chris Eliopoulos
Editoria: Ralph Macchio
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março de 2002 a abril de 2004
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: julho de 2007, junho de 2012 (edições encadernadas)
Páginas: 378 (edição de 2012)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.