Crítica | Os Suspeitos (1995)

Definido pelo próprio diretor Bryan Singer como “o encontro de Pacto de Sangue com Rashomon” (e vale dizer que o cineasta incorpora muito bem diversos elementos do filme de Kurosawa na narrativa), The Usual Suspects nasceu de uma ideia simples para um enredo, onde cinco homens se conhecem em uma sala de identificação, numa delegacia qualquer, e acabam conectados por situações inesperadas que os forçam a pegar alguns serviços perigosos, praticamente unindo-os até a morte.

Mescla de mistério policialesco com filmes de máfia, o roteiro de Os Suspeitos fio escrito por Christopher McQuarrie, que recebeu o Oscar por este seu segundo trabalho no cinema. Sua intenção nesse caso foi modular diversos blocos de ação em uma história complexa, exposta para o público através de narração e flashbacks costurados por cenas de ligação no presente, tendo o depoimento do chamado “fraco, burro e aleijado” Verbal, personagem vivido de maneira aplaudível por Kevin Spacey, que ganhou aqui o seu primeiro Oscar. Através dele, o espectador fica sabendo os detalhes desconhecidos pela polícia sobre a reunião dos suspeitos de sempre, e como esses detalhes vão pouco a pouco se conectando a investigações paralelas, formando sem pressa um fascinante quebra cabeça.

Bryan Singer e o editor John Ottman imprimem um ritmo impressionante ao filme, nunca deixando o lado fortemente dramático de lado e narrativamente flertando com o noir, colocando a podridão dentro e fora da polícia na mesma mira, além de trazer a tentativa sem sucesso de um antigo fora-da-lei se endireitar e, por fim, a fusão do apodrecido sistema e submundo, revelando algo ainda maior do que imaginávamos à primeira vista. No caso do filme, esse tipo de abordagem do texto — com referências ao narrador nada confiável de Pavor nos Bastidores, à reunião de diversos suspeitos investigados de A Morte Num Beijo e ao estilo geral de Cães de Aluguel — tem por objetivo distrair a atenção do espectador, que também passa por uma variação de emoções fortalecidas pela trilha sonora e pela maneira como a direção nos mostra cada personagem, fazendo com que a gente não necessariamente desconfie de todos, mas mantenha as impressões iniciais e busque explicações para o “grande fantasma escondido“.

Com esse padrão de atenção definido para o problema e não necessariamente para os personagens (notem o caminho de “apenas instrumentos do crime” que o roteiro dá a eles), o drama  nos faz acompanhar uma porção de caminhos possíveis para um thriller no cinema, indo da simples mas textualmente interessante sequência de interrogatório até cenas de ação que se preocupam em esconder as principais pistas para poder usá-las como fechamento geral do longa. Os planos, os envolvidos e as missões cheias de urgência e chantagem ajudam a manter a nossa atenção ativa e cada um desses momentos ganha um tratamento diferente da fotografia, seja na composição das cenas, como o plano geral quando vemos um portal japonês no primeiro encontro com Redfoot; seja na criação de um sentimento para além do que a atmosfera de uma sequência sugere, como no belíssimo reflexo no vidro, na cena em que Kobayashi se reúne com Edie Finneran; e por fim, na constante variação interna de cores e objetos em um mesmo espaço, a fim de intensificar a busca e o suspense em relação à missão, como visto na eletrizando sequência no barco.

SPOILERS!

Criar um mistério dentro de um mistério — e não só em relação a um evento, mas a um personagem, como neste filme — é um caminho perigoso para qualquer história policial, não interessa se o estilo é whodunnit, noir, thriller jurídico, médico, jornalístico e por aí vai… Em Os Suspeitos, McQuarrie aposta as suas fichas nessa abordagem, centralizando o problema na figura de um “invisível e incapaz social“, alguém para quem pouca importância as pessoas dariam e para quem a polícia só poderia imaginar como um espectador, uma testemunha ocular, uma presença passiva em toda a saga. O verdadeiro criminoso, no entanto, sabia exatamente o caminho de pensamento das pessoas, e adotou esse disfarce para dar conta, ele mesmo, de um problema que ninguém jamais poderia saber que ele tinha. Uma das ações à sobra mais às claras que já vimos no cinema. E uma das mais bem escritas e bem atuadas também, a despeito de uma pequena confusão de tempos narrativos no começo da obra, quando notamos qual é o estilo que o diretor adotou para nos contar tudo isso. Um inesquecível conto de um criminoso inteligente. Uma história digna de uma lenda.

Os Suspeitos (The Usual Suspects) — EUA, Alemanha, 1995
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Christopher McQuarrie
Elenco: Stephen Baldwin, Gabriel Byrne, Benicio Del Toro, Kevin Pollak, Kevin Spacey, Chazz Palminteri, Pete Postlethwaite, Suzy Amis, Giancarlo Esposito, Dan Hedaya, Paul Bartel, Carl Bressler, Phillipe Simon, Jack Shearer, Christine Estabrook, Clark Gregg
Duração: 106 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.