Crítica | Os Testamentos, de Margaret Atwood

Oficialmente, as razões que Margaret Atwood deu para escrever a continuação de O Conto da Aia nada menos do que 34 anos depois de seu lançamento foram a curiosidade de fãs que queriam saber o que aconteceu com Offred depois de seu final aberto e ambíguo e o clima político atual que, segundo ela, está mais próximo e não mais longe do que ela imaginou décadas atrás. Mesmo não duvidando do que Atwood disse, creio que um elemento crucial para ela ter voltado à história da República de Gilead, seus Estados Unidos teocrático, ditatorial e distópico, seja o sucesso da série de TV produzida pelo Hulu, o que empresta um caráter bem menos nobre, mas não menos válido, aos propósitos da autora, ainda que ela nunca vá reconhecer isso.

Seja como for, meu olhar cínico não importa muito. O que realmente interessa é saber se Os Testamentos cumpre seu propósito de ser uma continuação que traz aspectos relevantes ao que já aprendemos sobre o horripilante futuro que Atwood criou e que, em maior ou menor grau, já é presente em diversos países islâmicos (o que, infelizmente, ganha pouca atenção da imprensa e do público em geral). No entanto, para começo de conversa, é necessário colocar em xeque as expectativas sobre o final no estilo de cliffhanger da obra original, já que a continuação não é sobre Offred. Ela nem mesmo é uma personagem no livro. Atwood não fez o óbvio e o completamente esperado aqui e, sinceramente, acho que ela escolheu o caminho correto, pois seria potencialmente cansativo ter, basicamente, mais do mesmo. Mesmo assim, por mais incongruente que possa parecer, Os Testamentos é uma continuação de O Conto da Aia, podem ter certeza, mas não entrarei em detalhes para não estragar surpresas.

Narrativamente, a estrutura é exatamente a mesma: em primeira pessoa a partir de registros passados. Se, no livro de 1985, o que lemos na verdade são transcrições de gravações de Offred achadas em futuro mais distante, depois da queda de Gilead, em Os Testamentos temos três dessas fontes, um diário e duas transcrições de depoimentos contando histórias em momentos temporais diferentes, mas que convergem em algo como 15 ou 16 anos após os eventos de O Conto da Aia. O diário é de ninguém menos do que de Tia Lydia, a única personagem “repetida”, e as transcrições são de depoimentos de duas personagens novas, as jovens Agnes e Daisy, a primeira criada em Gilead e a segunda no Canadá. Com isso, Atwood consegue vozes e visões bem diferentes sobre Gilead, sempre com aquele gostoso sabor de narradores não confiáveis que marcou o primeiro livro e que torna tudo mais interessante.

Além disso, durante algo como dois terços da obra, as três narrativas são quase que completamente independentes, cada uma com seu tom, cada uma com sua própria história. A mais interessante delas, claro, é a da Tia Lydia, já que não só há enfoque em sua “origem”, ou seja, como a Juíza Lydia tornou-se, basicamente, um terrível instrumento de opressão do patriarcado que governa Gilead, como também em momentos mais “atuais”, aproximando-se dos tais 15 anos que se passam entre um livro e outro e que funcionam para mostrar como é que ela, astutamente, manobra seu nada desprezível poder.

Agnes tem, para mim, a segunda melhor história, já que ela é uma filha de Esposa e Comandante de grande estatura na comunidade de Gilead e, portanto, perfeitamente encaixada nos ditames daquela sociedade que extirpa toda e qualquer possibilidade de as mulheres serem mais do que esposas e mães. É, portanto, uma visão de dentro, de alguém que não conheceu o “antes” e que, portanto, não tem parâmetros de comparação. Em outras palavras, Agnes não sabe que ela vive, basicamente, em uma prisão, mesmo que seja, no caso dela, uma prisão de alto luxo, com todas as regalias de uma filha de Comandante e não de uma Econo-Esposa ou de uma Aia.

Finalmente, temos a visão externa de Daisy, a mais jovem das três mulheres narradoras, que vive livre no Canadá com seus pais. Muito coerentemente, ela tem o tipo de visão superficial de Gilead que a grande maioria dos surfadores de internet tem sobre as questões mundiais, o que a torna uma personagem ao mesmo tempo relacionável e rasa, em uma mistura de rebelde sem causa com adolescente birrenta. Enquanto sua personalidade é bem construída, sua história é a que traz menos peso para o livro, por pouco seus capítulos não se tornando partículas expletivas do romance, por assim dizer, ainda que a personagem em si seja crucial para o desenrolar da história.

Mas são nesses dois terços iniciais, em que a Tia Lydia “se apresenta” e que as duas jovens contam seus respectivos périplos enquanto cresciam em seus países, que estão o coração dessa continuação. Neles, Atwood mergulha mais a fundo na formação de Gilead (eu só assisti a série de TV até o final da 1ª temporada justamente esperando para não estragar/influenciar minha experiência com Os Testamentos) por meio da voz de Lydia e aborda o contraste de visões sobre o país pelas vozes de Agnes e Daisy que trazem mais detalhes também sobre as atrocidades cometidas. De certa forma, há redundância de informações e nada sobre Gilead é realmente novidade que não tenha sido abordado de alguma forma, mesmo que en passant, no livro anterior. É como um detalhamento daquilo que Atwood não conseguiu encaixar antes, para dizer a verdade, mas isso não tira o valor da leitura que, aliás, apesar de momentos doloridos, é até mais fácil do que O Conto da Aia provavelmente em razão do revezamento de pontos-de-vista narrativos. O terço final, por sua vez, onde a ação se concentra e onde as linhas narrativas díspares efetivamente convergem, é um pouco apressado e, tenho para mim, fácil e conveniente demais, com pouca criação de tensão e com elipses que simplificam demasiadamente os acontecimentos, como se Atwood estivesse pouco interessada no desfecho, mas ao mesmo tempo querendo oferecer algo mais “cinematográfico” aos leitores.

Seja quais tenham sido os fatores que levaram Margaret Atwood a escrever Os Testamentos, a grande verdade é que, mesmo que uma boa parte do livro foque no esmiuçamento daquilo que ela já havia apresentado e discutido, a autora soube dar uma roupagem muito boa ao seu trabalho, saindo do óbvio, que seria simplesmente continuar diretamente a história de Offred, e focando em três personagens, com apenas uma já conhecida de seu público leitor. Com isso, ela traz suficiente frescor narrativo capaz de manter o leitor alerta e sempre curioso pelo que acontecerá, mesmo que, no clímax, Atwood tenha falhado em criar momentos de ação e tensão que realmente funcionem em toda sua plenitude.

Os Testamentos (The Testaments, Canadá)
Autora: Margaret Atwood
Editora original: McClelland and Stewart
Data original de publicação: 10 de setembro de 2019
Editoras no Brasil: Editora Rocco
Data de publicação no Brasil: prometido para novembro de 2019
Páginas: 432 (edição americana)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.