Crítica | Os Últimos Dias da Noite, de Graham Moore

Graham Moore começou sua ainda muito curta carreira nas artes com a produção, composição da música e mixagem de som do curta Pirates vs. Ninjas, em 2005, o que foi seguido de um trabalho de produção e direção em outro curta, The Waiting Room, em 2008. Seu primeiro romance foi The Sherlockian, em 2010, uma história de mistério que bebe do notório “assassinato” de Sherlock Holmes por seu autor, Sir Arthur Conan Doyle, e que figurou na lista de mais vendidos do New York Times. No entanto, seu momento de glória, que veio cedo, vale dizer, foi ao escrever o roteiro de O Jogo da Imitação, adaptado de obra de Andrew Hodges e que abocanhou o único Oscar do filme, em 2015.

É com esse pedigree cinematográfico que o autor, então, lançou, em 2016, sua segunda obra literária, Os Últimos Dias da Noite, que romanceia uma das mais fascinantes histórias verídicas do final do século XIX e começo do século XX: a chamada Guerra das Correntes, uma gigantesca pancadaria tecnológica e judicial envolvendo os inventores e magnatas Thomas Edison e George Westinghouse, com o gênio sérvio Nikola Tesla no meio e que mudaria a face do mundo moderno. Para quem não conhece, a referida guerra girava em torno, de um lado, das patentes sobre a lâmpada incandescente e, de outro, a escolha do tipo de corrente elétrica que alimentaria as cidades, a alternada (introduzida por Tesla e Westinghouse) ou a direta (com que Edison começara a cabear os EUA). Edison, um dos mais prolíficos inventores modernos, tinha em seu “currículo”, várias das invenções mais importantes do século XIX, tais como suas dramáticas melhorias no telégrafo, o fonógrafo e o cinema (houve simultaneidade nesse ponto entre Europa e EUA, então nem vou entrar na discussão aqui) com Westinghouse que, por seu turno, notabilizou-se por diversas invenções que mudaram o cenário das ferrovias.

A Guerra das Correntes, portanto, é uma fascinante história por si só que Graham Moore aborda com muita eficiência, mas não do ponto de vista óbvio, que seria um dos três inventores acima. Toda a narrativa é trabalhada a partir do ponto de vista de Paul Cravath, advogado de uma pequena banca que é surpreendentemente contratado por Westinghouse para a defesa contra o ataque inclemente do todo-poderoso Edison. E engana-se quem apressadamente concluir que Cravath é um personagem ficcional, pois ele existiu e foi mesmo advogado de Westinghouse nessa época e nessas causas, além de ele próprio ter, de seu modo revolucionado a advocacia, fazendo como Henry Ford e criando uma “linha de produção”, algo que até hoje causa horror a causídicos mais tradicionalistas. Com isso, com apenas uma cajadada, Moore introduz um personagem que não só contribui tematicamente para a história principal, como funciona como o fio condutor do leitor que desconhece os detalhes das tecnologias, justificando as explicações mais técnicas sobre as correntes, sobre a lâmpada e sobre o sistema patentário, mas sem fazer o texto pesar no processo.

Aliás, uma das grandes características do trabalho de Moore é justamente escrever de maneira quase prosaica e completamente despretensiosa, descomplicando o que poderia ser complicado sem, porém, banalizar sua obra. Com isso, seu texto não só é acessível a todos, como ele consegue quase que cientificamente inserir urgência e tensão em toda a narrativa, criando um thriller interessantíssimo que é difícil de largar, sensação que é amplificada pelo uso de capítulos muito curtos, todos mais ou menos do mesmo tamanho e contendo ganchos de um para o outro que quase que exigem que viremos “só mais uma página”.

De certa forma, ele escreve já com o olhar de transformar Os Últimos Dias de Noite em uma obra audiovisual, como, aliás, é quase a norma hoje em dia, algo que me irrita muito. Mas diferente de outros escritores menos dotados, Moore sabe andar bem na linha divisória entre uma coisa e outra e, se não tem nenhuma pretensão de criar “alta literatura”, pelo menos consegue diferenciar seu trabalho de outras tantas sem sal e escritas como pré-roteiros que vemos por aí.

E a cereja nesse bolo é seu trabalho de pesquisa. Quem conhece a Guerra das Correntes com mais detalhes ficará surpreso com a proximidade histórica do que ele escreve. Quem não conhece ficará igualmente espantado quando pesquisar nomes e eventos depois de acabar a leitura. Claro que ele toma grandes liberdades, notadamente uma sequência importante com Alexander Graham Bell que eu até considero como desnecessária e deslocada, mas, em linhas gerais, ele segue os acontecimentos de maneira fiel e retrata seus personagens de forma muito próxima aos reais, inclusive tecendo especulações lógicas sobre o razoavelmente misterioso Tesla e também sobre Agnes Huntington, famosa cantora de ópera da época.

Os Últimos Dias de Noite ilumina um momento histórico fascinante que todos deviam conhecer e que o romance de Graham Moore funciona, talvez, como a perfeita porta de entrada. Com seu tino cinematográfico que, porém, não perde de vista a qualidade literária, o autor aborda aqueles exatos anos em que o mundo deixou de parar de funcionar à noite e tornou-se “conectado” 24 horas graças a mentes brilhantes (e maquiavélicas) que travaram uma gigantesca batalha pelo controle da luz elétrica.

Os Últimos Dias da Noite (The Last Days of Night, EUA – 2016)
Autor: Graham Moore
Editora original: Penguin Random House
Data de publicação: 16 de agosto de 2016
Editora no Brasil: Companhia das Letras
Data de publicação no Brasil: 13 de julho de 2017
Tradução: Jorio Dauster
Páginas: 440

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.