Crítica | Ouro Azul – As Guerras Mundiais Pela Água

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Enquanto alguns aproveitam a abundância da água em suas civilizações, outros penam por acesso a um filete que escorre de uma torneira. Na Bolívia, guerras civis já foram travadas por conta deste bem tão preciso quanto o petróleo. Há, inclusive, no senso comum, inspirado nas reflexões de acadêmicos e outros especialistas, a ideia sobre uma suposta Terceira Grande Guerra Mundial por conta das disputas por água potável, haja vista a inutilidade da água salgada dos oceanos para consumo humano, bem como seu processo de dessalinização, possível cientificamente, mas excessivamente custoso, financeiramente e ambientalmente, haja vista o alto teor de queima de combustíveis fosseis, algo que ocasiona outros problemas ambientais.

É com esta linha de abordagem que Ouro Azul – As Guerras Mundiais por Água segue a sua narrativa documental. Baseado em algumas afirmações do livro homônimo de Maude Barlow e Tony Clarke, o documentário de baixo orçamento foi escrito e dirigido por Samuel Vartek, também responsável pela direção de fotografia e condução dos efeitos visuais que contribuem no processo didático das informações fornecidas, organizadas pela edição de que o próprio diretor assumiu. Contada sob o ponto de vista de alguém que passou por um longo período de recessão, isto é, uma pessoa que penou sete dias de privação do recurso natural e sofreu desidratação em seu organismo, a produção flerta com os dados que nós já sabemos superficialmente em relação à ausência de água em determinadas regiões do planeta, tendo como foco central os conflitos humanos diante desta celeuma ambiental.

Parte integrante das narrativas mitológicas e até alçada ao patamar dos deuses, a água é um recurso que dispensa apresentações no que tange à sua importância para toda a biodiversidade do planeta. Fonte da vida que já foi abundante, atravessa atualmente um processo de privatização que ocasiona diferentes tipos de conflitos bélicos. Dentre os tantos problemas que ocasionam a sua escassez, o documentário traz a ampla faixa de urbanização sem limites e reflexões, o que prejudica a absorção da água pelo solo. O asfalto prejudica a absorção, o que faz com que escoe para o oceano e prejudique o seu ciclo que não deveria ser remanejado.

Há também a contaminação por conta dos desastres ambientais e outros descuidos humanos, problema duplo porque além de não termos a possibilidade de descontaminar a água poluída, a contaminação do solo prejudica as fontes freáticas e impede o consumo de determinadas fontes de alimentos. São dados e mais dados, informados em meio à condução musical de Thomas Bertolini, o que torna Ouro Azul – As Guerras Mundiais por Água mais uma produção documental com caráter didático, mas pode também ser consumido por espectadores que buscam entretenimento, afinal, trata-se de um tema relevante para qualquer ser humano, não apenas os pertencentes ao terreno das ciências.

Lançada em 2008, a produção documenta e debate os problemas referentes à escassez da água no mundo e seus desdobramentos nos relacionamentos entre os seres humanos. Ao longo de seus 90 minutos, somos informados que na Malásia, os que estragam a água pagam com a pena de morte. No capital mexicana, um rio poluído corta a cidade e irriga os seus alimentos. Brasil, Canadá e Rússia são as porções geográficas com maior potencial de recursos hídricos do planeta, mas será que sabem aproveitar de tais prerrogativas? Ao deixar de ser um bem comum aos habitantes de cada região, a água serve como recurso para obtenção de lucro para as comunidades. Sem conseguir se refazer em seu armazenamento, a água é extraída excessivamente, sem que possa se reestabelecer naturalmente, principalmente por conta do abatimento de florestas e matas.

Na África do Sul, alguns moradores precisam aguardar o surgimento de água nas torneiras apenas uma vez por semana. O pior e mais grotesco talvez, seja, no entanto, a condição geral do continente africano, saqueado há eras e que possui um curioso dado em relação ao processo de privatização da água: é mais barato consumir uma garrafa de Coca-Cola, talvez a maior representante da hegemonia capitalista mundial, pois uma garrafa de água custa o dobro ou mais. Já pensou no absurdo, caro leitor? Em um planeta com 97% de água salgada e 3% de água doce, os governos, as estatais e seus conluios transformam a água em bem econômico, o que promove uma crise sistemática geral.

Ouro Azul – As Guerras Mundiais Pela Água — (Blue Gold: World Water Wars – Estados Unidos, 2008)
Direção: Samuel Vartek
Roteiro: Maude Barlow, Samuel Vartek , Tony Clarke
Elenco: Jim Olson, Octavio Rosas Lando, Robert Glennon, Octavio Rosas Lando, Ryan Schwebach, Peter Warshall, Vandana Shiva, Vandana Shiva, Wenonah Hauter, Kyang Hae Lee,
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.