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Crítica | Outland: Comando Titânio

por Ritter Fan
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Outland: Comando Titânio (eu podia jurar que era “Titânico“, mas deve ser minha memória esburacada…) era figurinha fácil de tarde da noite na televisão aberta brasileira. O filme tinha tudo para atrair espectadores variados, já que não só contava com Sean Connery como protagonista, como a trama policial sci-fi era simples e objetiva, exatamente o que é necessário para manter pais e filhos acordados até tarde apreciando a aventura espacial.

O melhor dessa criação de Peter Hyams (2010: O Ano em que Faremos Contato, O Guardião do Tempo) é justamente a simplicidade. O pano de fundo de ficção científica é apenas um embelezamento, por assim dizer, já que a investigação sobre tráfico de drogas empreendida pelo recém-transferido delegado incorruptível William T. O’Niel (Connery) é universal e perfeitamente reconhecível, uma trama daquelas que deixa qualquer um confortável assistindo. Mas o aspecto sci-fi sem dúvida é um atrativo a mais, especialmente porque a pegada do design de produção de Philip Harrison (007 – Nunca Mais Outra Vez, Mississipi em Chamas) e da direção de arte de Malcolm Middleton (Entrevista com o Vampiro, Filhos da Esperança) é a de um futuro tecnológico sujo, usado e vivido, com muito mais tomadas de interiores do que os establishing shots em pinturas matte feitos para determinar que a história se passa na lua Io, de Júpiter, em uma enorme operação de mineração de titânio.

Para todos os efeitos, é perfeitamente possível imaginar que Outland se passa exatamente no mesmo universo que Alien, o Oitavo Passageiro, com a mesma impressão de isolamento e solidão e até mesmo uma boa trilha de Jerry Goldsmith, só que sem qualquer sombra de monstros alienígenas, que são substituídos por um roteiro que poderia muito bem ser vendido (e não duvido nada que tenha sido exatamente assim já que Hyams, originalmente, queria fazer um faroeste) como “Matar ou Morrer no espaço” em que um xerife precisa enfrentar um assassino que está para chegar no trem de meio-dia. Troque um bandido por dois e o trem por uma nave espacial e pronto, temos uma versão muito interessante do clássico de Fred Zinnemann, com direito a relógios fazendo a contagem do tempo, mas sem o mesmo grau de densidade ou de contexto político. Hyams até mesmo arma O’Niel com espingardas comuns no lugar de armamentos típicos do sci-fi justamente para amplificar essa impressão de velha guarda, de disputa na fronteira americana. Não fossem as mortes por descompressão, que, aliás, são muito bem utilizadas ainda que, claro, os efeitos práticos estejam razoavelmente datados, seria perfeitamente possível produzir esse filme com qualquer outro pano de fundo.

No lado feminino da história, a presença da esposa (Kika Markham) e filho (Nicholas Barnes) de O’Neil nos primeiros minutos de projeção, somente para que, logo depois, ele descubra que sua família fugiu sem qualquer aviso, é estranha em um primeiro momento. Existe uma função narrativa para isso que vai sendo aos poucos desenvolvida na história, mas a presença física dos dois no início não cria o efeito almejado de estabelecer que O’Neil é um homem tão dedicado a seu trabalho que sua família acaba ficando em segundo lugar, tendo que viver em lugares opressivos como a mineradora em Io. E isso sem contar com a quantidade de texto expositivo que é necessário inserir no começo para que a mensagem seja passada sem que ela seja realmente sentida. Por outro lado, a amizade de O’Neil com a antipática Dra. Marian Lazarus (Frances Sternhagen) é uma diversão só, com farpas e mais farpas sendo trocadas entre os dois, mas sempre com aquele senso de cumplicidade que, claro, acaba gerando dividendos na tensa meia hora final.

A ação em si é bem construída, com O’Neil basicamente percorrendo sozinho os corredores vazios do complexo que, novamente, lembra um pouco a sequência da contagem regressiva em Alien. Hyams sabe fazer bom uso do carisma de Connery, evitando malabarismos e focando em inteligência, até mesmo arriscando alguns bons minutos do lado de fora da base, em que os efeitos práticos fazem o melhor possível para se segurarem e, devo dizer, acabam sendo suficientemente verossímeis, sobrevivendo bem até hoje.

Outland: Comando Titânio é um exemplar acima da média de hard sci-fi cuja pegada policial de espírito de faroeste é bem desenvolvida, contando com um protagonista carismático e uma história básica, mas confortavelmente familiar que entrega divertimento com inteligência e uma produção cuidadosa que sabe fazer muito com pouco. Nada como ver Sean Connery em uma rara – e talvez única que pode ser realmente ser chamada assim – ficção científica de sua filmografia.

Outland: Comando Titânio (Outland – Reino Unido, 1981)
Direção: Peter Hyams
Roteiro: Peter Hyams
Elenco: Sean Connery, Peter Boyle, Frances Sternhagen, James Sikking, Kika Markham, Nicholas Barnes, Clarke Peters, Steven Berkoff, John Ratzenberger, Manning Redwood, Angus MacInnes, Eugene Lipinski, Sharon Duce, P.H. Moriarty, Angelique Rockas, Doug Robinson
Duração: 109 min.

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