Crítica | Pacto Maligno

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Baseado no conto Gramma, de Stephen KingPacto Maligno (2014) tem uma fama muito pior do que ele realmente é. Longa de Peter Cornwell, escrito por Matt Greenberg, Pacto explora uma relação muito próxima da vovó Mercy (Shirley Knight) com seu neto George (Chandler Riggs), o tipo de proximidade mostrada em filmes de terror que sempre dá margem para coisas muito ruins acontecerem a longo prazo.

O enredo tem de tudo um pouco em relação ao seu gênero, de jump scares ao uso interessante de mitologias que se unem para formar um todo amedrontador, nesse caso, em torno da casa de Mercy, local onde segredos antigos começam a ser revelados. O roteiro explora diversas linhas folclóricas e míticas para dar conta do problema, o que para mim tornou a obra majoritariamente interessante, em sua proposta de terror. Gosto muito de enredos que se deixam mergulhar em narrativas macabras, das mais diversas origens, e que, com elas, criam uma variação forte o bastante para se sustentar do começo ao fim. Em Pacto Maligno isso acontece ao menos na ideia de geração do horror familiar. O problema é a costura de todo esse tecido narrativo.

A história da avó com algum tipo de segredo, que começa a se sentir mal e precisa ser internada, é escrita da maneira mais “nem aí” por Greenberg, talvez porque ele tinha algo muito melhor para explorar no segundo ato, mas isso não é licença para criar motivos de qualquer jeito e apresentar ou ligar personagens de maneira blasé, tentando dar a eles alguma profundidade num segundo momento. Além disso, o roteiro perde a mão quase que por completo na dinâmica dos dois irmãos interagindo, e isso tem muito menos a ver com a pouca extensão dramatúrgica dos jovens atores do que qualquer outra coisa. Vejam, por exemplo, a absurda e estúpida fala que deram para Joel Courtney falar, na cena em que ele tenta “mentir para si mesmo” sobre como aconteceu a morte do avô. Sério, é coisa de um amadorismo desrespeitoso com o espectador, algo que nem o mais negacionista dos adolescentes falaria.

E esse tipo de problema segue por todo o filme, com George tendo o melhor tratamento possível — e sua relação com a avó é bem explorada, concentrando um número pequeno de problemas — enquanto todo o restante do elenco serve apenas de ponte situacional. Às vezes isso funciona porque a cena não tem mesmo muita importância ou só é uma ligação entre um momento e outro da película, mas um filme não é feito apenas de “draminhas de passagem“, o que nos leva para os reais problemas de Pacto Maligno: má interação entre personagens, falas estúpidas para os coadjuvantes e pontos de partida questionáveis para algo que teria força no roteiro, mais adiante.

A despeito das muitas inconstâncias, o espectador irá aproveitar a maioria das cenas de terror (os efeitos, a fotografia e a trilha sonora nesses momentos são sempre bem cuidados, com aquele tipo de exagero charmoso do gênero) e deverá curtir todo o arco ligado à dupla George e vovó Mercy. A ideia aqui é que uma mulher desesperada pela maternidade acaba aderindo a um pacto com forças malignas, o que lhe garante a realização do desejo e prosperidade na vida mas, a longo prazo, o preço por tudo isso é cobrado. Se o espectador tirar o apito mental, em letras garrafais, que diz ELA PODERIA TER ADOTADO QUANTAS CRIANÇAS QUISESSE!!! — o que é a mais óbvia e ululante verdade — até esse gancho moral de “cuidado com o que você deseja” chega a funcionar um pouquinho na fita. O filme não é todo esse monturo inassistível que muitos dizem por aqui, mas é uma obra medíocre. Não por conta da ideia, que é ótima, mas por aquilo que, no roteiro, permite que essa ideia exista. [e se você perguntar para meu lado malvado, ouvirá que essa é a maldição permanente dos filmes baseados nas obras de Stephen King, da qual apenas alguns cineastas e roteiristas escolhidos pelo destino conseguem escapar].

Pacto Maligno (Mercy) — EUA, 2014
Direção: Peter Cornwell
Roteiro: Matt Greenberg (baseado em conto de Stephen King)
Elenco: Frances O’Connor, Shirley Knight, Chandler Riggs, Joel Courtney, Mark Duplass, Dylan McDermott, Amanda Walsh, Hana Hayes, Pepper Binkley, Chris Browning, Eddie Jones, Sewell Whitney, Joe Egender, Munda Razooki, Jack Carter
Duração: 79 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.