Crítica | Pacto Sinistro

estrelas 4

Se há um adjetivo que classifica com perfeição a história desse filme é “sinistro”. A tradução para o português do enganador título em inglês Strangers on a Train não é terrivelmente original, mas não se pode dizer que é impreciso. Afinal de contas, tendo como premissa o encontro casual entre dois homens gerando uma conversa sobre como cometer o crime perfeito pelas lentes hábeis de Alfred Hitchcock, a fita não poderia ser diferente, especialmente se levarmos em consideração a cuidadosa construção da atmosfera tenebrosa que o filme carrega do começo ao fim.

A produção conta a história do jogador de tênis Guy Haines (Farley Granger) que acaba conhecendo um sujeitinho muito estranho (só para não dizer sinistro novamente) no trem em que está viajando. Bruno Antony (Robert Walker) aproxima-se de Guy sob o pretexto do esporte e os dois acabam conversando sobre seus maiores problemas: Guy tem uma esposa que não quer largá-lo, apesar de saber que ele está apaixonado por outra mulher e Bruno tem um pai que não suporta. Bruno, então, acaba propondo o tal “pacto sinistro”, coisa que só pode vir mesmo da cabeça de Hitchcock (ok, o roteiro é baseado em livro de Patricia Highsmith, mas só Hitchcock para ver oportunidade nesse tipo de narrativa macabra): um elimina o problema do outro. Como os dois mal se conhecem, não há motivo para um matar o problema do outro e, portanto, eis os crimes perfeitos.

Bruno não para de falar e Guy vê-se desesperado para livrar-se do gosmento ser. No final da conversa, Guy quer distância de Bruno ao passo que Bruno tem certeza que o pacto foi realmente feito e trata, então, na maior tranquilidade, de matar a mulher de Guy. Em seguida, cobra a outra parte do plano de um desesperado Guy, que não tem para onde correr.

A trama vai se desenrolando no melhor estilo do diretor, culminando com uma ótima cena, cheia de efeitos práticos, em um inocente carrossel. Bruno é um personagem horripilante, de certa maneira parecido com Norman Bates, o psicopata máximo do cinema, funcionando quase que como um protótipo dele, algo que certamente ficou em algum canto obscuro da mente do diretor.

O filme, com uma linda e funcional fotografia em preto-e-branco de Robert Burks que concorreu ao Oscar, usa muito bem o claro e o escuro para identificar o bem e o mal, às vezes invertendo propositalmente a ordem para confundir o espectador. Hitchcock também trabalha muito bem os figurinos sem tentar esconder o que cada personagem é. Guy usa roupas brancas jogando tênis enquanto que Bruno aparecem em tons mais escuros e muitas vezes nas sombras, transmitindo sua personalidade psicótica de maneira evidente.

No entanto, indo um passo além, Pacto Sinistro lida sobre a duplicidade ou dualidade de personalidades. É perfeitamente possível ver Guy e Bruno como dois lados de uma mesma moeda, como Dr. Jekyll e Mr. Hyde, como Bruce Banner e o Hulk. São dois personagens separados para fins dramáticos, mas que, sob o ponto de vista psicológico, poderiam muito bem ser fundidos em um só (olha aí mais uma pista de um futuro e perturbado Norman Bates!). Apesar de Bruno poder ser facilmente caracterizado como vilão, não há dúvidas que Guy também tem um “quê” vilanesco. É perceptível a tentação que ele sente em efetivamente seguir com o plano e, claro, por se livrar da esposa complicada.

E indo ainda mais para a frente, semelhante ao que fez em Festim Diabólico, Hitchcock deixa entrever uma atração sexual entre Guy e Bruno. É mais discreto do que em Festim, mas, mesmo assim, o elemento está lá, com um leve roçar de braços, olhares e uma câmera que dá a entender essa ligação, sem jamais escancará-la (o famigerado e censor Código de Produção ainda vigia à época, mesmo que Hitchcock, por diversas vezes, tenha sido capaz de driblá-lo brilhantemente). E o interessante é que esse aspecto reforça a ideia de “duplo”, de dois lados da mesma moeda, que tratei acima.

No lado da produção, Pacto Sinistro foi uma dificuldade para sair e tudo começou com Hitchcock literalmente enganando a autora Patricia Highsmith. Para adquirir a obra base de maneira, digamos, mais econômica, Hitchcock fez a compra por intermédio de terceiros, sem jamais revelar quem ele era. Higsmith só veio a descobrir depois, já com o filme em plena produção. Além disso, apesar de ter conseguido um segundo “tratamento” (o trabalho que antecede o roteiro) satisfatório de Whitfield Cook, o diretor teve enormes dificuldades de encontrar alguém para efetivamente escrever o roteiro. Vários autores negaram pelas mais diversas razões. Raymond Chandler, romancista e roteirista americano, pegou o trabalho, mas já deixando claro que havia achado a obra original bem rasteira. E a coisa só azedou a partir daí, com Chandler e Hitchcock brigando feio. A única coisa com que concordaram é que o nome de Chandler não deveria constar dos créditos depois que tudo foi reescrito pela desconhecida Czenzi Ormonde, mas quem discordou desta vez foi a Warner, que exigiu um “nome chamariz” nos créditos. Foi uma epopeia que só foi efetivamente a cabo – ainda bem! – pois Hitchcock demonstrou um entusiasmo quase sobrenatural com esse filme.

Mesmo com as dificuldades, o resultado é um eficiente thriller hitchcockiano que deveria ter recebido muito mais atenção que recebeu. No mínimo, o espectador que der chance a essa obra razoavelmente desconhecida do Mestre do Suspense ficará grudado no sofá para descobrir o destino de Guy e de Bruno e, se tudo der certo – ou errado, depende do lado da moeda em que estiver – imaginará que outros pactos dessa natureza poderiam ser celebrados. Sinistro, não?

  • Crítica originalmente publicada em 30 de junho de 2016. Revisada para republicação em 21/04/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Pacto Sinistro (Strangers on a Train, EUA – 1951)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Raymond Chandler, Czenzi Ormonde, Whitfield Cook (adaptação), Patricia Highsmith (romance)
Elenco: Farley Granger, Ruth Roman, Robert Walker, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock, Kasey Rogers, Marion Lorne, Jonathan Hale, Howard St. John, John Brown
Duração: 101 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.