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Crítica | Padrinhos de Tóquio

por Kevin Rick
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Padrinhos de Tóquio é a obra mais distante do que normalmente se espera de Satoshi Kon, um diretor conhecido por utilizar a realidade, mais necessariamente deturpando-a e desconstruindo o realismo de seus personagens, dentro de temáticas como a fama, a obsessão, memórias e o próprio Cinema. Em Perfect Blue, o diretor oferece uma experiência de perseguição, uma espécie de pesadelo como crítica dos bastidores do mundo artístico, enquanto Atriz Milenar é uma narrativa que mistura o passado da protagonista com a História do Japão e o Cinema, em uma abordagem otimista e apaixonante à Sétima Arte. Contudo, é complicado traçar paralelos – apesar deles existirem – dessas obras iniciais com seu terceiro filme sobre três sem-tetos que encontram uma recém nascida abandonada durante uma noite de Natal.

Influenciado pela história bíblica dos Três Reis Magos, e também por Uma Canção de Natal, de Charles Dickens, o cineasta nos apresenta Hana, Gin e Miyuki, uma família disfuncional criada pelas ruas, que encontram uma linda bebê, em grande parte da obra contextualizada como um Anjo, e ficam indecisos entre adotar a criança ou levá-la a polícia. A reviravolta, ou pelo menos o elemento inverso das influências de Satoshi, reside na sua maneira de imaginar os Três Reis Magos – para manter minha analogia -, como um alcoólatra que abandonou sua família, uma adolescente que fugiu de casa e uma mulher trans desesperada por amor, cumplicidade e maternidade; e em vez de delinear uma jornada natalina em torno do descobrimento do valor naquilo que têm, como acontece com Scrooge na obra de Dickens, e tem sido utilizado como proposta em múltiplas obras do subgênero, nosso querido Satoshi Kon demonstra a aventura daqueles que não têm nada, trágicos, abandonados e excluídos, em um exercício humano da magia natalina entregue àqueles que só conhecem o desespero.

Não existe confusão imaginária ou surrealismo nessa narrativa superficialmente simples de Satoshi, mas como é de praxe do artista, ele consegue dar seu próprio twist nas expectativas e nos envolver numa jornada cheia de camadas sociais japonesas. A montagem do filme é construída a partir de “coincidências”, onde os personagens se encontram com membros de seu passado familiar, ou então com personagens que representam suas versões futuras, como um velho moribundo alcoólatra para Gin, e aos poucos a narrativa vai descascando as dolorosas camadas vividas pelo trio, no qual a inserção da bebê, apelidada de Kyoko, funciona como o estopim espiritual para o estudo de personagem do grupo, tocando em temas sobre identidade de gênero, alcoolismo, suicídio, vício em apostas e abandono parental no âmago de remorso e culpa humana.

Pela forma que estou falando sobre a obra, parece ser um filme tematicamente pesado e uma experiência dramática, certo? Bem, sim, mas o curioso é que todo esse tratamento social e introspectivo da narrativa é o cerne de uma aventura totalmente divertida. Para aqueles que não viram, Padrinhos de Tóquio é um filme de comédia. Para mim, a excelência da decupagem de Satoshi está na maneira como constrói um conto de fadas, ou vários contos de fadas pela maneira que o filme é cheio de pequenos “universos” como a casa de travestis, a residência de um casal estrangeiro em dívida, o hospital de reencontro entre um pai vagabundo e a filha abandonada, entre outros, inseridos no espírito natalino. É mágico, descompromissado, divertido, cheio de coincidências e lições morais, mas também é urbano, tematicamente maduro e carregado de comentários sociais.

A belíssima animação semi-realística  serve a esta construção de uma fábula urbana, em uma direção que mais preza pelo ambiente sujo, cheios de sacolas de lixos e caixas de papelões, e também nos vários planos abertos que evidenciam os arranha-céus e a modernidade japonesa que parece estar engolindo, subjugando ou ignorando os personagens principais. Satoshi Kon sai da sua deliciosa zona de conforto para entregar um filme natalino bastante diferente, focado nas minoridades e na marginalidade, com um trio principal falho, exagerado, quase que anti-heróis, envolvidos em uma sucessão de tramas bem poucos natalinas como assassinato, violência contra sem-teto e sequestro infantil. Curiosamente, esse fator real, cruelmente humano, é envolto na magia de natal, emocionando, divertindo e ensinando sobre a vida. Satoshi Kon homenageia o “espírito natalino”, mas com sua própria originalidade.

Padrinhos de Tóquio (東京ゴッドファーザーズ, Tōkyō Goddofāzāzu) – Japão, 2003
Diretor: Satoshi Kon
Roteiro: Satoshi Kon, Keiko Nobumoto
Elenco: Tōru Emori, Yoshiaki Umegaki, Aya Okamoto, Shôzô Îzuka, Seizô Katô, Hiroya Ishimaru
Duração: 92 min.

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