Crítica | Pai e Filha

Uma das funções mais inebriantes do audiovisual, notadamente de obras cinematográficas, é permitir que o espectador viva outras vidas – normalmente bem diferentes das que vivemos – nem que seja por algumas breves horas. Fugir de nazistas no deserto egípcio como Indiana Jones, incorporar um gangster como Tony Montana ou um mafioso como Don Vito Corleone, pilotar a Millenium Falcon como Han Solo e lutar vestido de aranha contra vilões super-poderosos são alguns dos grandes prazeres proporcionados pela Sétima Arte. Imersão é muitas vezes a palavra-chave e, quando a luz se apaga, mergulhamos em mundos diferentes e, se a obra é realmente espetacular, só imergimos quando os créditos começam a rolar ou quando as luzes se acendem.

Filmes que lidam com a vida como ela é tem uma tarefa mais complexa, pois eles não contam com a vantagem da “fuga”, da escapulida para uma outra realidade completamente diferente. Para que o espectador seja capturado e levado a viver aquela outra vida na telona, agora provavelmente parecida com a sua própria vida ou pior, se não for muito pior, o cineasta precisa encantá-lo com uma precisão cirúrgica, trazendo elementos para sua criação que temos até mesmo dificuldade em identificar quais são. Yasujiro Ozu foi um dos grandes mestres nessa dificílima arte e, arriscaria dizer, Pai e Filha é sua obra mais importante e definidora.

Baseado em romance homônimo do título em português de Kazuo Hirotsu, Banshun – ou “Primavera Tardia” (Late Spring, em inglês) – é o primeiro filme da chamada Trilogia Noriko de Ozu, completada por Também Fomos Felizes, de 1951 e o estupendo Era uma Vez em Tóquio, de 1953, que tem no elenco Setsuko Hara sempre como uma jovem solteira chamada Noriko, ainda que uma sem relação com a outra. Aliás, Pai e Filha marca a primeira de seis vezes que a magnífica atriz trabalharia com Ozu e o claro começo da estirada final do conjunto de obras dele nas décadas de 50 e 60 que definiriam para sempre o diretor. É como se a obra, em toda sua embasbacante simplicidade, estabelece ao mesmo tempo o fim e o começo (nessa ordem) do Ozu que mereceria constar do panteão dos grandes cineastas da História do Cinema.

O roteiro, escrito por Ozu mais uma vez em parceria com Kôgo Noda, é de um cuidado tocante, especialmente considerando o quanto o filme teve que driblar a censura da ocupação americana no Japão do pós-guerra, que tentava de toda forma inibir certas tradições locais. Na história, o viúvo Shukichi Somiya (Chishû Ryû, o excelente ator de estimação do diretor) é um viúvo que vive com sua filha solteira Noriko (Hara), de 27 anos, idade que a coloca no limite do “desejável” para conseguir um marido. O dia-a-dia dos dois é pacífico, sem grandes eventos e percebe-se uma enorme afeição entre eles, mesmo considerando o natural distanciamento e as raras manifestações físicas de amor que caracterizam os japoneses de Ozu. Diferente do que se poderia imaginar, mesmo considerando que a presença de Noriko por ali é extremamente conveniente para Shukichi, notadamente em uma sociedade pesadamente patriarcal, é ela que mais hesita em partir para outra vida, em deixar o pai quando a sugestão de um casamento arranjado começa a impor-se naquele ambiente.

Sei que muitos podem torcer o nariz para a posição da mulher que é retratada aqui, mas estamos falando de um filme japonês de 1949, pelo que precisamos ajustar nossas expectativas espaço-temporais. Aliás, essa situação – que é o ponto central da trama – foi um dos problemas que os censores americanos encontraram com a obra, exigindo modificações aqui e ali que Ozu e Noda acomodaram brilhantemente, mantendo não só suas posições de observância das tradições nipônicas, como também inserindo críticas ao momento histórico em que as forças dos EUA – militares ou não – passaram a influenciar o estilo de vida dos japoneses, mudando-o para sempre, como a História mostra. Portanto, a percebida subserviência de Noriko não é de forma alguma algo a ser afastado, mas sim admirado no contexto colocado e que abre espaço para Hara mostrar seu talento.

É enternecedor o trabalho da atriz na obra, talvez o melhor sob a batuta de Ozu. Sua alegria é radiante, da mesma forma que sua inconformidade com o casamento arranjado lhe chateia, especialmente a noção de que seu pai também está pensando em casar novamente. A Noriko de Hara, apesar de mostrar-se independente e com pensamentos próprios, é a primeira a fincar os pés na tradição e considerar um segundo casamento algo pecaminoso, o que obviamente cria um paradoxo quando ela não quer o noivo encomendado. No entanto, o elemento que se sobressai é a relação entre pai e filha, o respeito entre eles e a intimidade que compartilham. Se Hara é encantadora sozinha, junto com o veteraníssimo Chishû Ryû é como se nada mais existisse, com os dois tomando a objetiva de Ozu de tal maneira que o espectador fica transfixado, realmente projetando-se para dentro daquela vida simples, mas feliz. É nesse aspecto principalmente que está o grande ás na manga de Ozu para nos tragar para a obra de tal maneira que aquele cotidiano “banal” torna-se tão interessante e absorvente quanto uma perseguição de tirar o fôlego em algum filme do 007.

Mas a arte de Ozu vai muito além de sua capacidade de extrair o máximo de seu elenco ou de costurar um roteiro simples, mas sem falhas. Ao longo de toda sua carreira, é possível notar o quanto ele foi primeiro influenciado pela fábrica hollywoodiana, demonstrando abertamente sua admiração pelas obras americanas, mas também o quanto o Cinema Europeu, notadamente o alemão, chamou sua atenção. Demorou para que o cineasta encontrasse sua voz e sua essência, e Pai e Filha é a primeira grande vez em que Ozu realmente se torna Ozu. O choque entre o antigo e o moderno se faz presente no contraste entre os protagonistas, seus figurinos, suas formas de encarar a vida e até em suas maneiras de sentar – Shukichi sempre em tatames e Noriko quase sempre em cadeiras – e a grande temática do cineasta, a família e especialmente a relação entre pai e filho, volta com força total. Chega a ser curioso como o papel de Ryû, aqui, reflete o dele mesmo como Shuhei, em Era uma Vez um Pai, de certa forma corroborando o amadurecimento do diretor quando justapomos essas duas criações.

A cenografia detalhista ao ponto da obsessão que pontuou a carreira de Ozu ganha o equilíbrio perfeito em Pai e Filha, especialmente porque sua outra marca registrada, a câmera absolutamente parada, faz-se integralmente presente aqui, sem exceções. Portanto, o que vemos nos vários planos imóveis do diretor, sempre próximo ao solo, importa demais para o espectador, valendo notar que o uso da profundidade de foco total exige que prestemos atenção nas diversas camadas que ele coloca em cena para conversar conosco. Mas é uma conversa singela em sua proposta. Ozu, em sua extrema e desconcertante discrição, quer apenas nos fazer “sentir em casa”. Lembram-se quando eu falei na imersão e quando eu disse que ela é mais difícil em filmes que retratam o cotidiano? Bem, é nesses detalhes mundanos que o diretor realmente se destaca. Nada está fora do lugar, porque tudo está naturalmente em seu lugar. Sim, para nós, ocidentais, a mera ambientação oriental já sai do lugar comum, o que talvez exija de nós uma terceira camada de imersão, mas mesmo considerando isso na equação, é impressionante quando notamos o que não é para notarmos.

Pai e Filha passará despercebido do espectador na primeira conferida, porque ele é feito para ser assim, um filme minimalista discreto que nos faz mergulhar em seus meandros mesmo que não queiramos, somente para descobrir que, quando piscamos novamente, 108 minutos se passaram. E isso nos obriga – ou deveria, pelo menos – a revisitar a obra para olharmos com um olhar menos encantado, menos capturado pelas lentes de Ozu de forma que possamos entender como sua mágica funciona. Um filme como esse, que nos faz viver de maneira vicariante sem que sequer percebamos o que está acontecendo, simplesmente não tem preço.

Pai e Filha (Banshun – Japão, 1949)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda (baseado em romance de Kazuo Hirotsu)
Elenco: Chishū Ryū, Setsuko Hara, Yumeji Tsukioka, Haruko Sugimura, Hohi Aoki, Jun Usami, Kuniko Miyake, Masao Mishima, Yoshiko Tsubouchi, Yōko Katsuragi, Toyoko Takahashi, Jun Tanizaki, Yōko Benisawa
Duração: 108 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.