Crítica | Pai em Dose Dupla 2

“Pai! Esse suéter, ele usa um suéter vermelho para que eu possa vê-lo em uma multidão.”

Pai em Dose Dupla 2 não é uma clássica continuação de comédias americanas, mesmo sendo, ao mesmo tempo, classicista em diversas das suas pontuações, iniciando-se pela sua premissa, que encontra as festividades natalinas como uma temática para si, embora recorrente do gênero, assim como as viagens de férias, igualmente corriqueiras e pouco originais narrativamente – os exemplos na indústria norte-americana são vastos. A sequência, entretanto, exprime uma ideia de multiplicação de personagens, paralelamente renovando as dinâmicas, que justifica-se perfeitamente, ironicamente, até mesmo absolvendo o abrasileiramento do nome do longa-metragem, que continua possuindo um sentido surpreendente, um pouco matemático. Os dois pais, interpretados por Mark Wahlberg e Will Ferrel, já foram estudados anteriormente, então chegou a hora dos avôs revirarem um pouquinho os relacionamentos construídos no sucesso anterior, comandado por Sean Anders, que retorna na direção. Uma das crianças dessa família nem um pouco usual quer um Natal unificado. O problema é que a harmonia está em perigo.

O argumento, em primeira instância, entende quem são as personalidades dos artistas no nosso mundo, conversando com esse contraste entre a mentira e a realidade. O machão encarnado por Mel Gibson – um infame sujeito com constante participação em tabloides -, ao mesmo tempo que é um tanto quanto ultrapassado, com visões retrógradas e misóginas, precisa quebrar com os seus paradigmas, deparando-se com o relacionamento que os respectivos personagens de Will Ferrel e John Lithgow possuem, muito mais sentimental. Mark Wahlberg, particularmente, também não é uma das flores mais cheirosas de Hollywood, acumulando comentários negativos ao longo dos anos. Já John Lithgow é um artista naturalmente carismático, com um rosto simpático e acúmulo de papéis agradáveis, sendo até mesmo, ironicamente, o pai de um machista de carteirinha na série How I Met Your Mother. O jogo identitário, contudo, mostra-se mais interessante quando percebemos que o ator, em um dos seus papéis mais importantes, interpretou um misógino assassino de mulheres em Um Tiro na Noite, maravilhoso clássico de Brian De Palma.

A curiosa comédia, em consequência, possui espaço para desconstruir completamente esses preceitos existentes nos seus protagonistas em realidade, desvirtuando o nosso entendimento de masculinidade, ao mesmo tempo que o personagem de Gibson quer, por algum motivo absurdista, destruir o convívio pacífico entre esses pais, aparentemente amigos também. O inimigo é o machão sem esclarecimento, incomodado com o amor nutrido pelos demais personagens. O interessante humor ganha âmbitos contrastantes, porque Will Ferrel, mesmo sendo ácido demais em muitos casos de sua carreira, é um ator que sempre sacaneou os machões de outrora, como no clássico O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy, incorporando, já nessa franquia aqui, uma figura paterna mais adorada, que ganha o amor das crianças. Mark Wahlberg, por outro lado, apesar de ter conquistado os seus filhos, não possui o grau de intimidade que Will Ferrel possui, enxergado pelo antagonismo de Mel Gibson como uma ausência de controle. A sua afilhada, no mais, é distanciada de si porque não ganhou o afeto de nenhum dos seus pais. O afeto é tudo, portanto.

A obra, apesar de ser mais interessante do que aparentava, diante do preconceito estabelecido com essas continuações de comédias estadunidenses, novamente acerca do famigerado Natal, não consegue surpassar o seu ótimo argumento, possuindo um roteiro demasiadamente previsível e que não compreende o que discursar sobre as personagens femininas. O coração, no entanto, está no lugar certo, o charme de Will Ferrel é suficiente para movimentar um longa-metragem e, caso o sentimentalismo seja desnecessário para um momento entre Linda Cardellini e Alessandra Ambrósio, sub-trama completamente perdida no roteiro, a pieguice da grande resolução é extraordinária, colocando os personagens para cantarem, dançarem e resolverem seus problemas da maneira mais clichê, apaixonada e “afeminada” possível, como se as coisas possuíssem realmente um gênero definido. John Cena em uma participação mais pontual, porém, impagável, é outra ponte para essa conversação entre masculinidade, clima natalino, relacionamentos paternos e também amor – convencional, consideravelmente ordinário, mas também contemporâneo.

Pai em Dose Dupla 2 – (Daddy’s Home 2) – EUA, 2017
Diretor: Sean Anders
Roteiro: Sean Anders
Elenco: Mark Wahlberg, Will Ferrell, Mel Gibson, John Lithgow, Linda Cardellini, John Cena, Owen Vaccaro, Scarlett Estevez, Alessandra Ambrósio
Duração: 100 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.