Home FilmesCríticas Crítica | Pai (Otac, 2020)

Crítica | Pai (Otac, 2020)

por Roberto Honorato
308 views (a partir de agosto de 2020)

Os primeiros minutos de Pai, dirigido por Srdan Golubovic, apresentam uma sequência de abertura impactante, na qual uma mãe, desesperada por conta da fome e falta de dinheiro, ameaça atear fogo em seus filhos e no próprio corpo como protesto por seu marido não ter recebido seu último pagamento do estado. Depois dessa atitude inesperada, agentes da assistência social recebem a ordem de levar as crianças para longe da mãe, o que obriga o pai deles, Nikola (Goran Bogdan), a correr atrás da custódia. Mas Nikola não sabe que além da burocracia, precisa lidar com a corrupção do sistema de adoção, que o obriga a sair de sua pequena vila na Sérvia e atravessar parte do país à pé, com a intenção de apelar para o ministro nacional. 

O personagem sai de casa carregando apenas uma mochila e a chave da porta da frente, e em seu caminho solitário dá de cara com diversos desafios, como animais, pessoas tentando roubá-lo e os obstáculos da burocracia e as estritas leis de seu país, que vem passando por um aumento na taxa de desemprego, mas não parece interessado em consertar o problema. Em certo ponto, o protagonista chega a mencionar como “é quase impossível arranjar um emprego em tempo integral nos últimos anos”, sendo respondido com reações indiferentes. O enredo de Ognjen Svilicic (co-escrito pelo diretor, Golubovic) questiona essa indiferença, mas também apresenta pequenos respiros de compaixão, com algumas pessoas simpatizando com a dor do personagem, o ajudando da maneira que podem.

Nikola precisa lidar com o trauma de sua esposa e a possibilidade de perder os filhos, mas em nenhum momento é intimidado ou considera desistir de sua missão, diversas vezes recusando ofertas e mantendo sua posição através de protestos pacíficos. Se não fosse pelo ótimo trabalho de Goran Bogdan em um papel expressivo, mantendo uma interpretação física que parece estar constantemente à beira do colapso, o longa não teria o mesmo peso, isso porque ele depende quase inteiramente da atuação de Bogdan.

Com uma premissa e sequência de abertura tão fortes, o maior problema de Pai é não manter o mesmo sentimento de tensão e incerteza ao longo da jornada de Nikola, ou pelo menos não entregar algo no mesmo nível. Mesmo que o protagonista precise lidar com o desgaste físico e mental, o longa está constantemente inserindo novos obstáculos em seu caminho, e por mais que a intenção não seja a de recriar a mesma sensação angustiante do começo, o filme parece querer manter o espectador investido com impasses que passam a se tornar cada vez mais previsíveis. Com a dificuldade de se superar em viradas na trama, a obra alcança um terceiro ato fraco, que necessita de uma montagem menos repetitiva, retirando talvez meia hora de duração, o que poderia distrair da sensação de cansaço que você sente ao terminar o filme.

Mesmo repetitiva, a trama de Pai se sustenta pela comovente interpretação de Godan Bogdan e os temas de paternidade e justiça que o longa soube executar sem apelar para soluções fáceis. A direção de Golubovic pode não salvar uma montagem inconsistente, mas casa com a fotografia que captura a beleza das paisagens da Sérvia, por mais vazias e solitárias que pareçam.

Pai (Otac – Sérvia, 05 de Março de 2020)
Direção: Srdan Golubovic
Roteiro: Ognjen Svilicic, Srdan Golubovic
Elenco: Goran Bogdan, Boris Isakovic, Nada Sargin, Milica Janevski, Muharem Hamzic, Ajla Santic, Vahid Dzankovic, Milan Maric, Jovo Maksic, Marko Nikolic, Nikola Rakocevic
Duração: 120 min.

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